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Número 920,

Cultura

Papinho Gourmet

Estranho caminho

por Marcio Alemão publicado 03/10/2016 04h27
Um caso exagerado entrega de corpo e alma
Kinoshita

O chef Murakami, em seu discurso, não conseguiu sair da parte das vísceras e não nos entregava a parte da criação

Há duas semanas fui convidado a participar de um evento promovido pelo Clube de Criação de São Paulo.

Um evento, diga-se, muito bem organizado com boas palestras e muita troca de conhecimentos, experiências e cartões, físicos e virtuais.

Uma delas falaria sobre “O Processo Criativo” em uma cozinha e me convidaram a integrar a mesa, que não era mesa, era palco.

Junto estaria o chef Tsuyoshi Murakami, do mui famoso e bom restaurante japonês Kinoshita.

Confesso que hesitei muito em escrever sobre o assunto por acreditar que o que aqui direi deveria ter sido na hora.

Na hora, todavia, o chef parecia estar muito animado com seu discurso e, não sendo o dono da mesa, julguei que o melhor seria me calar, não sem tentar em alguma oportunidade mudar o rumo da conversa.

E por que tentei fazer isso?

Murakami logo de cara deixou claro o que todos já sabemos: sem tesão não existe solução, para nada, em nenhum tipo de atividade.

Essa colocação, no entanto, alongou-se e começou a vir acompanhada de exemplos que eu classificaria de estranhos, bizarros e, sendo mais preciso, inapropriados para um chef e dono de restaurante.

Ao tentar nos contar que ele se entrega de corpo e alma contou-nos que costuma observar sua urina, que tem estado de tal maneira translúcida a ponto de se tornar irresistível à degustação. Sobre suas fezes também se orgulhou ao falar da consistência. Foi além: gosta do cheiro.

Algumas pessoas foram aos poucos se retirando da sala. Ele, todavia, parecia estar decidido a repisar o tema.

Repito que todos haviam entendido que é preciso uma entrega quase visceral quando se pretende criar algo.

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Como jornalista de gastronomia, nunca passei por uma situação tão constrangedora (Commons/ Wikipedia)

Mas o chef não conseguia sair da parte das vísceras e não nos entregava a parte da criação. Quem sabe falta de tempo. Os 60 minutos não foram suficientes para que pudéssemos relevar o vocabulário modesto, repleto de conhecidas expressões da língua falada, às quais é de bom-tom evitar ou restringir em um evento mais formal.

Como ser criativo em um ambiente tão rígido como o da cozinha japonesa sem usar, obviamente, cream cheese e maionese?

Para os presentes, todos publicitários, todos fazedores de sushi, seria interessante ouvir. Como se diferenciar?

E mais uma vez tivemos de tentar entender como a massagem que ele faz na esposa e que a faz subir pelas paredes teria a ver com a resposta.

Naturalmente em poucos momentos algumas risadas foram ouvidas. Não creio que isso pode ser interpretado como algum tipo de autorização para que o chef perguntasse às meninas presentes: “Vocês estão molhadinhas?”

Como jornalista de gastronomia, nunca passei por uma situação tão constrangedora.

O Kinoshita é um excelente restaurante, mas nunca mais conseguirei entrar lá sem associá-lo a fezes, a urina e demais fluidos corporais.