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Número 915,

Internacional

Eleições EUA

Às vésperas das eleições, EUA enfrentam radicalização

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 31/08/2016 05h02
Os democratas devem manter a Casa Branca, mas a polarização continuará a se agravar
Gage Skidmore/ Flickr e Wikimedia Commons
Trump-e-Hillary

É difícil questionar Hillary quando o adversário é tão desqualificado

Donald Trump esteve ligeiramente à frente de Hillary Clinton no fim de julho, mas o impulso proporcionado pela convenção democrata e pelo apoio de Bernie Sanders reverteu essa vantagem. Hillary ganhou uma margem que na média das pesquisas nacionais está em 8%.

O preço foi incorporar parte do discurso de Sanders, inclusive em pontos nos quais ele concorda com Trump. No estado industrial de Michigan, Hillary criticou os tratados de livre-comércio propalados por “promessas não cumpridas” e prometeu lutar contra a ratificação do Tratado Transpacífico (TTP), sem se desculpar por tê-lo articulado e defendido para o governo de Barack Obama quando secretária de Estado. Muito menos por ter trabalhado com o marido, Bill Clinton, quando este promoveu o Nafta e a globalização dos anos 1990.

É difícil acreditar na sinceridade dessa conversão a posições antes atacadas por ela e seus partidários como “populistas” e agora incorporadas a seu discurso juntamente com o salário mínimo de 15 dólares por hora exigido por Sanders. A candidata continua a receber doações de multimilionários favoráveis ao livre-comércio e tanto seu vice, Tim Kaine, quanto o organizador de sua equipe de governo, Ken Salazar, são partidários entusiasmados do TTP.

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Tanto Podesta (esq.), chefe da campanha de Hillary, quanto Manafort (dir.), da campanha de Trump, trabalharam para o presidente ucraniano pró-russo Viktor Yanukovych (no centro) (Foto: Drew Angerer/Getty Images/AFP, AFP e Chip Somodevilla/Getty Images/AFP)

Por outro lado, enquanto o país discute menos do que deveria a responsabilidade de Hillary nas catástrofes do Oriente Médio, Ucrânia, África, América Latina e Mediterrâneo, seu uso para assuntos de Estado de um e-mail pessoal não protegido pelo Serviço Secreto causa certa comoção. Ou foi uma negligência embaraçosa para uma candidata cujas supostas competência e responsabilidade são bandeiras de campanha, ou suas mensagens eram de natureza a preferir correr o risco da espionagem inimiga a revelá-las ao próprio governo.

De fato, Hillary e equipe parecem ter retribuído a doadores da Fundação Clinton com favores como reuniões com embaixadores e aprovação de negócios internacionais estratégicos. Como notou editorial do Washington Post, “em outro ano eleitoral, com um oponente não tão obviamente desqualificado, o impacto dessas revelações teria sido muito maior”.

Tais deslizes soam insignificantes quando o adversário ataca a família de um soldado morto em ação, pede à Rússia para divulgar supostos segredos de Hillary, ridiculariza uma condecoração (Purple Heart) reservada a militares feridos em combate, sugere o assassinato da adversária aos defensores do porte de armas, acusa Barack Obama de ter fundado o Estado Islâmico e pede testes ideo­lógicos aos candidatos à migração para os Estados Unidos.

O comportamento de Trump é tão atroz que os democratas bem poderiam ter-se poupado de inventar um macarthismo às avessas e acusá-lo (e, por extensão, a todos os críticos de Hillary) de estar a serviço de Vladimir Putin. Elogios mútuos e afinidade ideológica são notórios, mas é difícil imaginar por que cargas-d’água o bilionário seria manipulado pelo líder de um país onde nem sequer tem grandes investimentos.

Fez-se alarde sobre Paul Manafort, chefe da campanha de Trump que também trabalhou para o ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovych e seu partido pró-russo de 2004 a 2012. Entretanto, igualmente trabalhou para Yanukovych, até 2014, o Grupo Podesta, do qual um dos fundadores é John Podesta, ex-chefe de gabinete de Bill Clinton, ex-conselheiro de Barack Obama e chefe da campanha de Hillary.

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Bannon, nova escolha de Trump (Foto: Chip Somodevilla/Getty Images/AFP)

Em todo caso, Trump abafou a polêmica com um nome ainda mais controvertido para sua campanha: Steve Bannon, chefe do sensacionalista e ultradireitista site Breitbart News e diretor de panegíricos cinematográficos a Ronald Reagan e Sarah Palin.

O candidato pusera Manafort no comando em junho, quando terminavam as primárias e queria se aproximar da cúpula republicana. Os resultados não foram satisfatórios, como mostram seguidos manifestos assinados por líderes republicanos, inclusive estrelas neoconservadoras como a ex-secretária de Estado Condoleezza Rice, para pedir ao partido que se distancie de sua campanha e lhe corte os fundos. Alguns chegaram a declarar voto no libertarian Gary Johnson ou mesmo em Hillary.

Também não teve o sucesso esperado a tentativa de conquistar votos dos eleitores de Sanders insatisfeitos com Clinton. Se 30% aderissem a Trump, ele venceria, mas parece ter conseguido menos de 10% (outros 30% consideram não votar ou votar em um terceiro candidato). A escolha de Bannon soa como um retorno a um populismo xenófobo sem concessões, que talvez não vença a eleição presidencial, mas anima as bases e redesenha a direita.

Desde os anos Reagan, o Partido Republicano baseava-se oficialmente em um misto de liberalismo econômico para os patrocinadores e conservadorismo moral para as bases. Trump troca moralismo por nacionalismo, xenofobia e racismo e dogmatismo liberal por protecionismo e menos impostos. Seus espantalhos são tanto as minorias na base da pirâmide quanto um cume identificado com uma suposta tecnocracia global cosmopolita, em contraste com a “nação verdadeira” de trabalhadores brancos e empresários “nacionais”.

Mesmo que Trump seja derrotado, esse discurso, semelhante ao da ultradireita europeia, encontrará novos portadores enquanto durarem as condições criadas pela concentração de renda desde os anos 1990. Foi ensaiado pelo pré-candidato Patrick Buchanan na eleição de 1996 e ganhou força quando as desigualdades se acentuaram e se consolidaram na crise de 2008.

Desde o Nafta, a mobilidade do capital favoreceu as transnacionais dos Estados Unidos, capazes de organizar a produção em escala global, à custa das pequenas e médias empresas e da classe trabalhadora tradicional, hoje agudamente consciente da perda de empregos, salários e qualidade de vida com a mudança de linhas de produção para o México ou a China. Parte dela vê o governo federal como uma agência que os espolia ainda mais em prol de negros, latinos e mães solteiras, a maioria dos pobres com direito a programas de assistência social.

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Bannon fez carreira promovendo as teorias, discursos e personagens mais bizarros da direita estadunidense (Foto: Kirk Irwin/Getty Images/AFP)

Enquanto Sanders quer transformá-los em direitos universais (sem convencer as minorias de que não serão prejudicadas) e Hillary mantê-los, a direita sempre quis desmantelá-los para oferecer menos impostos. Ao acrescentar o protecionismo, Trump oferece aos trabalhadores brancos a ilusão de que não apenas serão aliviados de uma carga como terão ganhos materiais suficientes para retornar ao paraíso perdido dos anos 1950.

Isso entusiasma a “América real” dos conservadores. Entretanto, como aponta o estatístico Nate Silver, brancos, cristãos, não diplomados e moradores do interior ainda são maiorias nos EUA, mas só 20% se encaixam em todas essas categorias ao mesmo tempo. Cerca de 70% dos tais “americanos reais” votaram em Mitt Romney contra Obama em 2012 e uma porcentagem ainda maior deve votar em Trump, mas isso não basta para vencer uma eleição nacional.

Configura-se uma campanha polarizada, da qual Hillary vencerá por ser menos rejeitada, mas corre riscos caso subestime a necessidade de dar razões positivas para votar nela. Dadas as margens de erro e as peculiaridades do colégio eleitoral, o adversário ainda tem hoje 12% de chances de vitória, calcula Silver, e muito pode acontecer até 8 de novembro.

Muitos que apoiaram Sanders ou se consideram independentes de partidos não decidiram se as diferenças entre Hillary e Trump justificam dar-se ao trabalho de ir às urnas e outros pensam em alternativas. Enquanto Gary Johnson, do Partido Libertário, recebe republicanos contrários a Trump, Jill Stein, do Partido Verde, capta democratas insatisfeitos com Hillary. Seus partidos têm intenções de voto inéditas e a novidade pode fazer as tevês convidarem seus candidatos a debates e tirar votos preciosos aos candidatos principais.

Por ora, o Partido Republicano não parece correr o risco de perder a maioria na Câmara. A “salamandragem” (gerrymandering) promovida por ambos os partidos redesenhou os limites dos distritos para torná-los currais quase inexpugnáveis, social e racialmente tão homogêneos quanto possível. Cresce a população não branca, cuja adesão aos democratas foi reforçada por Trump, mas continua a viver nos distritos onde já era maioria. Dificilmente os democratas conseguirão tomar aos republicanos os 30 distritos necessários para conseguir a maioria.

O caso é diferente no Senado, pois a maioria dos estados tem populações diversificadas e os senadores não têm como deixar de se posicionar nos debates cruciais sobre questões nacionais e internacionais. A queda de Trump arrasta os senadores republicanos e, se estes não conseguirem roer a corda, seu partido pode perder a atual maioria de 54 a 46.

O resultado seria um governo Hillary Clinton com razoável liberdade de ação em política externa, campo no qual ela se mostrou mais belicosa do que Obama, se não perigosamente agressiva. Na política interna, as propostas sociais progressistas seriam barradas na Câmara.

E o clima de polarização se aprofundará com o crescimento inexorável da população não branca ou imigrante (maioria até 2040, segundo os demógrafos), do ressentimento do nativismo branco e das articulações de esquerda e direita sinalizadas por Sanders e Trump. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 915 de CartaCapital, com o título "Estados desunidos" Assine CartaCapital.

 

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