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Número 919,

Economia

Opinião

Os juros reais no mundo

por Delfim Netto publicado 28/09/2016 05h09
A recuperação nos países desenvolvidos continua muito lenta e titubeante
Pixabay
Times square

A grande moderação foi percebida especialmente nos Estados Unidos

A crise de 2008 foi precedida de uma diminuição da volatilidade da atividade econômica observada em muitos países desenvolvidos, especialmente nos Estados Unidos, característica que recebeu o nome de “a grande moderação”.

A redução da volatilidade do PIB e da taxa de inflação “parecia” ter sido produzida pelo mix de política econômica sugerido pelos avanços da ciência econômica, mas ela caiu como uma bomba sobre a atividade da economia real, que até hoje não se recuperou plenamente.

Ninguém sabe se a “grande moderação” foi produto de uma mudança da estrutura produtiva, de uma melhora da política econômica informada pelo aperfeiçoamento da “teoria”, ou pura “arte”. Na minha opinião, a “sorte” exerceu, em qualquer caso, um papel importante! A recuperação nos países desenvolvidos continua muito lenta e titubeante.

Talvez o fenômeno mais intrigante do quadro atual seja o comportamento da taxa de juros real mundial de curto e longo prazo, que apresenta uma tendência ligeiramente declinante desde os anos 80 do século XX e um forte declínio a partir de 2000, como se vê no gráfico 1.

A queda da taxa de juros real de aproximadamente 4,5 pontos porcentuais, de 5%, nos anos 80, para alguma coisa parecida com 0,5% hoje, não é fenômeno trivial. Foi saudado inicialmente, sem ser explicado, como resultado da política econômica da “grande moderação”.

Não pode, também, ser atribuído apenas a um excesso de poupança que infeccionou as economias dos países desenvolvidos. Mesmo nas economias emergentes, com a óbvia e triste exceção do Brasil, a taxa de juros real vem caindo desde 2005, tendo revelado um pequeno crescimento nos últimos três ou quatro anos.

Gráfico

É claro que no nível mundial (o mesmo que ocorre nas economias dos países) a poupança ex-post (S) é sempre igual ao investimento (I) e com relação ao PIB (Y), sempre teremos S/Y = I/Y, qualquer que seja o nível de equilíbrio do PIB. Quando a propensão a poupar é maior do que a vontade de investir, o PIB cai para igualar S/Y com I/Y, e vice-versa. A variável de ajuste é o nível do PIB. Ora, um dos fatos empíricos mais intrigantes é que S/Y = I/Y tem sido aproximadamente constante no mundo (qualquer coisa como 23% a 25%) desde os anos 80 do século XX (IMF, WEO abril/2016).

Compreender com nossos pobres modelos neoclássicos esse fato exige que aceitemos que houve mudança tanto na formação da poupança quanto na propensão a investir, como se vê no gráfico esquemático 2. É preciso explicar por que se deslocaram para baixo a curva de poupança e a de investimento.

Quando se exploram essas causas, chega-se à conclusão de que talvez a probabilidade de um substancial aumento das taxas de juros reais (por causa de problemas demográficos, aumento das desigualdades, redução dos investimentos públicos, queda do crescimento do PIB etc.) esteja num horizonte longínquo.

Para o Brasil – se organizar suas finanças – este pode ser um momento de boas oportunidades para nossos projetos de infraestrutura. Quem tiver curiosidade não deve perder Rachel, R. – Smith, T.D. – “Secular drivers of the global real interest rate”, Bank of England, Staff Working Paper nº 571, 2015.