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Número 916,

Internacional

Oriente Médio

Ocidente e Turquia, discutindo a relação

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 06/09/2016 05h03
Erdogan ameaça alinhar-se à Rússia e os EUA se apressam a remendar os laços com Ancara
Kayhan Ozer/ Anadolu Agency/ AFP
Biden

Biden foi a Ancara se explicar a Erdogan antes que os Tu-22 russos tomem o lugar da Otan em Incirlik

O eixo de Istambul a Karachi é de importância estratégica especial desde a descoberta, em 1908, dos primeiros poços de petróleo do Oriente Médio. Na Guerra Fria, criou-se ali, em 1955, a Organização do Tratado Central ou Tratado de Bagdá, que articulava com a Otan, pela Turquia, Reino Unido e Estados Unidos, os governos pró-ocidentais da Turquia, Iraque, Irã e Paquistão.

A tomada do poder pelos baathistas nos anos 1960 e sua repressão violenta aos curdos em uma guerra civil que deixou 100 mil mortos não abalaram o tratado, que só desmoronou, em 1979, quando a revolução islâmica tirou o Irã da organização. 

Desde então, o controle da região pelo Ocidente tornou-se cada vez mais problemático, apesar do colapso do rival soviético e talvez em parte por causa disso. Excesso de confiança levou à ilusão de poder moldá-la segundo seus interesses e sem concessões às culturas, estruturas de poder e aspirações locais.

A aliança incondicional com Israel, a desmoralização dos movimentos nacionalistas árabes, o apoio do Ocidente aos fundamentalistas do Afeganistão, a destruição do Iraque de Saddam Hussein e a atuação dúbia e desastrada durante a Primavera Árabe, em especial a intervenção na Líbia e o apoio a rebeldes fundamentalistas na Síria, foram passos decisivos para semear o caos e abrir caminho à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico.

Quase 40 anos depois, tantos foram os erros que o jogo parece a caminho de virar. A Rússia de hoje é muito menos poderosa, em termos relativos, do que a União Soviética dos anos 1950, mas sua influência cresceu. Tanto a República Islâmica do Irã quanto o regime criado no Iraque pela intervenção anglo-americana de 2003 cooperam entre si e com as operações militares de Moscou em apoio a Bashar al-Assad.

Há tempos a Guarda Revolucionária do Irã luta na Síria ao lado do exército de Damasco, dos russos e do Hezbollah, e no Iraque juntamente com as milícias xiitas que enfrentam o “Califado”. Em 16 de agosto, Bagdá autorizou a sobrevoar seu território os bombardeiros russos que partiram do Irã para atacar alvos na Síria.

Criticada no Irã por parlamentares e pelo ministro da Defesa, que reclamou do “exibicionismo” dos russos ao divulgar vídeos da decolagem dos TU-22 da base de Hamadã, a operação foi suspensa depois de alguns dias, mas pode vir a ser retomada. A Rússia está em meio à entrega a Teerã de um grande contrato de mísseis antiaéreos S-300, de última geração. Não é provável um distanciamento, por maiores que sejam as pressões ocidentais.

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O sofrimento dos civis sitiados pelo exército sírio impressiona. Falta só mostrar também o causado pelos EUA e seus aliados. (Mahmou Rslan/ AFP)

Além disso, agora também o governo de Recep Tayyip Erdogan, que ainda em novembro de 2015 provocava Vladimir Putin e derrubava um caça russo na fronteira da Síria, foi a São Petersburgo pedir desculpas e solicitar uma reaproximação, enquanto esfria relações com os EUA, a Europa e a Otan, da qual participa desde 1952. O primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, diz que seu governo cogita permitir à Força Aérea russa operar em Incirlik, base turca usada pela Otan onde os EUA armazenam parte de seu arsenal nuclear.

Essa virada surpreendente acontece após a tentativa de golpe em 15 de julho e em parte por causa dele. Apesar do confronto de 2015, após o qual bloqueou a importação de produtos turcos e o turismo de russos no país, e ainda denunciou a participação do governo e de empresas turcas em negócios com o Estado Islâmico, Putin telefonou para solidarizar-se com Erdogan antes de qualquer líder da Otan, cujos governos silenciaram à espera do desfecho. É só a ponta do iceberg: segundo o jornalista Robert Fisk, acredita-se no Oriente Médio ter sido o serviço secreto de Moscou que advertiu o presidente turco sobre o golpe iminente.

Enquanto isso, a base de Incirlik tinha a energia cortada e os voos militares da Otan bloqueados por Erdogan até a rendição dos generais golpistas ali abrigados, enquanto outros oficiais fugiam para a Grécia e Itália. Que a intentona tenha sido instigada pelo Ocidente, como acredita parte do público turco, soa a teoria conspiratória, quase tanto quanto a tese de que foi encenada por Erdogan. Mas, assim como este usou o fracasso da quartelada para neutralizar a oposição e reforçar seu autoritarismo, o Ocidente provavelmente teria tirado proveito de um regime golpista simpático a seus interesses. 

Apesar de Angela Merkel ter negociado com Erdogan o famigerado acordo para bloquear os migrantes na Turquia, a primeira-ministra explicitou na segunda-feira sua preocupação com as massivas demonstrações de apoio a Erdogan da comunidade turca na Alemanha e cobrou dos imigrantes “lealdade” para com Berlim.

Enquanto isso, a tevê estatal alemã vaza que seu serviço secreto acusa Erdogan de respaldar a Irmandade Muçulmana, o Hamas e organizações fundamentalistas na Síria. Atitude curiosa, pois esse apoio sempre foi manifesto, apesar de minimizado pela mídia ocidental quando a Rússia o denunciava e tão notório quanto a assistência do Catar e de sauditas aos mesmos grupos, da qual pouco ainda se fala. 

Washington resiste a extraditar o imã Fethullah Gülen, visto pelo governo turco como líder da conspiração e formalmente acusado de desfalque e falsidade ideológica. Não está provada sua participação pessoal (assim como de grande parte dos cerca de 26 mil detidos na Turquia), mas quem conhece o país não duvida da implicação de seu movimento.

“O envolvimento de um considerável número de oficiais sugere um complô preparado com muita antecedência e mantido em segredo. Isso exige um grupo bem organizado, disciplinado e ideologicamente motivado entre os militares. Que eu saiba, os únicos a se encaixarem nesses critérios são os gülenistas”, disse James Jeffrey, ex-embaixador dos EUA na Turquia e um dos especialistas na região do Washington Institute, à emissora alemã Deutsche Welle.

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Para satisfazer Erdogan, Washington teria de trair e entregar tanto o imã Gulen, exilado em seu território, quanto os seus aliados curdos. ( Selahattin Sevi/ AFP)

A essa ambivalência do Ocidente soma-se a inquietação crescente de Erdogan com o apoio do Pentágono aos curdos, a ponto de lhes dar o apoio de suas forças especiais e cobertura aérea contra a aviação síria. Estes são a única facção não fundamentalista eficaz com a qual Tio Sam pode contar na região, inclusive para combater o Estado Islâmico. Muitos estrategistas ouvidos em Washington e Tel-Aviv pregam abertamente que o Curdistão “merece” a independência, inevitavelmente à custa da Turquia, Síria e Iraque, pelo menos. Mas a Rússia e o Irã, pelo contrário, têm todos os motivos para não encorajar movimentos separatistas.

Assim, a Turquia, outrora aliada incondicional do Ocidente, independentemente de ser governada por ditadores ou presidentes eleitos, deslocou-se para uma posição ambígua. Sua atitude para com a articulação entre Rússia, Irã, Iraque, Síria e Hezbollah mudou a ponto de inquietar Washington. Erdogan precisa de mais amigos e menos inimigos. 

O vice Joe Biden foi despachado para Ancara para tentar apaziguar Erdogan, pedir desculpas por não tê-lo visitado antes para expressar apoio e jurar em nome da Casa Branca não ter tido conhecimento prévio da conspiração. Mais crucialmente, advertiu publicamente as forças curdas na Síria que cruzaram o Eufrates na luta contra o Estado Islâmico para voltar atrás, sob pena de perder o apoio dos EUA ,e foi acatado. Enquanto isso, forças turcas, apoiadas por um contingente quase simbólico de rebeldes sírios, cruzaram a fronteira da Síria e tomaram Jarabulus, cidade da fronteira controlada desde 2013 pelo Estado Islâmico e prestes a cair em mãos curdas.

A ameaça do Estado Islâmico está longe de desaparecer. Está na Líbia, no Iêmen e em outras partes da África e Eurásia e criou uma rede internacional que não será erradicada da noite para o dia, assim como a Al-Qaeda não desapareceu (muito pelo contrário) com a ocupação do Afeganistão pela Otan. Mas a estrutura semiestatal criada na Síria e no Iraque está à beira do colapso.

Desde o início da intervenção russa, em setembro de 2015, perdeu mais de metade do território, dos combatentes e das receitas de petróleo e mal consegue proteger e alimentar seus súditos. Como o III Reich em suas batalhas finais, torna-se ainda mais cruel, recorre cada vez mais a crianças como combatentes e a luta por seus redutos principais em Raqqa e Mossul provavelmente produzirá atrocidades inéditas. E, como os aliados no caminho para Berlim, as forças provisoriamente unidas na mesma luta disputam os territórios retomados e se preparam realinhamentos para o futuro confronto. 

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Comenta-se que o Kremlin advertiu o governo turco sobre o golpe. (Marwan Ibrahim/ AFP)

A disposição dos EUA de intervir na Síria esfriou quando os russos cobriram a aposta, mas Hillary Clinton defende uma escalada do apoio aos rebeldes se for eleita. A mídia prepara a opinião pública ao dar manchetes do sofrimento dos civis da zona leste de Alepo assediados por Assad, enquanto omite ser a Al-Qaeda a defensora do bastião rebelde e o fato de há não muito tempo terem sido os civis da zona oeste, controlada pelo governo, a sofrer com cerco e mísseis.

E, é claro, não dá a mesma importância às vítimas civis dos bombardeios sauditas no Iêmen e dos drones dos EUA em toda a região. Entretanto, planos de fornecer armas pesadas aos rebeldes, impor “zonas de exclusão aérea” e bombardear o exército sírio dependem da Turquia. Se esta recusar desafiar a Rússia, tais projetos terão de ser arquivados. E se os EUA quiserem recuperar os turcos, terão de trair os curdos. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 916 de CartaCapital, com o título "Discutindo a relação". Assine CartaCapital.