Você está aqui: Página Inicial / Revista / O suicídio do Brasil / As relações perigosas da oposição a Assad
Número 914,

Internacional

Oriente Médio

As relações perigosas da oposição a Assad

por The Observer — publicado 19/08/2016 10h51
Os rebeldes sírios conquistam uma vitória, mas dependem cada vez mais da fundamentalista Al-Nusra
Thaer Mohammed/AFP
Alepo

6 de agosto: partidários dos rebeldes comemoram a ruptura do cerco a Alepo

*Por Emma Graham-Harrison e Kareem Shaheen, de Beirute

Uma academia militar no centro de Alepo, na Síria, era um alvo ousado, e até imprudente, para as forças de oposição que tentavam romper o cerco devastador, mas os rebeldes apostaram em uma dupla vantagem: a surpresa e os homens-bomba. 

Logo os rebeldes compartilhavam no Twitter fotos de equipamentos de artilharia abandonados e um retrato destruído do presidente Bashar al-Assad, exibidos como prova triunfal de que o Exército estava derrotado e as forças de oposição, a poucas centenas de metros de seus camaradas, sitiadas. E no sábado 6 parecia que o cerco de um mês a Alepo havia se rompido. O destino da cidade nas mãos da oposição estava novamente em jogo e o otimismo das forças rebeldes e seus apoiadores retornara.

“O moral está muito alto agora”, disse o ativista e poeta Mahmoud Rashwani, que viveu principalmente escondido na cidade sitiada para evitar ataques aéreos e tentar conseguir alimento enlatado.

Para os rebeldes foi uma vitória notável, contrariando as expectativas. Dias antes, o futuro da área parecia definido, sua população civil enfrentando longas semanas de privação e medo, depois que as tropas do governo cortaram a última rota para áreas rebeldes e grupos de ajuda advertiram sobre uma catástrofe humanitária.

Mais de 250 mil pessoas ficaram encurraladas nos destroços das ruas pelas armas dos soldados de Assad, tropas de elite do Irã e um espectro de milícias xiitas, patrulhadas do ar por aviões russos. Os rebeldes tinham menos homens, menos armas e, o mais crucial, nenhuma força aérea. 

Os grupos de oposição pediram uma trégua temporária em suas próprias disputas, reuniram centenas de seus homens com mais experiência nas batalhas em outras frentes e usaram bombas de túnel e atacantes suicidas para atingir a base militar e tentar armar um contrassítio de Alepo oeste.

000_DN7YI.jpg
Para facilitar acordos, Al-Jolani diz ter rompido com a Al-Qaeda (Foto: Al-Manara Al-Baydaa/AFP)

Ambos os lados estão jogando tudo o que podem na batalha de quatro anos pela cidade – uma luta que passou a definir a guerra síria, porque cada um acredita que o destino de Alepo também decidirá o resultado do conflito.

“Os resultados dessa batalha vão além de apenas abrir caminho para os sitiados, ela vai derrubar o equilíbrio da luta no Levante”, disse Abu Mohammad al-Jolani, líder de uma poderosa facção rebelde que até o mês passado era a franquia oficial da Al-Qaeda na Síria. 

Ela cortou seus laços, mudou de nome e renunciou à Jihad internacional em uma decisão que, segundo especialistas, provavelmente se destina a sair da lista de alvos dos ataques aéreos americanos e facilitar a coalizão com outras facções. “Isso traçará um novo mapa do caminho para a batalha”, acrescentou Jolani em uma gravação de áudio divulgada na sexta-feira. “Pedimos que nosso povo em Alepo se mantenha firme.... Os mujaheddin não falharão.”

Alepo é importante estratégica e simbolicamente, ao mesmo tempo. Damasco pode ser a capital, mas, antes do início da luta, sua concorrente do norte era a cidade mais populosa, a locomotiva econômica – um polo cultural diversificado e vibrante, com uma história que remonta a milênios. 

Ela demorou para aderir à rebelião contra Assad, deixando de produzir grandes protestos ou a violência sangrenta que varreu outras cidades no primeiro ano da guerra civil. Mas, desde que a oposição a invadiu, em 2012, foi um campo de batalha crucial. 

Alepo é hoje o último centro urbano importante onde os rebeldes têm uma base, e o êxito em romper o sítio terá grande peso psicológico, revertendo os meses de danos causados pela intensa campanha aérea russa em apoio a Assad.

Moscou interveio no ano passado em um momento precário para Assad, que tinha perdido toda a província de Idlib para uma ofensiva rebelde unida. A campanha do Kremlin massacrou os rebeldes, reverteu seus avanços e deixou Assad seguro em seus pontos fortes. Ele, mais que os combatentes da oposição, concentrou-se no avanço para Alepo, que culminou, no início de julho, em um sítio muito temido. 

GM1EA5I08NK01.jpg
Mudou o nome da Al-Nusra, mas os mujaheddin são os mesmos (Foto: Al-Manara Al-Baydaa/AFP)

Menos de um mês depois de Alepo ser isolada, a vida na cidade quase parou e suas ruas foram despidas da atividade cotidiana que se manteve durante anos de lutas. Os mercados estão vazios, as escolas fechadas, hospitais e orfanatos mudaram-se para os porões. Em vez de despertadores, os moradores são acordados pelos primeiros ataques aéreos do dia.

O Exército sírio aplicou a tática de sítio para colocar as cidades de joelhos e sob o controle do governo – entre elas Homs, o berço e antiga capital da revolução, que os combatentes de oposição abandonaram no ano passado. 

Os cercos permitem que Assad evite enviar um Exército sírio desfalcado e desmoralizado para um combate estreito com as forças de oposição, mais motivadas. Os militares sírios reduziram-se a cerca de um terço da força de antes da guerra e contam com tropas terrestres da Guarda Revolucionária do Irã, do Hezbollah e uma colcha de retalhos de outras milícias regionais. 

d3911f05-593d-4a36-9eba-9f4205dff349.jpg
O poeta Rashwani, sitiado em Alepo (Foto: Hamid Khatib/Reuters/Latinstock)

Assim como a oposição, Assad e seus seguidores estão convencidos de que tomar Alepo efetivamente porá fim à guerra civil, rompendo o moral da oposição e condenando-a a uma existência marginal, como insurgência rural, que não pode mais representar grandes partes da sociedade síria. 

O Estado Islâmico (EI) não tem uma grande presença em Alepo. Grupos de oposição perderam mais de mil homens em 2014, empurrando os jihadistas de volta para uma pequena faixa de território perto da cidade de Manbij, que hoje está sob o ataque conjunto de combatentes curdos apoiados pelos EUA e árabes. Mas muitos dos grupos em luta são fundamentalistas islâmicos e os moderados temem que para este ataque eles tenham se reunido em torno do grupo de Jolani.

Ele reforçou suas finanças e bases de poder enquanto seus rivais se dividiam, e hoje posiciona-se como um ator que renunciou à Jihad internacional para se concentrar em uma causa local. Mas poucos críticos acreditam que a nova marca seja acompanhada de uma mudança ideológica real.

O sucesso em Alepo reforçaria ainda mais na oposição o grupo, rebatizado de Jabhat Fateh al-Sham, mas que ainda é muitas vezes chamado pelo antigo nome, Jabhat al-Nusra.

“Se o regime, os russos e outros apoiadores não tivessem cercado Alepo, poderíamos ter evitado essa coalizão do Nusra com os outros grupos que aderiram à luta”, disse Bassma Kodmani, membro da principal equipe de oposição nas discussões para a paz no Alto Conselho de Negociação. 

“Os mais radicais continuam na luta: essa é a consequência mais alarmante de deixar que Alepo fosse sitiada”, disse ela. “A falta de um compromisso crível da comunidade internacional deixa a oposição a favor de uma ofensiva desferida pelo Nusra, porque essa é a única maneira de ganhar alguma força, pressionar um pouco a Rússia e o regime. E isso é realmente infeliz.” 

Rashwani confirmou que a ajuda em terra em Alepo significa que há pouco interesse por quem está lutando. “Ninguém agora pensa no Nusra ou no Ahrar al-Sham (grupo islamista linha-dura). Estamos vendo um grupo de rebeldes fazendo o máximo para romper esse cerco”, disse ele. “Eu fui uma das pessoas que começaram esta revolução, por isso acredito que um dia teremos nossa vitória, e preciso estar aqui nesse momento.”