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Número 914,

Internacional

América Latina

Argentina, um Brasil que fala espanhol

por Eric Nepomuceno — publicado 17/08/2016 04h54, última modificação 17/08/2016 09h48
À parte ter sido eleito de forma legítima e enfrentar mais resistência, Macri é um paralelo quase perfeito para Temer
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Serra dá um golpe no Mercosul e retornam os tempos de servilismo de Carlos Menem (Fotos: Jessika Lima/AIG-MRE e Ricardo Ceppi/dpa/Fotoarena)

Para entender o que acontece na Argentina desde a quinta-feira 10 de dezembro do ano passado, quando Mauricio Macri chegou ao poder, basta olhar em volta: mesmo considerando as diferenças, algumas fundamentais, o Brasil de Michel Temer é a Argentina falada em português, e vice-versa.

Antes de mais nada, é importante recordar a mais contundente das diferenças. Macri chegou ao poder levado pelos votos de 51,4% dos eleitores, diante dos 48,6% conquistados por seu adversário, Daniel Scioli, apoiado pela ex-presidenta Cristina Fernández de Kirchner. Uma vantagem estreita, inferior a 3 pontos: 700 mil votos, num universo eleitoral de 32 milhões. Michel Temer, por sua vez, não obteve um único e solitário voto: chegou à Presidência interina levado pelo golpe institucional em curso.

Outra diferença significativa: apesar de exercer a Presidência de forma legítima, Macri entra em seu sétimo mês de mandato enfrentando uma resistência cada vez mais ampla e dura nas ruas.

Isso se explica pelo fato de a Argentina, além de politizada, ser, depois de Cuba, o país mais sindicalizado das Américas. Crescem, com persistente constância, as multitudinárias mobilizações de protesto contra a política de terra arrasada do que foi feito nos últimos 15 anos, principalmente as conquistas sociais.

Algumas medidas, como o aumento de até 700% nos serviços públicos (luz, gás, transporte), foram suspensas temporariamente pela Justiça. A inflação continua acima de 40% anuais, o desemprego cresce, aumenta a repressão a movimentos sociais, e sabe-se lá qual será o preço final a ser pago pelo retorno do neoliberalismo exacerbado.

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Apesar da prisão de Milagro Salas, o projeto neoliberal de Macri enfrenta manifestações crescentes de oposição (Foto: Leo Ramirez/AFP)

Uma das mais ativas dirigentes sociais argentinas, Milagro Salas, do estado miserável de Jujuy, foi presa assim que Macri assumiu, e presa está até hoje. Deputada do Parlasul, o Parlamento do Mercosul, ela é acusada de atentar contra a ordem pública, graças às multitudinárias manifestações populares que encabeçava. Também é acusada de desvio de recursos públicos. Fotos de um BMW supostamente de sua propriedade, em cujo banco traseiro havia maços e maços de dólares, foram amplamente divulgadas. Seus advogados comprovaram facilmente que eram fotos armadas, mas isso quase não chegou aos grandes meios de comunicação, que, lá como cá, praticam um jornalismo bandoleiro. 

Medidas que beneficiam o capital internacional apareceram entre as primeiras ações de Macri. Acordos arduamente negociados entre o Estado argentino e credores externos foram sumariamente atropelados, com a rendição veloz diante da voracidade de fundos especulativos, não à toa batizados de ‘fundos abutres’, que lucraram bilhões.

O novo governo esperava, assim, acalmar os investidores internacionais e canalizar recursos em moeda forte para o país. Por enquanto, colheu promessas imensas e investimentos ínfimos.

Uma das primeiras medidas de Macri foi desvalorizar o peso argentino em 40% ante o dólar. Passados sete meses, o peso já está sobrevalorizado e o país vive o insólito fenômeno de ter uma inflação em dólar.

Volta a febre das privatizações, tão característica do ultraneoliberal ex-presidente Carlos Menem, que vendeu a preço vil parte substancial do patrimônio nacional dos argentinos.

Recorda-se, até hoje, uma das privatizações absurdas: a da Aerolíneas Argentinas, linha aérea estatal, vendida para a espanhola Iberia, na época igualmente estatal. Ou seja, um Estado “privatizou” patrimônio público, vendendo-o a outro Estado.

Foram os Kirchner (primeiro, Néstor, e depois sua sucessora e viúva, Cristina) que recuperaram parte desse patrimônio, nacionalizando empresas, como a petroleira YPF e a Aerolíneas. Tempos passados: tudo pode mudar. 

Em outra coincidência com o que acontece por aqui, Macri coalhou seu governo e as principais empresas estatais com altos executivos extraídos diretamente de setores da iniciativa privada cujos interesses estão exatamente na mesma área. Se aqui o interino Temer pescou entre os dirigentes (e também acionistas) do Itaú o novo presidente do Banco Central, máxima autoridade reguladora justamente do mercado financeiro, na Argentina o efetivo e legítimo (afinal, foi eleito pelo voto popular) Macri pescou em multinacionais altos executivos designados para ministérios e secretarias nacionais que controlam a mineração, o petróleo, o transporte, as concessões de infraestrutura, além, claro, da equipe econômica.

Impressiona a velocidade olímpica com que o novo governo eliminou subsídios sociais, suspendeu das exportações impostos que ajudavam a manter baixos os preços de produtos de primeira necessidade no mercado interno. A explosão inflacionaria derreteu parte consistente do comércio, liquidando pelo menos 150 mil empregos no setor varejista de março para cá. Só no primeiro semestre de 2016, e apesar dos dissídios que concederam aumentos substanciais aos salários, o poder aquisitivo real dos trabalhadores argentinos retrocedeu 12%.

Manifestações
A inflação supera os 40% anuais e o desemprego e a repressão crescem

A política de resgate da memória, recuperação da verdade e instauração da justiça, levada adiante por Néstor Kirchner através de seu então secretário de Direitos Humanos, o advogado Eduardo Luis Duhalde, é outra vítima da sanha devastadora do novo governo.

Sabendo ser praticamente impossível desfazer o que foi feito, e que transformou a Argentina no país latino-americano que mais avançou nas investigações sobre o terrorismo de Estado durante a mais recente ditadura militar (1976-1983), Macri prefere corroer pelas bordas.

Muitas instituições dedicadas ao apoio a vítimas da política de lesa-humanidade, além das que levam adiante investigações sobre o que as trevas do esquecimento forçado ocultam, perderam pessoal e recursos. Ao mesmo tempo o governo incentiva tribunais a liberar para o regime de prisão domiciliar vários genocidas condenados à prisão perpétua.

Outra claríssima coincidência entre o governo interino do Brasil e o legítimo governo argentino está nas mudanças da política externa. 

Voltam os tempos de alinhamento automático e servil com Washington. A política externa “ativa e altiva” iniciada com Lula da Silva e levada, a rigor, em banho-maria por Dilma, e que – apesar de rusgas bilaterais – sempre funcionou de maneira harmônica com a da Argentina ao longo dos últimos 13 anos, está condenada.

O golpe contra a Venezuela no Mercosul, por exemplo, é, de fato, um golpe contra a própria existência do bloco: ao impedir que se cumpram os estatutos e o país assuma a presidência rotativa, torna-se claro, de toda clareza, que agora os tempos são outros.

A grosseria contumaz de José Serra é só a parte mais visível da sanha demolidora. Também nesse campo os novos tempos significam um acelerado retorno a tempos passados.

Para completar o quadro, lá – como cá, ou vice-versa – há uma intensa politização da Justiça, sempre com a cumplicidade unânime dos meios hegemônicos de comunicação.

Definitivamente, Brasil e Argentina nunca estiveram tão próximos, a não ser em tempos de ditadura.

Quando despertarem, verão que o sonho de integração virou pesadelo. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 914 de CartaCapital, com o título "Um Brasil que fala espanhol" Assine CartaCapital.