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Número 915,

Economia

Opinião

A mutação da grande empresa

por Thomaz Wood Jr. publicado 31/08/2016 05h02
Alguns gigantes de outrora desapareceram, mas outros continuam firmes e fortes e surgiram novas espécies
Foto: Dênio Simões/ Agência Brasília
Operários

Segundo Davis, as corporações foram capazes de garantir emprego para universitários e para operários, em suas linhas de produção

Grandes corporações industriais marcaram a vida econômica do século XX, era do automóvel, do petróleo e dos bens de consumo. Frequentemente longe da ribalta, elas induziram hábitos, mudaram comportamentos, influenciaram a dinâmica econômica e ajudaram a moldar políticas públicas.

O papel das grandes corporações é polêmico. Os governos disputam seus investimentos, de olho em impostos e empregos. Sem elas, a chance de um país se desenvolver é pequena. Por ganância, soberba ou simples incompetência, entretanto, às vezes elas se envolvem em desastres ambientais, fraudes financeiras e escândalos políticos. 

Nos últimos anos, cronistas de variadas atitudes e latitudes passaram a vaticinar sua debacle. É certo que as mudanças econômicas ocorridas desde os anos 1980 fizeram vítimas. Muitos mamutes que dominaram a paisagem durante décadas não se adaptaram aos novos tempos e desapareceram. Entretanto, alguns se reinventaram e outros sobreviveram na forma de estatais e congêneres, seu anacronismo pago por contribuintes sem escolha.

No livro The Vanishing American Corporation: Navigating the hazards of a new economy (editora Berrett-Koehler, 2016), Gerald F. Davis mostra como os gigantes do passado estão cedendo espaço a uma nova onda de megaempresas, maiores e mais valiosas que suas antecessoras, porém baseadas em modelos de negócios que prescindem de grandes contingentes de empregados.

No prefácio da obra, Davis informa que patologias sociais contemporâneas, tais como o aumento da desigualdade, a baixa mobilidade, a deterioração das redes sociais de proteção e o domínio da política pelos mais ricos estão relacionados ao declínio das corporações. Segundo o autor, as corporações foram capazes de garantir emprego para universitários, em seus escritórios, e para operários, em suas linhas de produção. E as carreiras oferecidas eram longas e relativamente seguras. Não mais. Com as reestruturações, enxugamentos e cortes de níveis hierárquicos, desapareceram as carreiras. Agora, com o amadurecimento das tecnologias de comunicação e de informação, estão desaparecendo os empregos.

Davis lembra que a paisagem corporativa mudou substantivamente nas últimas décadas. Alguns gigantes empresariais faliram, outros foram divididos, fundidos ou transformados. Os novos membros do seleto grupo de grandes corporações são mais ágeis, valiosos e têm quadros extremamente enxutos. Trocaram folhas de pagamento caras e funcionários sindicalizados por subcontratados e “parceiros”, seres de poucos direitos e muitos deveres.

Profissionais com formação superior têm hoje três opções: a primeira é concorrer às raras e cobiçadas vagas corporativas; a segunda, tentar a sorte no empreendedorismo, construindo algo de valor para depois vender a uma empresa maior; e a terceira é seguir uma existência precária, combinando trabalho eventual com horas-trânsito, a soldo do Uber ou equivalente. Para aqueles sem formação superior, as alternativas são ainda mais restritas e menos atraentes. É o mundo do precariado.

No início do século XX, as corporações emergentes foram identificadas como fontes de prosperidade e, por causa de seu porte e poder, como verdadeira ameaça à democracia. Procurou-se, em nome do bem comum, domesticá-las. O sucesso foi relativo. Agora o desafio se renova, com uma onda de corporações que trazem novos modelos de negócio, novas tecnologias e novos discursos.

Justin Fox, do portal Bloomberg, notou que, como Davis, muitos observadores vêm prevendo o desaparecimento das grandes corporações. De fato, os sinais de mudança na paisagem corporativa são notáveis. Entretanto, informa o autor, com base em levantamento quantitativo, ainda existem muitas empresas grandes, com dezenas, ou até centenas, de milhares de empregados. E elas continuam crescendo.

O fato é que o ambiente corporativo segue em modo de destruição criativa. Alguns gigantes de outrora desapareceram, mas outros continuam firmes e fortes, e surgiram novos e diferentes animais na floresta. Cabe retomar as preocupações que despertaram a atenção de alguns legisladores do início do século XX. Em nome do bem comum, eles procuraram criar condições para viabilizar a vida dos mostrengos e o chamado espírito animal de seus empreendedores, mas ficaram atentos aos seus desvios e excessos.