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Número 914,

Política

Conselheiro de Temer

Ernesto Lozardo, sempre às ordens

por Renan Truffi publicado 19/08/2016 10h52, última modificação 22/08/2016 11h43
O novo presidente do Ipea pretende usar o órgão para legitimar as ações do governo
Lula Marques/Agência PT
Lozardo

Orgulhoso da 'amizade histórica' com Temer, Lozardo avisa: ou falamos como o governo quer ou então ficamos quietos

Há dois meses, desde que assumiu a presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Ernesto Lozardo tem sido um dos nomes mais requisitados por Michel Temer no Palácio do Planalto. Economista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ele é um dos conselheiros consultados com frequência pelo presidente interino sobre as principais pautas governistas.

Um presidente do Ipea ter essa proximidade com o Palácio é algo novo no órgão. Mas a amizade com o presidente interino é o único atributo que Lozardo conseguiu exibir aos seus subordinados até agora.

Desde sua chegada, o novo presidente tem provocado repercussão negativa. A própria nomeação para o cargo deu-se de maneira conturbada. Com trajetória pessoal e acadêmica praticamente desconhecida pelos servidores e diretores do instituto, ele foi recebido com uma carta de repúdio, elaborada e divulgada pela Associação dos Funcionários do Ipea (Afipea).

As razões foram a entrada repentina de Lozardo no lugar de Manoel Pires, funcionário de carreira do Ipea que tinha acabado de assumir o cargo, e o fato de não ter doutorado, algo considerado estranho a uma instituição de pesquisa.

“Dois méritos costumam ser considerados pelos funcionários para o cargo de presidente do Ipea: mostrar algum tipo de liderança intelectual, e isso até agora ele não mostrou ser capaz de fazer, e ter certo desprendimento pessoal. Trabalhar por iniciativa institucional e não pessoal”, explica um funcionário da Casa. “Muito claramente, ele está como assessor do Temer para viabilizar as propostas do governo. Vai ser alguém que usará a capacidade do instituto em proveito exclusivo do governo." 

A recepção deixou Lozardo retraído. Logo após tomar posse, em vez de convocar os funcionários do órgão e se apresentar, como costumam fazer normalmente os presidentes do Ipea, ele ficou isolado nas primeiras semanas. Aos poucos, começou a convocar reuniões com cada uma das diretorias da instituição, separadamente. Não foram suficientes, porém, para apagar a má impressão inicial.

Segundo funcionários ouvidos por CartaCapital, com a condição de sigilo, Lozardo demonstrou profundo desconhecimento a respeito da instituição. Pareceu não entender que o órgão faz pesquisas aplicadas e assessoramento para o governo e até teceu comentários como se a instituição prestasse consultoria.

Mais ainda, repetiu em ao menos duas oportunidades um recado que ecoou mal pelos corredores. Sutilmente, Lozardo tem afirmado que o órgão tem de dar retaguarda ao governo nos debates técnicos.

Na prática, o novo presidente quer dizer que as pesquisas e estudos desenvolvidos pelo órgão não podem contradizer as políticas e ações do governo interino. “Ou o Ipea fala no mesmo sentido do governo ou então não fala”: é uma das frases atribuídas a ele, em atas de reunião que circulam nos e-mails dos servidores.

Nem o próprio Lozardo chegou a esconder no início o desinteresse pela instituição. Em algumas das primeiras reuniões, ele admitiu aos servidores também que desejava mesmo era o cargo de presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES).

A razão é que Michel, como costuma se referir ao amigo Temer, teve de nomear uma mulher para algum cargo na Esplanada, depois de forte pressão midiática. Os aliados já tinham sido alocados nos principais ministérios e Lozardo perdeu o BNDES para Maria Silvia Bastos Marques.

A preferência do economista pelo BNDES se dá porque, na gestão da presidenta Dilma Rousseff, Lozardo ganhou o cargo de assessor especial da presidência do banco, na época sob o comando de Luciano Coutinho.

O nome de Lozardo foi justamente uma indicação do então vice-presidente. Nem por isso aproximou-se dos petistas. Pelo contrário, das ações do governo o economista só defendeu o ajuste fiscal de Joaquim Levy.

O fato é que, já há algum tempo, Lozardo goza de prestígio junto ao presidente interino. Sua cerimônia de posse foi realizada no Palácio do Planalto e não no Ipea, algo incomum para o cargo. Desde então, ele é figura carimbada em eventos comandados por Temer.

O discurso também está alinhado. Os textos de Lozardo como colunista em órgãos da imprensa mostram que as convicções do conselheiro do presidente estão em sintonia com as propostas do Palácio do Planalto. “O governo de Michel Temer tem a chance de mudar o vício dos agentes econômicos dependentes de recursos públicos. Espera-se construir uma economia de mercado e não uma economia de Estado”, escreveu pouco antes de ser convidado para assumir o cargo. “O atraso econômico e social brasileiro muito se deve à arrogância do poder do Estado, que negligencia a inteligência do mercado.”

O novo presidente do Ipea também é uma das vozes a favor da flexibilização da Consolidação das Leis do Trabalho. Ainda antes de ser nomeado, defendeu, em entrevista, que as negociações entre empresários e trabalhadores deveriam se sobrepor à legislação trabalhista.

Frases lapidares: “Hoje, o empresário é obrigado a reajustar salários pela inflação. Se o negócio entra em crise, a empresa não vê saída, senão demitir. A hora que a negociação entre empresas e sindicatos é ampliada, o empresário enfrenta melhor a crise e assegura o emprego”.

E é com essas ideias que Lozardo comanda no Ipea a elaboração de um plano nacional de desenvolvimento, cuja meta é dobrar a renda per capita da população brasileira em 20 anos. Meta ambiciosa, a gerar desconfiança de técnicos do órgão.

Comenta um deles: “Como eles pretendem fazer isso se o projeto leva em conta privatização, desregulamentação do mercado de trabalho, reforma da Previdência, desmonte do Estado? Não me parece que exista na história internacional nenhuma experiência exitosa nesse sentido”. 

Procurado, Lozardo lamentou por meio de nota que “comentários feitos em ambiente privado tenham sido usados fora de contexto, o que resultou em uma interpretação equivocada dos fatos”. O economista ainda disse que tem muita honra da “amizade histórica”, construída com Temer. Concluiu que sua missão à frente da instituição é “tornar o País sustentável e com menos desigualdade”. Pelos sacrifícios impostos ao trabalho, tudo indica.

*Reportagem publicada originalmente na edição 914 de CartaCapital, com o título "Sempre às ordens". Assine CartaCapital.

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