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Número 916,

Sociedade

Brasiliana

Do lado oposto

por René Ruschel — publicado 02/09/2016 12h12, última modificação 03/09/2016 01h07
Humilhado na escola por tirar boas notas, ex-dependente hoje recupera viciados e casa-se com voluntária que o tirou da rua
Acervo pessoal
Iuri Santana

'Minha mulher continua sendo meu anjo da guarda'

O histórico de vida de Iuri Rodrigo Santana é o mesmo de milhares de moradores de rua. O padrasto, caminhoneiro e alcoólatra; a mãe, diarista, obrigada a deixar os três filhos sozinhos em casa. Desde muito cedo, foi vítima de bullying na escola pública por usar óculos “fundo de garrafa” e tirar boas notas. De nada adiantou reclamar aos pais. Aos 9 anos, em busca de proteção para não apanhar dos colegas, uniu-se a um grupo de meninos apaixonados pelo mesmo time de futebol.

Na convivência, conheceu o álcool e o cigarro. Aos 12 anos, integrava uma torcida organizada e experimentou maconha pela primeira vez. Aos 14, um primo o apresentou ao crack. Ali começava um calvário de destruição que duraria 16 anos. “Cheguei a fumar 20 pedras de crack num mesmo dia. Era crack e bebida. Fui ao fundo do poço.” 

Para sustentar o vício, a única opção foi o roubo. Aos 17 anos foi preso pela primeira vez. A segunda viria anos depois, por estelionato. Nesse ínterim, casou-se e tentou abandonar o vício por meio de internações. Entre idas e vindas, o casamento esfacelou-se.

Abandonou a família e passou a viver na rua. Certa noite, após quatro dias de consumo contínuo de álcool e crack, arrastou-se pelas escadas de um albergue para chegar até a cama. “Não tinha mais forças. Implorei a Deus por ajuda. Queria me livrar das drogas e daquela vida.”

Nas manhãs de domingo frequentava o Passeio Público, um centenário espaço no Centro de Curitiba, onde um grupo de evangélicos distribuía café da manhã. Foi ali, em 2013, que encontrou seu anjo da guarda. A musicóloga Wanilzey Castro Alves Santana, separada, dois filhos, era uma das voluntárias.

Voluntário
Hoje, Iuri frequenta o lugar como voluntário (Foto: Acervo pessoal)

Seu sonho era cantar em palcos de auditórios famosos. Ironicamente, a vida levou-a a dirigir a prática de cantos religiosos entoados por moradores de rua e viciados em drogas. Iuri Santana era um deles. “Meu sentimento por ele foi paulatino. Percebi que tinha força de vontade e queria deixar aquela vida.”

Somente vontade e disposição não pareciam suficientes para tirá-lo daquele mundo. “Tive recaídas e voltava às ruas e às drogas. Não fosse o amor e a perseverança da Wanilzey, certamente teria perdido essa batalha.” Em 2014, ela internou-o numa clínica de recuperação.

Foram sete meses de persistência. “Durante esse período, nunca deixou de me visitar. Trazia livros, me aconselhava e incentivava a sair do mundo das drogas. Aos poucos me convenci de que ela era a única esperança. Deus a colocou em minha vida para me salvar.” Em fevereiro de 2015, casaram-se numa cerimônia religiosa realizada no mesmo Passeio Público.

A maioria dos convidados e alguns padrinhos foram moradores de rua que dividiram com o noivo as calçadas e marquises nas noites frias de Curitiba. Neste mês, o casal celebrou o nascimento dos gêmeos Rebeca e Isaac.

Casamento
Foi no Passeio Público, palco de suas agruras, que Santana se uniu à musicóloga Wanilzey, em cerimônia de 2015 (Foto: Acervo pessoal)

Há quase dois anos Santana pode se considerar “limpo”, mas conhece os riscos. “Como todo viciado, sei que posso ter uma recaída. Minha mulher continua sendo meu anjo da guarda.” Por precaução, não vai sozinho aos locais frequentados no passado. A exceção é o Passeio Público. Aos domingos, é voluntário no mesmo cenário onde conheceu quem o tirou da ruína. Distribui pão, leite, canta, faz orações e dá testemunhos de vida.

Atualmente, dedica todo seu tempo à recuperação de viciados. Em troca de moradia e comida, foi viver com a família, a mulher e seus dois filhos, em uma chácara transformada em clínica. Lá, ensina e aprende a enfrentar os percalços da vida.

Otimista, acredita que dependentes são recuperáveis, mas é preciso força de vontade e dar o primeiro passo. “Ninguém se recupera pela violência. Ninguém mora na rua porque deseja. Somos fracos, frágeis e precisamos de amor. Só deixei esse inferno porque encontrei alguém que me ofereceu amor, carinho e compreensão.”