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Número 920,

Cultura

Exposição

A linha gloriosa de J. Carlos

por Rosane Pavam publicado 02/10/2016 09h49, última modificação 02/10/2016 04h03
Com seu traço de elegância irrepetível, o caricaturista e designer revelou as contradições do brasileiro
Acervo Instituto Memória Gráfica Brasileira
Praia Carioca

Na capa da revista,a invenção da praia carioca

José Carlos de Brito e Cunha, o J. Carlos, nunca foi fã de escola. Mas jamais se esqueceu de suas aulas de latim, nas quais aprendeu que “lápis” significava “pedra”. A ideia então lhe pareceu óbvia, enquanto zombeteira, no estilo de sua caricatura essencial. Em 1924, aos 40 anos, enfiaria um lápis no terreno do Jardim Botânico adquirido por 70 contos de réis e sobre ele construiria sua casa.

Pai de cinco filhos, o marido de Lavínia viveria exclusivamente da arte produzida pelo grafite. Trabalho demais. Em 1950, aos 66 anos, um acidente vascular cerebral tirou sua vida enquanto ele planejava, ao lado de Braguinha, as capas para os discos infantis do compositor.

Entre o arreliado Arpoador e o tranquilo Posto Seis, J. Carlos fez a coisa rara para a época. Banhou-se no mar. Ele inventou a praia carioca, como afirma o desenhista Cássio Loredano, curador, junto a Julieta Sobral, da exposição J. Carlos em Revista, até 20 de novembro no Centro Cultural Correios, em São Paulo. “Não existiam aquelas moças de trajes de banho duas-peças que ele coloca nos seus desenhos.

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A ironia em relação ao sentido da nova arte e duas expressões do politicamente incorreto (Acervo Inst. Memória Gráfica Brasileira)

O J. Carlos inventou o biquíni.” Invenção é palavra-chave para entender a mostra que, inaugurada há dois anos, no Rio de Janeiro, revela por meio de grandes reproduções a ação única do desenhista pelo design gráfico, a crônica caricatural e a publicidade. Quando a televisão não sonhava existir, os desenhistas da imprensa eram os reis. E, entre eles, o moço do lápis exercera a linha gloriosa.

“Na faixa de Gaza entre a art nouveau e a art déco, J. Carlos assimilou a influência brasileira”, diz Julieta Sobral. “Não há nada que sobre no que ele faz.” Tinha fineza mental, como escreveu Câmara Cascudo. O artista via a nova cidade a florescer nos teatros, nas ruas e nos cinemas.

E sabia que as mulheres tinham mudado. Melindrosas, elas usavam os vestidos curtos e as ideias alargadas. J. Carlos passou à história como mulherólogo sem que jamais tivesse corrido atrás de outras saias exceto as da esposa. Seu único vício parecia ser o cigarro na boca, que, aliás, não deixava ninguém fotografar.

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Propaganda da Cinearte feita por J.Carlos com a caricatura de Buster Keaton (Acervo Instituto Memória Brasileira)

Um dia, no bonde, viu que havia se consagrado. Duas jovens, no assento à frente, discutiam o figurino para o baile. Uma delas pesquisava modelos nas revistas estrangeiras, mas a amiga encontrara o mais belo modelo na caseira Careta, que J. Carlos voltara a dirigir nos anos 1930, depois de uma passagem na década anterior. A partir de 1922, na revista Paratodos, descobria a mulher.

Não se tratava, em suma, de uma publicação para o espectador geral. Era uma revista feminina porque cultuava a arte. A mulher fazia crescer o interesse pelo cinema, por seus ícones. Eis por que, além de tudo, o artista a revelava maior que os homens na proporção do desenho, dona da brincadeira sensual.

Suas ilustrações parecem desdobrar-se em muitas outras, sonhos desenhados sobre sonhos. Um trabalho excessivamente complicado para a época. A reprodução gráfica acontecia por “cor indicada”. J. Carlos fazia o desenho em preto e o mandava para que a oficina confeccionasse o clichê. O original subia de volta para que indicasse as cores, quatro para as capas. Para otimizar o papel, fazia as quatro semanais de Paratodos de uma só vez.

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O papagaio, cujo desenho-símbolo Disney transformou em Zé Carioca (Acervo Instituto Memória Gra´fica Brasileira)

Julieta Sobral descobriu isto ao perceber as cores semelhantes, embaralhadas sutilmente, nas capas do mês de fevereiro de 1927. Na primeira delas, Colombina dá mole para Arlequim e Pierrô se incomoda. Na segunda, Arlequim está morto, observado por Pierrô, que na terceira capa leva Colombina nos ombros pelo salão, a cabeça degolada do rival em uma bandeja. Na capa final, o diabo varre os dois personagens, mas Colombina está a salvo, indiferente à tragédia daqueles que a desejaram.

Loredano diz que o artista obedeceu à linha como um soldado. Sem firulas, responsabilizou-se pelo projeto visual das revistas enquanto as rabiscou quase por inteiro, mais de 50 mil desenhos por seus 18 mil dias vividos.

Um sistema então revolucionário, a zincogravura, permitia que fizesse o traço diretamente no clichê. Ele começou aos 18 anos, ao enviar ao periódico O Tagarela, em 1902, uma charge inspirada nos desenhos de Angelo Agostini, nos quais as cabeças dos políticos surgiam grandes e vazias.

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Capitular de J.Carlos inspirada na grande arte do século anterior (Acervo Inst. Memória Gráfica Brasileira)

Antibelicista, destacou-se na interpretação de duas guerras mundiais para os inúmeros veículos em que trabalhou, entre eles O Malho, O Cruzeiro, Tico-Tico e Fon Fon. Parceiro de Andrés Guevara, conduziu a publicação política O Papagaio.

A ave teve um destino inesperado: Walt Disney a viu no Rio em 1941 e pouco tempo depois nascia Zé Carioca. Na exposição, o papagaio de J. Carlos surge em um dos calhaus que o artista confeccionava para resolver quebras de diagramação. O texto diz muito: “Quando vê gente que avança, o louro fica possesso. Papagaio come milho, mas não come os do Congresso”.

Insatisfeito com a qualidade das fotos, J. Carlos colocou o desenho a dialogar com elas. Por vezes retirou o fundo, armou molduras, frisos e linhas para ressaltar a profundidade negada na imagem original. Suas capitulares eram um show.

Adornadas, como no século anterior, ou simples evoluções do desenho, elas ampliavam a importância da letra para o público nacional das revistas, em sua maioria vítima de analfabetismo funcional. As capitulares modernas de J. Carlos eram uma contradição em si, uma vez que os modernos nem usavam capitulares.

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A narração da rivalidade entre Pierrô e Arlequim e Colombina ao lado do Diabo. J. Carlos usou publicidade como experimento (Acervo Inst. Memória Gráfica Brasileira)

Entrou na publicidade por dinheiro, mas também por desafio, como escreveu: “Em 1931, resolvi fazer uma experiência para ver se de fato era desenhista ou se tratava de fama ou defeito visual dos que disputavam meus bonecos. Quis investigar a fundo minha mediocridade”.

Ironizou a arte moderna em uma charge na qual um espectador, somente quando embaralhado, entende o quadro diante dele. Politicamente incorreto, viu problemas nos estrangeiros.

Em uma edição de Paratodos, emoldurou uma foto de Josephine Baker com o seguinte texto: “Estrela morena de Paris. As primeiras notícias que chegaram aqui sobre ela chamavam Josephine Baker de estrela negra. Isto deu em resultado o aparecimento de várias estrelas de azeviche nos palcos do Rio.

Depois, fotografias e informações de boca disseram que Josephine Baker não era tão preta assim. Aqui está um retrato dela que é apenas moreno, sem traços, nem no nariz, das atrizes de cor cá destas bandas”.