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Número 919,

Política

Opinião

As esquerdas e a eleição

por Marcos Coimbra publicado 21/09/2016 03h58
A desconfiança nas instituições, incentivada pelas elites, pode intoxicar o voto no dia 2 de outubro
Ricardo Stuckert/ Instituto Lula
Lula e Haddad

Agora que Lula passou a ser alvo direto, o quadro pode ser mais favorável ao PT e às esquerdas

Na razia que promovem para se livrar de Lula e do PT, as elites brasileiras não poupam alvos ou contam munição. Sua ânsia de retomar o controle do Estado é tamanha que atiram para todos os lados.  

Depois da deposição de Dilma Rousseff, assestam agora suas baterias contra o alvo principal. Desde o início, era Lula quem queriam trucidar, pelo temor de sua força popular e resiliência. À frente vão os precursores das brigadas rebeladas do aparelho de Estado, na polícia e adjacências, de braços dados com os oligopólios de comunicação. Resta ver se o conjunto do sistema político e jurídico permanecerá imóvel, concordando que é assim que as coisas devem ser no Brasil e fornecendo mais um lastimável espetáculo ao mundo civilizado.  

Essa guerra já deixou um rastro de destruição na economia, na vida das pessoas e na política. Ficamos mais pobres como país, mais divididos como sociedade, mais desanimados como cultura. A imagem do Brasil fragilizou-se, entre seus cidadãos e perante o resto do mundo. A confiança nas instituições diminuiu. Ninguém sabe ao certo o que esperar delas.

Uma das vítimas desse estado de coisas são as eleições municipais. Estão marcadas para daqui a duas semanas, sem que o eleitorado esteja sequer se apercebendo delas. Para a vasta maioria das pessoas, vão chegar de repente e acabar mais de repente ainda. Será como se saltássemos uma eleição. 

Pena, pois todo pleito é importante na formação de uma cultura democrática. Algo de que o Brasil carece, com sua história política marcada por limitações ao sufrágio, ditaduras e golpes de Estado, com juristas sempre prontos a dar “jeitinhos” e acochambrar as invenções que as elites encomendam. 

Este ano, apesar de tudo o que está acontecendo e a tomar pelas pesquisas disponíveis, as eleições nas capitais podem surpreender. Nada indica que serão o cemitério das esquerdas e do PT que os mais afoitos imaginavam. Agora, então, que Lula passou a ser alvo direto, o quadro pode ser-lhes ainda mais favorável.    

É bom lembrar que o PT hoje governa apenas três capitais, Goiânia, Rio Branco e São Paulo. A esses poderíamos somar Fortaleza, São Luís, Natal e Curitiba, administrados por prefeitos do PDT que estiveram na defesa de Dilma até o final e pertencem a grupos políticos que fazem oposição ao governo Temer. 

De acordo com as pesquisas mais recentes e deixando São Paulo para o fim, o PT tem chance de ir a quatro prefeituras de capital, pois é franco favorito em Rio Branco, lidera em Porto Velho e divide a liderança em Porto Alegre e no Recife.

Na capital gaúcha, Raul Pont empata no primeiro lugar com o candidato do PMDB e ambos são seguidos de perto por Luciana Genro, do PSOL, o que sugere uma possível vitória da esquerda no segundo turno. No Recife, João Paulo está igual ao atual prefeito do PSB e tem ampla chance de vitória. 

Ministros e Temer
Resta ver se o conjunto do sistema político e jurídico permanecerá imóvel

Os quatro pedetistas estão em primeiro ou segundo lugares, sendo Carlos Eduardo, em Natal, forte favorito. O prefeito de Fortaleza, apoiado por Ciro e Cid Gomes, está na dianteira e receberia o endosso do PT no segundo turno, como aconteceu em 2012.

Caso semelhante ao de Edivaldo Holanda, em São Luís, apoiado pelo governador Flávio Dino, do PCdoB. Resta Curitiba, onde Gustavo Fruet está em segundo e o terceiro posto é ocupado por um candidato do PMDB não alinhado ao Planalto.   

Do PSOL são os líderes em Belém e Cuiabá e há dois casos de favoritos com trajetória partidária descontínua, mas próximos da esquerda. Luciano Cartaxo, prefeito de João Pessoa, lidera com folga a eleição, estando hoje no PSD, mas fez sua carreira política no PT e foi contrário ao impeachment até o final. Clécio Luís, de Macapá, é favorito e pertence à Rede, mas foi do PSOL e integra sua corrente à esquerda. 

Não parece, portanto, irreal o prognóstico de que, nas eleições nas capitais estaduais, a oposição de esquerda ao governo Temer aumente substancialmente de tamanho. Resultado até inesperado, considerada a força do golpe que a direita acabou de desfechar. 

E São Paulo? Quem acompanhou as eleições mais recentes na cidade sabe quão difícil é antecipar resultados quando faltam semanas. Mas, se as pesquisas se confirmarem, parece provável a derrota do PT.

Fernando Haddad, um dos melhores quadros políticos brasileiros surgidos nos últimos anos, pode ser mais um atingido na guerra contra seu partido. Apesar de qualquer pessoa inteligente, à direita ou à esquerda, reconhecer suas qualidades como prefeito e sua superioridade em relação aos concorrentes.