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Número 919,

Sociedade

Brasiliana

O fervor poético nas estantes

por Rosane Pavam publicado 20/09/2016 04h27, última modificação 20/09/2016 15h47
Campanha recolhe fundos para a preservação dos 6 mil volumes da biblioteca de Roberto Piva
Arquivo
Piva

A poesia delirante do autor escreveu sobre o que ele leu. Seus livros ajudam a compreendê-lo

No aprazível Centro, a vida cultural fazia-se plena. São Paulo era outra cidade no fim dos anos 1950. Provinciana, ela recebia os febricitantes da cultura entre a Avenida São Luís e a Rua 7 de Abril. Matriculado em escolas públicas, como o Caetano de Campos, ou em particulares, como o Dante Alighieri, um grupo de adolescentes lia poemas em voz alta enquanto consumia vinho barato no Paribar. Roberto Piva era um dos jovens para quem os beatniks constituíam uma revelação.

Futuro autor de Paranoia, um clássico poético em torno da capital, Piva adquiriria as edições estrangeiras, de Dante a Allen Ginsberg, em livrarias como a Francesa, a Parthenon ou a Mestre Jou. Quando morreu, em 2010, aos 74 anos, 6 mil livros o cercavam, sobre assuntos tão diversos quanto a poesia italiana, o xamanismo (de que se tornou adepto), a verve de Lautréamont, o renascimento, o surrealismo, o nazismo, a expressão poética de Jorge de Lima, o pensamento de Hegel.

Piva não parecia ser um fetichista dos livros, embora assinasse seu nome duas vezes no início de cada brochura. Raramente rabiscava uma edição, preferindo, em lugar disso, marcar as páginas com tiras de papel. Sua biblioteca refez-se a todo instante, na velocidade de seus interesses, renovados muitas vezes desde a juventude. Marxista durante a ditadura, declarou-se monarquista nos últimos anos, quando pareceu estetizar a política e confundir a todos.

Seus volumes que raciocinavam sobre as ideias de Marx desapareceram então do nada, como a antiga crença. Ele não organizava os livros, exceto pela aproximação de suas pesquisas, dos próprios pensamentos poéticos, e os volumes se empilhavam em cantos.

Ao companheiro dos últimos 15 anos de vida, Gustavo Benini, disse que não se importava com o destino das edições após sua morte. Ele poderia vendê-las aos sebos, doá-las a bibliotecas públicas, fazer o que quisesse.

Convencido pelos editores Vanderley Mendonça, da Demônio Negro, e Gabriel Kolyiak, da Córrego, Benini decidiu pela doação dos títulos a um centro cultural, que se formará tão logo as edições sejam catalogadas em um prédio do Vale do Anhangabaú, na mesma região central. Os livros se tornarão de acesso público, embora não possam circular.

Dentro do espaço haverá pronunciamento de pesquisadores e serões poéticos, nos quais a literatura de Piva e de grandes autores de sua predileção, como Octavio Paz, serão vivenciados de maneira direta e coletiva. As duas editoras passarão a publicar a obra dispersa e inédita do brasileiro, a exemplo da plaquete Carta aos Alunos, que ele escreveu em 1979 como paraninfo de uma turma de Ensino Médio: “O que pode vir em nosso socorro diante da dor, da angústia, do amor e da morte?”, perguntava o poeta no pequeno texto editado agora. “As experiências da vida e da morte são incomunicáveis. Enquanto isso, sondamos a escuridão como os braços de um moinho.”

Estante
As obras raras em prateleiras provisórias (Foto: arquivo)

Uma campanha a se encerrar dia 25 de setembro recolhe fundos para que a fase inicial da biblioteca seja concluída. Até o último dia 12 haviam sido reunidos 11,3 mil dos 40 mil reais necessários para a limpeza dos livros, a montagem das estantes e a catalogação das edições por um bibliotecário.

Será um passo importante, acredita o poeta, professor e amigo Claudio Willer, de 75 anos, para a expansão de uma obra que, ao contrário daquela dos concretistas, raramente se proclamou por meio da mídia, antes por sua proximidade com o leitor.

Willer frequentou inúmeras vezes a biblioteca de Piva, que conheceu em 1960. “A minha sensação de desconforto em relação à sociedade burguesa encontrou nele um bom porta-voz. Procurei-o porque era culto, porque tinha algo a dizer. Ele foi um poeta-leitor”, conta o amigo.

“Sua poesia delirante escreveu sempre sobre o que ele leu.” Piva nem sempre teve dinheiro para adquirir livros, esses que seus amigos às vezes não se importava em extrair livremente das livrarias. O poeta ganhava exemplares de pessoas próximas, como de sua enigmática “tia Lygia”.

Em 1970, ao saber que o amigo traduziria os versos de Lautréamont, Piva deu-lhe uma antologia italiana da obra do poeta, na qual se destacavam os estudos críticos, úteis para o exercício da versão ao português. Sabedor de sua generosidade, Willer pediu-lhe socorro uma segunda vez.

O tradutor iniciava trabalho semelhante sobre a obra de Guillaume Apollinaire, de quem o célebre companheiro de noitadas tinha uma fantástica edição completa. Mas, por alguma razão, desta vez, ele se negou a emprestá-la. Willer não teve dúvida. “Como eu precisava daquela obra de qualquer jeito, invadi sua biblioteca, peguei o exemplar e o devolvi depois. Piva, mesmo sem querer, me ajudou uma vez mais, e de forma extraordinária.”