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Número 917,

Política

Jogo de Carta

"No Brasil não se faz democracia impunemente"

por Mino Carta e Nirlando Beirão — publicado 02/09/2016 12h14, última modificação 04/09/2016 05h04
No Jogo de Carta, Gregório Duvivier lamenta que o golpe tenha sido festejado e propõe uma nova bandeira ao movimento de resistência
Wanezza Soares
Gregorio Duvivier

"Sinto falta de uma direita com a qual possa dialogar. O que essa turma quer é liberdade total para o mercado e zero para o indivíduo"

"Entristece-me muito ver tantos aplaudindo um processo que rasga a Constituição”, lamentou, de saída, o ator e escritor Gregorio Duvivier, um dos criadores do site de humor Porta dos Fundos. Convidado a participar do programa Jogo de Carta há algum tempo, ele não poderia ter comparecido em momento mais oportuno, embora trágico. 

O humorista que se destacou na luta contra o golpe participou da transmissão ao vivo, pelo site de CartaCapital e por nossa página no Facebook, horas após o Senado aprovar o impeachment de Dilma Rousseff, mesmo sem a comprovação de um crime de responsabilidade. 

Duvivier propõe uma mobilização popular pelas Diretas Já. “O ‘Fora Temer’, hoje, significa entregar o poder a Rodrigo Maia”, explica. Confira os principais trechos da entrevista.

Jogo de Carta: Logo após a votação do impeachment, houve uma celebração na região da Avenida Paulista, com fogos de artifício.

Gregorio Duvivier: É tudo muito doloroso. Não apenas o golpe em si, mas o fato de estar sendo festejado, e da pior maneira possível. A caminho daqui, ouvi gritos, como “tchau, vagabunda”, o que deixa claro o caráter misógino e odiento desse impeachment. Mesmo que não fosse um golpe de Estado, nada justifica tratar dessa forma uma mulher. Entristece-me muito ver tantos aplaudindo um processo que rasga a Constituição, o que demonstra o quão pouco apreço o brasileiro tem pela democracia.

Cansei de ouvir pessoas dizendo: “É golpe, mas qualquer coisa é melhor que o PT”. Ou seja, preferem uma ruptura democrática a conviver com um governo popular ou de esquerda. A presidenta foi condenada sem crime, num processo kafkiano em que se discute tudo, menos o suposto crime. 

JC: Essa pobreza de espírito parece revelar uma imaturidade crônica...

GD: Isso tem a ver com a nossa falta de costume com o regime democrático. Nossa democracia é mais jovem do que eu. Meus pais votaram para presidente da República pela primeira vez aos 30 e poucos anos. As pessoas parecem não estar acostumadas com a democracia e, tampouco, a perder eleições.

Muita gente não engoliu até hoje o fato de Lula ter sido eleito presidente em 2002, como não engoliu a reeleição dele e de Dilma. Eles não eram os candidatos que atendiam aos interesses da mídia, do setor financeiro, dos grandes grupos empresariais. 

JC: A eleição de Lula parecia um sinal de que a democracia estava, de fato, começando, mas agora está sendo destruída de forma abrupta e feroz. Que comparação você faria entre 1964 e 2016?

GD: Nos dois casos, houve uma reação da elite a avanços sociais. No Brasil, não se faz distribuição de renda impunemente, não se faz justiça social impunemente. Qualquer política mais progressista é boicotada. Eu diria até que, no Brasil, não se faz democracia impunemente.

Nos dois casos, o golpe foi aplaudido pelas elites. Custei a entender isso nos tempos de escola. Perguntava-me: “Como é que as pessoas não reagiram em 1964? Por que não ocuparam as ruas imediatamente?” Ao contrário, muitos saíram às ruas para apoiar o golpe, para festejá-lo.

JC: Você militou ativamente contra o golpe, e imagino que há um custo pessoal nesse engajamento. Hoje, você sente-se à vontade para frequentar um bar ou restaurante? Ou evita para não ser hostilizado?

GD: Olha, se há um lado positivo nessa história é que o golpe serviu para unir a esquerda, unir as pessoas. Tenho me juntado a pessoas que estão no mesmo lado da luta, como o Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, a economista Laura Carvalho, vocês, de CartaCapital, todos que lutam pela democracia. No Rio de Janeiro, tenho participado de várias ocupações.

Estive recentemente no Canecão, para um espetáculo de escracho ao golpe, com música, teatro, carnaval. Vou a escolas ocupadas, a lugares que dão certo alento, senão você se mata. Dar muita atenção aos comentários na internet, à grande mídia, frequentar os lugares do mainstream, é muito deprimente. Não estou preparado para isso.

JC: Qual é a sua relação com a internet e com os haters que povoam as redes sociais?

GD: Tomo muito cuidado. Primeiro, para não acreditar que aquilo é um retrato fiel do mundo. Não é. Na internet, as pessoas falam protegidas por uma máscara, sem falar das ações orquestradas. De repente, aparece um monte de gente no meu perfil dizendo que vai me matar. Aí começo a rastrear essa turma e descubro que uma página forte tramou o ataque. A direita está muito organizada na internet, e é financiada.

A Agência Pública fez uma reportagem interessante sobre isso, mostrando de onde vinha o dinheiro. Tem a ver com o projeto de dominação da internet. Os ataques são maciços. Você olha para tudo isso e pensa: “Moro num país ultraconservador”. Aí você vai às ruas, à periferia, às escolas ocupadas, e vê que não é bem assim. O País está dividido, mas, ao contrário do que as pessoas imaginam, acho isso bom. Vemos claramente as divisões. 

JC: Tradicionalmente, o Brasil sempre foi dividido entre ricos e pobres, a casa-grande e a senzala. No entanto, é um momento de profunda intolerância, de um ódio que aflora de forma bestial.

GD: Muitos acusam o PT por essa divisão, como se o partido tivesse inventado a luta de classes. Quer dizer, então, que antes havia uma grande festa, com ricos e pobres dançando juntos? Hoje, apenas se tornou gritante algo que sempre foi ocultado. Ouço muito: “Ah, as minorias estão enfurecidas. Não se pode dizer mais nada”. Ora, os negros sempre ficaram incomodados com o racismo, só não se sentiam empoderados para falar.

O que se chama de “politicamente correto” nada mais é do que um processo civilizatório. O grande perigo desse golpe é passar a mensagem de que o voto não vale nada. Outro ponto: se uma presidenta é incriminada sem cometer crime algum, o que será de nós, cidadãos comuns? O processo não tem substância, não comprovou nada. Mesmo assim, ela caiu. E nós? Quantos manifestantes estão sendo presos agora sem cometer crime algum? Nossos direitos e liberdades estão ameaçados.

Assista à íntegra da entrevista, em vídeo.

JC: Diante desse cenário, Dilma não poderia ser mais agressiva em sua defesa? Dizer claramente que estava sendo cassada por um bando de corruptos?

GD: Sim. Ao depor, poderia perfeitamente dizer: “Quem é você, Anastasia, para falar de pedaladas fiscais, se pedalou todo ano em seu governo?” Poderia constranger Zezé Perella, perguntar sobre aquela meia tonelada de cocaína no helicóptero.

Mas esse não é o estilo dela. Preferiu responder uma a uma a todas as perguntas, mesmo aquelas vindas de notórios bandidos, por 14 horas seguidas. Ela caiu de pé, mas eu preferiria que caísse com uma metralhadora giratória.

JC: Como é fazer humor no momento de tanto ódio e desilusão? Onde encontrar subsídios para fazer rir?

GC: O humor também se alimenta da indignação e é uma excelente arma contra o medo, contra o preconceito. Os conservadores crescem muito baseados na ideia do medo, que é oposto do riso desencadeado pelo humor. Você não é capaz de rir de algo que teme. A religião, por exemplo, constrói um mito, e o humor o derruba. Todo humor é desmistificador. No coração e mente das pessoas, incutiu-se o medo da esquerda, o medo de velhos fantasmas.

Há pessoas que ainda acreditam que a Coreia do Norte financia Cuba, que por sua vez financia o Foro de São Paulo, que financia a CartaCapital. Claro, vocês tinham de estar no rolo! (risos). Se existia, de fato, uma teia comunista a sustentar o governo do PT, onde está ela agora? Por outro lado, é preciso não deixar o humor se contaminar pelo ódio. Estou tão indignado com o que aconteceu hoje que sou incapaz de produzir humor neste momento. 

JC: Você acredita que, a partir de agora, o PT vai buscar uma aproximação com partidos menores do campo da esquerda?

GC: O PT já se uniu à esquerda. É verdade, o partido demorou a perceber isso, a ficha só caiu no golpe. Quem saiu em defesa de Dilma foi a esquerda, mesmo aqueles partidos que faziam oposição a ela ou que nunca haviam se coligado com o PT. Assim que iniciou o segundo mandato, ela colocou Joaquim Levy no Ministério da Fazenda e buscou uma conciliação com a direita.

Mesmo assim, os segmentos excluídos da esquerda saíram às ruas em sua defesa. Nem todos do PT perceberam, porém, que não adianta se unir à direita, tanto que cerca de 30% das alianças do partido nas eleições municipais deste ano foram com o PMDB. É como aquela fábula de La Fontaine, do sujeito que traz a cobra machucada para dentro de casa e, quando se recupera, a cobra o ataca.

JC: A bandeira das Diretas Já te sensibiliza?

GD: Ótimo ponto. O “Fora Temer”, hoje, significa entregar o poder a Rodrigo Maia, presidente da Câmara. Não sei se vocês o conhecem bem, mas ele é uma piada no Rio de Janeiro. Teve 2% de intenções de voto na disputa pela prefeitura carioca.

Os comentários dele nos debates dão pena. É o filho problemático do Cesar Maia, que já tinha seus problemas. Não tem a menor condição de liderar o Parlamento. O meu sonho, hoje, é que essa pauta, das Diretas Já, una a esquerda e a direita. Sempre existiu uma direita honesta no Brasil, e ela não pode estar satisfeita com Temer, um homem sem relevância, sem voto, de pequena estatura.

JC: Imagino que você se refere àquela pequena fração da direita, dos liberais autênticos.

GD: Sim, e sei que não existem muitos desses no Brasil.

JC: Não vamos nos enganar, a direita brasileira é fogo. Não há diálogo possível.

GD: Sinto muita falta de uma direita com a qual possa dialogar. Vejo muitos defensores do Estado Mínimo. Muito bem, que tal começarmos a implantá-lo nas favelas, e parar de intervir militarmente por lá? Vamos ser liberais também em relação às drogas, em relação ao aborto.

O que essa turma quer é liberdade total para o mercado e zero para o indivíduo. Não temos uma direita libertária. É um problema. Eu também não consigo dialogar com um sujeito desses, não vejo humanidade nele.

JC: Com o fim do governo petista, imagino que você deve estar com problemas financeiros?

GD: Pois é, acabou a mamata (risos). Gostaria de anunciar que estou vendendo uma bicicleta. Se alguém quiser, também posso colocar à venda esse paletó, porque não ganho mais os milhões que o PT botava na minha conta. Também aceito doações e contribuições de crowdfunding.  

*Reportagem publicada originalmente na edição 917 de CartaCapital, com o título "Do Fora Temer ao Diretas Já". Assine CartaCapital.