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Número 916,

Política

Editorial

Um inédito PSD

por Mino Carta publicado 29/08/2016 04h49
O Brasil se permite um partido social democrático a serviço da reação mais fascistoide
Sérgio Dutti/Estadão Conteúdo
FHC-e-Serra

Intérpretes impecáveis das vontades da casa-grande

PSDB nativo é o único da história do mundo que atua à direita, a qual, por ser brasileira, representa a direita mais reacionária da história do mundo. O fenômeno haveria de surpreender até o espanto analistas de países onde o pensamento social democrático é francamente de esquerda, desde que se interessassem pelo assunto e compreendessem a absoluta naturalidade da extraordinária inversão de 180 graus empreendida pelo tucanato no país da casa-grande e da senzala.

A postura tucana é mais uma prova da singularidade do Brasil, medalha de ouro em concentração de renda, resignadamente aflito por um desequilíbrio social digno da mais tenebrosa Idade Média e vítima da prepotência estulta de uma minoria arrogante, ignorante e velhaca, ainda e sempre dona do poder. A se valer, está claro, de uma maioria em boa parte de lombos marcados pela chibata.

Já houve um PSD antes do golpe de 64 e mesmo então seria impossível catalogá-lo como partido de esquerda. A conjuntura é eternamente peculiar nas nossas latitudes. O atual PSDB nasce durante a Constituinte de meio período, de uma dissidência do PMDB do doutor Ulysses Guimarães, conservador iluminado a quem devemos a anticandidatura contra o ditador Ernesto Geisel, e a campanha das Diretas Já, raro e empolgante episódio dos começos da década de 80.

Deixaram de ser peemedebistas alguns figurões que a ditadura considerava perigosos esquerdistas, como Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, José Serra. Aparentemente, pretendiam imprimir no novo partido uma orientação mais progressista do que a da agremiação abandonada. Logo, percebeu-se não ser bem assim. Sintomática a quase aceitação da pasta das Relações Exteriores, oferecida por Fernando Collor a FHC na aposta em suas notórias ambição e vaidade. Quase.

Foi Covas quem impediu que o príncipe dos sociólogos exibisse as dimensões exatas das suas carências ideológicas e escasso caráter. Foi peremptório: “Se você aceitar, eu saio do PSDB”. FHC desistiu. Covas, o mais sincero entre os egressos do PMDB, não tinha em relação ao futuro presidente da República uma opinião das mais favoráveis, sei disso desde os tempos da campanha eleitoral de André Franco Montoro à governança de São Paulo, em 1982.

Depois de deixar a direção de IstoÉ em fevereiro de 1981, passara a colaborar com a Folha de S.Paulo e mais ou menos um ano depois me atrevi a acompanhar como repórter uma jornada da campanha de Montoro, a contar com a participação de Covas e FHC. Foi uma incursão pela zona açucareira do estado, última etapa em Rafard, onde o candidato discursaria da boleia de um caminhão. Caía a noite, uma brisa leve punha os canaviais a ciciar. Diante de uma plateia de lavradores, FHC tomou a palavra ao preceder Montoro. Covas sentou-se a meu lado, na amurada da boleia, meneou mestamente a cabeça, depois ergueu os olhos ao céu como a pedir o perdão do Altíssimo para quanto o futuro presidente proclamava diante daqueles rostos perplexos.

Em uma festa de aniversário de CartaCapital,  Mário Covas, governador paulista, sentado no centro da mesa sobre o palco do auditório da Fiesp, riu muito quando evoquei aquele episódio distante, diante de uma plateia muito mais graúda que a de Rafard e nem por isso menos perplexa. Como admitir que se pudesse rir de FHC?

No horizonte do Brasil do governo Temer, interino por poucos dias, nuvens negras inflam sua ameaça na direção do PSDB (leia a reportagem de capa), o partido que o príncipe dos sociólogos, durante seu governo, e José Serra, nas campanhas à Presidência, à testa da prefeitura e do governo de São Paulo e no desempenho dos dias de hoje, confirmaram perfeito intérprete das vontades da casa-grande. Não menos que FHC, Serra é devorado pela ambição e pela vaidade e tudo se habilita a cometer, para chegar ao poder, inclusive qualquer vilania em relação ao seu próprio passado, de estudante e de asilado no Chile.

Dele recordo uma conversa de 14 anos atrás, vésperas da eleição presidencial de 2002. Nas cercanias de um risotto, ele me disse, impávido, conhecer os problemas do País muito melhor do que Lula e de ter condições de resolvê-los, ao contrário do seu adversário. Não há como negar que a solução, para Serra, está em pôr o Brasil em leilão, liquidar o pré-sal, privatizar as estatais para entregá-las ao capital estrangeiro, enterrar o Mercosul e cair alegremente nos braços de Tio Sam.

 

Registro aqui o desaparecimento de dois cidadãos que passaram pela minha vida e me deixam uma boa lembrança. Meu colega jornalista Geneton de Moraes, honrado e excelente de escrita, de quem prefaciei um livro. Dossiê 50: Os onze jogadores revelam os segredos da maior tragédia do futebol brasileiro (Editora Maquinária, 2013). O outro, entrevistador e showman de tevê. Goulart de Andrade, que diversas vezes não hesitou em oferecer espaço no vídeo ao acima assinado e as suas tiradas, que tanto incomodam os senhores. Geneton aos 60 anos, Goulart aos 83.