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Número 918,

Política

Opinião

O engolidor de sapos

por Mauricio Dias publicado 09/09/2016 12h44
Aécio diz que o governo não existe sem o PSDB. Mas o que é um batráquio a mais para Michel Temer, já assolado pelas pressões do PMDB?
Andressa Anholete/AFP e Wilson Dias/ABr
Aécio e Serra

Quem engole quem?

É mais profundo do que parece o conflito entre os tucanos e Michel Temer. O PSDB é o pilar da base aliada do governo do PMDB. Por trás das aparências de lealdade há, entre eles, uma disputa acirrada com o objetivo de montar a candidatura presidencial para a eleição de 2018. Isto se não houver mudanças bruscas no decorrer do processo.

Os nomes presidenciáveis, até agora, são conhecidos. Há Aécio Neves, vencido por Dilma em 2014, José Serra, derrotado por Lula em 2002, talvez Geraldo Alckmin, que perdeu em 2006, e mais uma vez Serra, superado por Dilma em 2010. Do ninho da direita não sairá, necessariamente, só um tucano. 

Serra pode ser candidato pelo PMDB. Hoje já serve a Temer no Ministério das Relações Exteriores. O atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ambiciona a possibilidade.

Temer não será candidato. Não tem votos e, se disputasse, não teria amanhã. Vai pagar até o fim do governo dele pela ambição de ter feito o pior caminho para chegar ao poder. Traiu. Por muito menos Café Filho, vice de Getúlio, pagou o preço pela dubiedade.

Na sequência sumiu do mapa. O presidente tem estômago de avestruz. Deveria botar sobre a mesa de trabalho um sapo modelado em bibelô. Homenagem aos batráquios que já engoliu e outros que ainda engolirá. 

Eis um sapo novo, dos grandes. No domingo 4, em entrevista ao jornal O Globo, o senador Aécio Neves deixou de lado a pachorra mineira e fez um ataque pesado, sem meias palavras políticas, às indecisões do novo presidente da República.

Aécio Neves, presidente dos tucanos, afirmou com arrogância: “Sem apoio do PSDB, não existirá governo Temer”.

Ele referia-se à pressão do PMDB sobre o próprio governo. Mais especificamente, ao fato de não ter sido enviado ao Congresso o projeto de Reforma da Previdência antes das eleições municipais. Dependendo do tamanho da maldade embutida na proposta, o prejuízo eleitoral pode ser grande. No interior do País há centenas de cidades nas quais o dinheiro da aposentadoria é o que, por exemplo, movimenta o comércio local.   

Da arrogância pulou para a esperteza. Segundo ele, os tucanos têm “mais clareza das posições do presidente Temer do que o seu próprio partido”.  Naturalmente, naturalmente. As posições do presidente atual são delimitadas pelo PSDB.

Segue à risca o modelo neoliberal. A história do PMDB nunca seguiu cartilha ideológica após as mortes, diferenciadas politicamente, de Ulysses Guimarães e Miguel Arraes. O partido caiu da Série A para a Série B.

O PMDB sempre se limitou à busca do voto para crescer e perturbar o aliado. Não para comandar. O PSDB vai por outra direção. E, agora, usa a influência que tem para dirigir o governo peemedebista.

Temer tem de se oferecer em sacrifício. Assumir as pautas ideológicas do PSDB e se espatifar eleitoralmente. Essa é a armadilha que Aécio tramou para Serra. O tucanato paulista transacionou com Temer à margem do PSDB. Bola nas costas de Aécio, presidente do partido. 

Até onde irá a tolerância de Aécio com o PMDB? Assim ele respondeu: “O PSDB estará, em 2018, se apresentando para governar o País (...) enquanto Temer se mantiver fiel a esta agenda, contará com o PSDB (...) Não é uma ameaça, mas apenas uma constatação natural”.

Claro, claríssimo...