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Número 918,

Sociedade

Restaurante

Brasília e a fome do poder

por Nirlando Beirão publicado 16/09/2016 04h59
O fechamento do Piantella, cenáculo da redemocratização, sinaliza o fim da conciliação ilusória da chamada Nova República
Andre Dusek/ Estadão Conteúdo
Piantella

O restaurante em 2009: já invadido pela direita

Em Brasília, desconfie sempre das coincidências. A Capital Federal nunca foi cidade de leitura simples e direta, tendo os subterfúgios, as dissimulações, os meneios da política de tal forma impregnando os usos e costumes que por debaixo do verniz de sua normalidade cotidiana fica sempre uma pontinha ali de suspeita, um enigma a ser decifrado.

Na tarde-noite de 31 de agosto, quarta-feira, enquanto o Senado promovia o auto da fé contra a vítima expiatória, os últimos convivas cantavam e brindavam, ainda que com travo na garganta, o fim daquele restaurante que melhor exprimiu a conciliação ilusória da chamada Nova República. O Piantella serviu no dia do impeachment seu último repasto – uma galinhada, aproveitando-se os derradeiros ingredientes da casa, sem direito sequer ao invariável pastel de tira-gosto. É como se, duplamente enlutada, Brasília refletisse a redundância das datas: aqui nada acontece por acaso.  

Fim de uma era – é fatal que o destino do Piantella venha a ser associado ao golpe parlamentar que visou interromper os 13 anos do PT no poder.           

Seu último proprietário, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, 59 anos, que há pouco menos de dois anos comprou a parte do sócio e fundador Marco Aurélio Costa, prefere, no entanto, desconversar sobre a fatídica correlação, atribuindo o fechamento a meras dificuldades de caixa. Ainda que ele próprio não desconheça – e faz disso uma militância pública e ativa – que a onda de infelicidade propositalmente manufaturada que contaminou a vida política e social do Brasil depois da reeleição de Dilma Rousseff acabaria por comprometer até mesmo aquele oásis de confraternização pluripartidária que era o Piantella. 

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Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, sob o olhar do doutor Ulysses (Ruy Baron/ Ag. O Globo)

Dono de uma banca especializada em Direito Penal bastante influente nas sessões do Judiciário Federal, e mais ainda nos bastidores dele (o último dos clientes-celebridades dele foi o banqueiro André Esteves, incriminado pelos xerifes de Curitiba em novembro do ano passado), Kakay não esconde estar amargando, como todo o País, as truculências “desses meninos da Lava Jato”, os quais, diz ele, “se julgam semideuses”.

“Triste país que precisa de pretensos heróis, salvadores da pátria e pregadores da moralidade”, escreveu ele em março deste ano. Pode surpreender que um advogado que depende das Cortes de Justiça fale coisas com um destemor que falta, por exemplo, aos ministros do STF – que estão aí supostamente para defender a democracia desses retrocessos autoritários.

Bem, o fato é que lá se foi o Piantella, engasgado com a gororoba da intolerância. Não convém desprezar outra coincidência, a que presidiu a inauguração do restaurante – na época, Tarantella – em outubro de 1977, quando o mapa da astrologia política era regido pela “abertura lenta, gradual e segura” – a qual o presidente Geisel conduzia, com percalços, é bem verdade, compensados, no entanto, pelos dons divinatórios do general Golbery do Couto e Silva, bruxo anoréxico.

O então Tarantella nasceu basicamente na oposição, dando de comer e de beber às articulações pró-redemocratização, num contraponto de elegante informalidade ao padrão GAF, que era o reduto da situação, naquele Conjunto Gilberto Salomão de duvidosa suntuosidade. No GAF, imerso nas meunières carregadas de manteiga, o regime fardado matava sua fome untuosa, com direito a lugar cativo, entre as baixelas czaristas, para o ministro Delfim Netto, que tinha a injusta fama de guloso. Como as informações eram patrulhadas pela censura, os assentos nas vizinhanças de Delfim viam-se disputadíssimos pelos especuladores da Bolsa (o ex-ministro atribui essa história de orelhas bisbilhoteiras a “uma lenda urbana”).

Se Brasília exacerba a solidão dos gourmets, no cultivo de uma cultura política que desenvolve apetites fisiológicos bem diferentes daqueles que tenham a ver com a boa mesa, o Piantella surgiu para inovar. Passou a servir alegria, leveza e democracia, e é disso que por sua vez ele se alimentou pelas décadas da ilusão progressista: o Parlamento a pleno vapor, o governo bem-disposto, o País prosperando.

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Os mineiros Aécio, José Alencar e Itamar (Iano Andrade/CB/D.A Press)

Tanto que logo a concorrência veio beliscar-lhe os calcanhares, na ambiciosa proposta do Florentino. O dono, o galego Florentino Prieto Graña, era sócio, com seu compatriota Manolo Ribeiro Romar, do mais icônico antro da alta boemia carioca, o Antonio’s, da Rua Bartolomeu Mitre. Em 1980, Florentino partiu para voo-solo num endereço que ganhou seu nome, na Rua General San Martin, também no Leblon.

Logo depois, surfando na euforia da redemocratização, instalou em Brasília um restaurante do qual os convivas lembram pouco mais do que do cardápio de pretensão à moda da nouvelle cuisine e de uma decoração onde tecidos de tartãs quadriculados dos highlands pareciam induzir ao consumo do scotch, o que era francamente conseguido. O uísque era – muito mais do que o vinho – a fachada de distinção dos 80s.

Não foi longe, o Florentino, apesar da presença no salon, como RP pouco convencional, de Guncho Maciel, ator, diretor e tremendo conversador. Aos frequentadores bissextos podia surpreender aquele cenário de mesas enormes, populosas, que iam agregando convivas e mais convivas à medida que o expediente do Congresso se encerrava, políticos, jornalistas, empresários, assessores devidamente abastecidos por garrafas personalizadas. A alguém que eventualmente pedisse a conta, ou sua parte relativa a ela, o garçom ia apontar para o canto mais discreto do bar e dizer: “Não se preocupe, o doutor ali já acertou”. A bem da justiça, não era só no Florentino. Havia sempre alguém, na obscuridade do lobby, atento para evitar que Suas Excelências tivessem de botar a mão no bolso.

O Florentino sofreu a maldição do expediente parlamentar curto. De terça a quinta, as estrelas da política apinhavam. Daí para a frente, entregue aos caprichos de uma população local mais para recatada do que para exibicionista, o restaurante capengava. O Piantella, não – conseguiu sobreviver aos apertos do calendário e aos solavancos dos sucessivos planos e crises econômicos. “Mais do que na Praça dos Três Poderes, é aqui que se diagnostica o metabolismo da política”, gostava de resumir o mineiro Marco Aurélio Costa.

É claro que crises políticas, aquelas que têm o dom de excitar a mídia e vender jornais, não lhe faziam bem ao fígado. Uma CPI, por exemplo, era de tirar qualquer apetite. “As pessoas se retraem, vão conversar nos gabinetes, em reuniões fechadas”, relatava Kakay, desde então sócio de Marco Aurélio.

De fato, aquele lá era o espaço de celebrações, não de rancores. Que o digam o senador Antônio Carlos Magalhães, capo do PFL (hoje, DEM), e o ministro das Comunicações, Sérgio Motta, desafetos contumazes no vaudeville que era o governo FHC. Na remota noite de 1996 em que selaram a trégua e acertaram a candidatura do baiano à presidência do Senado, com a unção de Fernando Henrique, os dois foram se mostrar juntos – e, juntos, derrubar uma garrafa de Johnny Walker. 

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Serjão e ACM, que dividiram o scotch em momento ternura (Arlindo Felix/ Ag. A Tarde)

Como a política consiste no lento aprendizado da arte de engolir sapos, não é estranhável que, no Piantella, além do ossobuco e do côte de boeuf, a principal atração da casa fosse um digestivo: o poire. Deve-se ao deputado João Pacheco Chaves, grand seigneur de raízes na nobiliarquia cafeeira, a gentileza de ter apresentado o fino destilado de pera, devidamente gelado, ao tosco e seco ambiente do Cerrado. Trouxe-o de uma viagem a Paris como presente para Ulysses Guimarães, seu camarada de tertúlias desde os tempos imemorais do PSD de São Paulo. 

A Turma do Poire – às vezes, Clube do Poire, ou então República do Poire, dependendo do teor de respeito imposto naquele momento pelo grupo – instalou-se no andar de cima, em torno do habitué Ulysses, aliás, doutor Ulysses. O núcleo original completava-se com os senadores Severo Gomes e Nelson Carneiro, os eventualmente ministros Raphael de Almeida Magalhães e Renato Archer, e, é claro, o connaisseur Pacheco Chaves. De 1977 a 1992, foi a mesa mais influente da República.

Respirou a excitação profícua – e também prolixa –da Constituinte, avanços e recuos foram ali tramados para que, em 1988, o País da redemocratização ganhasse aquela Carta Magna que acabaria aviltada pelo golpe de 2016. Até o senador Mário Covas, ora e vez passava por lá, ele que não tinha vocação de notívago e não botava na boca uma gota de álcool sequer. 

Se o poire tinha o dom de exacerbar ímpetos libertários, eau de vie por excelência da conspiração das Diretas Já, também trazia entre seus dotes inebriantes o de prolongar indefinidamente as conversações. O deputado Miro Teixeira – à época ainda um alegre democrata, sempre disposto a solicitar ao pianista Mário Pinheiro uma parceria versátil, de Lupicinio Rodrigues a Frank Sinatra – recordou a noite em que o doutor Ulysses e seus discípulos procederam a conversão à anistia de um senador da Arena, o partido do governo. O nome dele era Teotônio Vilella. A certa altura, cansado com o exame verborrágico de tantas minúcias, Teotônio encurtou: “É este texto aqui ou não vai ter lei”. Deviam ter discutido mais. Nem o poire nem o bom senso impediriam a promulgação de uma anistia covarde.   

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Mesas apinhadas de políticos. A conta? Ia para os lobistas (Carlos Vieira/ CB/ D. A Press)

O doutor Ulysses e o Piantella compartilhavam o segredo de códigos cifrados. Ainda nos governos militares, o líder número 1 da oposição desconfiou que o SNI tinha grampeado o telefone do restaurante. Para trapacear os arapongas, ia ao aparelho só para espalhar mentiras. Voltava gargalhando. Outra astúcia do doutor Ulysses consistia em, num olhar, sinalizar para Marco Aurélio o grau de privacidade exigido para determinada conversação noturna. Na quinta-feira 8 de outubro de 1992, Marco Aurélio entendeu que não bastava deixar vazias as mesas vizinhas. Evacuou todo o segundo andar.

Naquela noite, um único interlocutor teve Ulysses, à mesa de 12 lugares, das 9 da noite até as 3 da manhã: o ex-ministro José Aparecido de Oliveira. Esboçaram os dois o desenho do futuro governo Itamar Franco. Com a prerrogativa de presidente do PDMB, Quércia ligava de meia em meia hora, curioso. “O doutor Ulysses não está”, mandava dizer o doutor Ulysses. Era outubro e Collor só caiu em dezembro. Ulysses partiu antes, em fatídica viagem a Angra, quatro dias depois do sorrateiro encontro no Piantella com Aparecido. Aquela foi sua última noite no seu segundo lar.

Ao recolhido Ulysses, boêmio a seu jeito, sucedeu o figurino gregário e perfumado de Luís Eduardo Magalhães, também comprometido em dar expediente todas as noites. O filho de ACM deixava a Câmara dos Deputados (da qual foi presidente, de 1995 a 1996), arrancava a gravata (em geral, Hermès), passava por um banho restaurador e tomava caminho, a bordo de seu mocassim Ferragamo. Era empurrar a porta e a familiaridade se estabelecia tão prontamente que, como por magia, a taça de espumante materializava-se em sua mão, como se ele já a trouxesse de casa. Francesas ou nacionais, o importante era que as borbulhas acompanhassem Luís Eduardo em sua via-sacra de mesa em mesa, ao longo da noite.

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Teotônio Brandão negociou a anistia

A sofisticação que lhe recendia da cascata de pérolas saborosas e que a camisa de gingham Zegna estampava não correspondiam, porém, à sua inclinação, vá lá, gastronômica. O prócer do PFL baiano aflorava ao pedir o invariável sanduíche de filé – a quem Marco Aurélio e seus dois chefs trataram de conferir, à revelia do cliente, um upgrade de sabor na cebola ralada e no queijo derretido na chapa. Imaginem: Luís Eduardo gostava era de carne bem passada. Mas foi esse seu feitio feijão com arroz, inclusive nas mesas parlamentares, que fez convergir para ele uma vasta constelação de políticos de paladares partidários bastante divergentes.  

Por coincidência ou não (ah, Brasília e seus acasos!), a religiosa presença de Luís Eduardo, assim como as incursões eventuais do então ministro do Esporte, Pelé, tinha o condão de atrair para o restaurante uma corbeille de flores mimosas, capaz de distrair os frequentadores com outros temas além daquelas inflamadas tentativas de endireitar a República, quando não de salvar o mundo. 

Houve momento em que a gangorra do poder glutão pareceu se afastar da Superquadra 202 Sul. Foi quando, com a ansiedade dos novos ricos, a República das Alagoas transportou sua encenação de autoridade para o Lago Sul, aos arredores da Casa da Dinda. 

O Piantella, de veia oposicionista, viu a mastigação collorida instalar-se em torno das churrasqueiras das mansões emergentes, num exagero guloso de picanhas com vinho tinto de Bordeaux, independente da temperatura ambiente e da qualidade da safra. O próprio Fernando Collor só dera as caras no Piantella uma ou outra vez, na época em que lhe interessava cortejar Ulysses Guimarães para se candidatar, pelo PMDB, em 1986, ao governo de Alagoas. “Não era o melhor lugar para a turma dele”, observou, certa vez, o matreiro Marco Aurélio.

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Pelé, ministro, tinha sempre mesa florida ( Marcello Casal Jr./ ABR)

Tanto que, em 1992, com o impeachment em curso, o Piantella sediou o informal QG dos caras-pintadas do Congresso, sempre na periferia do doutor Ulysses. O venerando guardião do poire já não era presidente do PMDB, mas tinha suficiente autoridade moral para ser convocado à notória Casa da Dinda e ouvir o SOS aflito de um Collor sitiado de escândalos. Irreparável gentil-homem, Ulysses foi, ouviu e retornou à conspirata. Reuniu no histórico segundo andar um punhado de líderes partidários e distribuiu a senha do levante. O lugar foi depois reformado para preservar a mesa e certa memorabilia do doutor Ulysses, com direito a expressivo retrato na parede. Kakay não sabe o que fazer com a foto – quem sabe, despachar para o museu. 

A patrulha que veio proscrevendo o charuto, depois o cigarro “e até proibiu o beijo”, segundo queixa de Marco Aurélio, acabaria por inibir a extroversão dos políticos em público. Na tentativa de se adaptar aos novos tempos, o Piantella chegou a inverter o fluxo: em vez de esperar que os políticos viessem até ele, passou a ir até os políticos. Aderiu a uma espécie de delivery seletivo para equilibrar os custos.  

As mesas passaram a refletir uma Brasília menos monotemática. Pouco a pouco – com exceção dos picos de crise – a clientela passou a falar menos de política, ou não falar só de política. Uma certa normalidade burguesa, às vezes familiar, veio desidratar, nas mesas outrora conspiratórias, a testosterona dos embates ideológicos. Passou o mandarinato Fernando Henrique e a era Lula, na qual os adversários vislumbravam o fantasma de uma austeridade bolchevista, foi mais de continuidade do que de ruptura. O Santo Ofício do chamado “mensalão” fez mal ao estômago e ao fígado. Os gulosos do poder se retraíram. O matriarcado Dilma só reiterou a inapetência geral. Os lobistas que pagavam as contas na surdina saíram de cena. Seus patrões estão, muitos deles, na cadeia.

No adeus, Kakay condoeu-se do fim de um “patrimônio imaterial” de Brasília. Equilibrando um Bordeaux no copo, engatou um hit de Zezé di Camargo e Luciano e avisou que ia abrigar em sua casa o laborioso Steinway. O mais ilustre dos circunstantes, o ministro Luiz Roberto Barroso, do STF, saiu sem comer. O Piantella não deixa saudade por sua culinária, e sim por um jeito elegante de fazer política, emoldurado para sempre na figura do doutor Ulysses – uma política que, em contraposição aos tempos atuais, raramente dava azia ou ressaca.