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Número 917,

Cultura

Arte de Rua

O eterno barato de carimbar a cidade

por Maria Lígia Pagenotto — publicado 13/09/2016 05h06
Discípulo de Alex Vallauri, o grafiteiro Ozi minimiza o preconceito contra sua idade e se diz um Chacrinha contra os tabus
Marcia Minillo
Alex

"Não tem velho no grafite, a rua exige agilidade. Agora dou uma de pai"

Ozeas Duarte descobriu que São Paulo era cheia de possibilidades quando trabalhou como office-boy. Nos anos 1970, grafites e palavras nos muros o encantavam, ainda que nem sempre os compreendesse. Filho de funcionário público e de dona de casa em Ermelino Matarazzo, zona leste, descobrira o prazer de desenhar inspirado em quadrinhos que o irmão lhe trazia. “Consumia o que me caía na mão: Tex, Batman, Capitão América, Tio Patinhas”, conta o artista urbano que assina “Ozi” nos muros e, aos 58 anos, é um dos mais velhos na ativa.

Um dia, topou, no Centro, com a Escola de Arte Contemporânea. Fez inscrição no curso de desenho. “Eu tinha 17 anos e sonhava ser pintor de cavalete, como Da Vinci e Michelangelo.” O artista plástico Rubem Valentim tinha um ateliê na escola, o escritor Plínio Marcos dava incertas por lá. Na sequência, veio um curso de desenho de modelo vivo na Pinacoteca, entre 1979 e 1981, sob a coordenação de Marcello Nitsche.  “Um artista sensacional, um puta louco”, assim Ozi elogia quem o marcou nos 30 anos de carreira que celebra este ano. Ele não cursou faculdade. Da rotina nas ruas, migrou para a publicidade, onde ficou por 15 anos. Muito do que aprendeu se deve a bons encontros que teve na vida.

O mais importante foi proporcionado por Nitsche. O professor levou os alunos à primeira mostra oficial de arte urbana no Brasil, na Pinacoteca. Ozi viu as peças expostas e reconheceu o traço: eram desenhos que via nas andanças pela cidade, nos tempos de. O autor, Alex Vallauri (1949-1987), tornou-se mestre e amigo. “Um doido maravilhoso”, diz sobre o grafiteiro, artista gráfico, pintor, desenhista e cenógrafo. Vallauri lhe ensinou a trabalhar com estêncil, técnica que poucos artistas de rua usam.

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No ateliê, as latas de spray e a composição de figuras como a recriação de Magritte (Fotos: Marcia Minillo)

Encantou-se. “Se na rua essa arte era feita, então também queria fazer.” O artista Maurício Villaça o descobriu enquanto colava adesivos na passagem subterrânea da Rua da Consolação. Aproximou-o de Vallauri e o apresentou aos artistas urbanos Carlos Matuck, Waldemar Zaidler, Carlos Delfino, Jamie Prades, Rui Amaral e José Carratu. “A gente saía na madrugada, pintava muros e fugia da repressão, uma vida de muita adrenalina.”

O convívio com Vallauri foi curto, mas intenso. Em março de 1987, o artista morreu, vítima do HIV. “Ele era uma pessoa incrível, afetuosa, aberta a tudo, um amigo que orientava. Dizia que o estêncil precisa ser certeiro, pois tem o desafio de atingir o máximo de pessoas, numa cidade em que tudo é muito rápido.” De vez em quando recebia uma ligação do amigo. “‘E aí, vamos pichar?’ Era assim que o Alex falava, ‘pichar’. Porque ainda não existia esse negócio de grafitar.” O humor de Vallauri, sua crítica ao consumismo, a forma como ele, estrangeiro, olhava para o brasileiro, despertava sua atenção. Em 1993, Villaça morreu também, por conta do HIV. “Foi terrível, o Maurício era meu amigão, muito próximo.” No grafite, conta Ozi, era um provocador, um ativista.

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Nas paredes, a bailarina (Foto: Marcia Minillo)

A perda dos mestres ceifou seu ânimo. Percebeu que não se encaixava no estereótipo do grafiteiro (dispensa o rótulo, aliás), o mano de mochila suja de tinta. “O estêncil é discriminado no meio. As pessoas não valorizam, não sabem o trabalho que dá recortar o desenho, acham que compro pronto na papelaria.” Saiu de cena em 1995. Dez anos depois, retornou como Ozi, deixando Ozeas para trás. “Não queria ser reconhecido. Queria saber se ainda conseguiria dialogar com a cidade, com a moçada nova, com o pessoal do lambe-lambe, com os stickers.”

Acha que tem conseguido, mas, nesse retorno, sente certo preconceito por conta da idade. Vez por outra, ouve “quem é o tiozinho?” enquanto pinta. “Não tem velho grafitando, porque a rua exige agilidade e força física pra carregar o material, correr quando precisa. Mas sou um resistente.” Conquistou seu lugar junto aos mais jovens contando sua história. “Dou uma de ‘pai’ agora, assumi esse papel. Ensino, dou conselho. Os que me conhecem me respeitam. Mas o grafite é uma tribo muito fechada, e sei que fico de fora de alguns eventos.”

Para celebrar a carreira, o veterano trabalha em duas exposições e um livro, a ser lançado no ano que vem. A primeira mostra será na Caixa Cultural do Recife, em setembro. A segunda, em Brasília, em janeiro. Ozi quer incomodar pra valer, mas com humor. “Antes, não mexia com sexualidade, religião, gênero, tabus pra mim. Hoje faço releituras de ícones, como Cristo, Mona Lisa, Mickey, Alice, Chanel, Louis Vuitton.”

Pai da poeta Mel Duarte, refuta comparações com o inglês Banksy. “Estou mais pra Chacrinha do que pra ele, que é muito politizado”, gargalha. “Eu sou debochado, gosto de atuar na periferia, dialogar com quem tem pouca visibilidade. Sei que há um limite físico para o trabalho que faço, mas nada se compara ao barato de carimbar a cidade.” 

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