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Número 918,

Sociedade

Papinho Gourmet

Pra que mudar?

por Márcio Alemão publicado 19/09/2016 05h03
Raros aqueles que conseguem dar esse passo. É o tal paladar infantil e o bitolado.
Istockphoto; Ilustração: Milena Branco
Papinho Gourmet

Será que ninguém pede para o Alex tirar a formiga e substituir por um escorpião?

–Vou arriscar e afirmar que pra ser dono de restaurante você tem de ter, mais que um bom chef, uma gigantesca paciência.

– Ouço isso há muito tempo. Lembro até de um dono de restaurante já cansado depois de muitos e muitos anos de porta aberta ao público me dizendo durante um jantar: “Se você gosta mesmo de cozinhar, não abra um restaurante; uma coisa nada tem a ver com a outra”.

– Hoje, até acredito que isso tenha mudado um pouco. Aprendemos a respeitar a cozinha de autor.

– Será? Será que ninguém pede para o Alex tirar a formiga e substituir por um escorpião?

– Mas nada que se possa comparar com o que deve rolar em uma cantina.

– Sem extremos, te conto do post de uma amiga, dona de um restaurante de alto nível no Rio. Depois de muita pesquisa, de muito pensar, imaginar, fazer e refazer, chegou a uma versão bastante interessante de uma rabada. Um novo jeito de ver o prato e seus fiéis comparsas, como o agrião. Desfiou, acrescentou um purê de pinhão e uma emulsão de cará e agrião. Uma beleza de se ver e comer.

– Gosto disso. Quando se mantém o respeito pela largada, pela memória e se acrescenta o que pode valorizar o que sempre valioso foi.

– Mas aí aparece um amigo que lhe manda a seguinte pergunta: “Tem rabada com polenta no seu restaurante?”

– Aí dá vontade de colocar aquele garçom cínico pra responder. 

– Ele poderia dizer que tem. O cardápio oferece mais de 27 variações de rabada. Especializaram-se nisso depois de muitas pesquisas e análises das tendências futuras do mercado gastronômico. A rabada tende a ser o new sushi. Inclusive, a partir da próxima semana estarão oferecendo uma rabada doce, a exemplo das
pizzas, como sobremesa.

– É definitivamente estranho não passar pela cabeça da pessoa que aquele post, aquela foto, mostra uma nova versão de um prato bastante conhecido e que a intenção de quem postou foi clara: despertar a curiosidade, aguçar o paladar dos apreciadores daquela matéria-prima e convidá-los para participar de uma nova experiência que nem tão radical é.

– Raros aqueles que conseguem dar esse passo. É o tal paladar infantil e o bitolado. 

– Para fechar com chave de diamante este Papo, ouço ao meu lado: “Domingo pra mim tem de ter macarrão e frango com batata. Não adianta me oferecer nem lagosta, nem camarão. Domingo pra mim tem de ter macarrão e frango com batata”.

– Eu nunca vou querer ter um restaurante.

– Eu tampouco.