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Número 916,

Política

Rosa dos ventos

Temer perde o contraponto

por Mauricio Dias publicado 26/08/2016 10h58, última modificação 27/08/2016 06h10
A presença da presidenta afastada favoreceu o interino, ao sair de cena, ela cria para o sucessor vindo do golpe uma espécie de orfandade
Gerdan Wesley
Turma

Temer terá dificuldades em conciliar os interesses do PMDB com os do PSDB. Por exemplo, com os objetivos de Serra e Aécio, o qual conta com a aliança de Tasso Jereissati (no centro da foto)

Está claro que o desfecho do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff deverá ocorrer aos 45 minutos do segundo tempo. Ou seja, o jogo será definido no plenário do Supremo Tribunal Federal. Através dessa perigosa travessura, amparada em tantos interesses, é possível ensaiar, com os dados de hoje, as dificuldades do amanhã de um governo permanente do ex-vice-presidente Michel Temer.

Já se sabe das turbulências provocadas nesses quase quatro meses de interinidade.

Um rápido olhar ao redor facilita prever o futuro sombrio da nova administração. O vice, transformado em presidente pela mágica de um golpe batizado de impeachment, para justificar o estupro da democracia, encontrará muita dificuldade para completar o restante da ainda incerta travessia, por variadas razões.

Temer tentou, na interinidade, esconder fragilidades, indecisões e temores atrás da imagem da presidenta, repudiada por setores reacionários da sociedade, unidos de alto a baixo. O interino, enfim definitivo não poderá, porém, beneficiar-se dessa ausência, nem tampouco das situações de uma crise econômica provocada por fatores que vão muito além dos erros do período Dilma. 

Com ele, a história passará a ser outra. A retirada de Dilma Rousseff da cena política desarmará explicações para deficiências exclusivas do novo governo. 

Não há como se proteger do sol debaixo de uma peneira furada. Sem Dilma, e também ele com baixa popularidade, Temer perderá o contraponto que até o momento o favorece. 

Desde que assumiu a interinidade, as pesquisas, de forma uníssona, expuseram a impopularidade de Temer. De fato, mais de 50% dos entrevistados, desaprovam a linha do seu governo. As sondagens detectam mais: 65% da população não confia nele. 

Há sinais curiosos sobre uma possível guinada no direcionamento editorial da mídia, quanto à ascensão definitiva de Temer. 

Isso traduz o cuidado com que, antes de o golpe ser consolidado, a mídia registrou problemas agudos e graves enfrentados ou provocados pelo interino, cercado, por sinal, por auxiliares envolvidos nas apurações da Lava Jato.  

E haverá mais apuros para Temer no seu relacionamento com a base política. Além de outras questões, é nítida a grande desavença entre os interesses do PMDB e as conveniências do PSDB. Mais precisamente entre os objetivos de Aécio Neves e os de José Serra para 2018. 

Aécio tem no senador Tasso Jereissati um aliado poderoso dentro do partido. Ambos são adversários de Serra, cuja ambição é disputar, mais uma vez, a Presidência da República. Temer, de qualquer forma, foi uma escolha de emergência, e não uma aposta definitiva.