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Número 913,

Internacional

EUA

Trump surtou de vez

por Eduardo Graça — publicado 08/08/2016 04h53
Descontrolado, acuado pelas pesquisas, Trump perde apoio entre os republicanos e irrita os militares com uma gafe sinistra
Trump

Os pais do capitão Khan, no palanque democrata, cutucaram a islamofobia de Trump

*De Nova York

Caos na campanha, família e políticos articulando uma intervenção, assessores e voluntários reclamando de um candidato incapaz de ouvir conselheiros e um articulista experiente perguntando em sua coluna no Washington Post: “Donald Trump sofre de alguma doença mental?” A série de deslizes cometidos nos últimos dias pelo bilionário nova-iorquino ameaça jogar sua candidatura à Casa Branca no limbo em tempo recorde.

A confusão começou com um inexplicável confronto público de Trump com os pais de um oficial americano de origem paquistanesa, morto durante a ocupação do Iraque em 2004 (o casal aparecera na convenção democrata que consagrou Hillary Clinton).

Seguiu com o pedido, de forma brusca, em uma estranha sequência de falas em um comício, para que um bebê aos prantos fosse retirado do recinto. Piorou com o anúncio de que não apoiaria a reeleição do equivalente a presidente da Câmara, Paul Ryan, maior estrela republicana e pedra no sapato de Trump durante as primárias.

Para culminar, o candidato falastrão deixou conservadores e militares contrariados de vez ao criticar o senador John McCain, candidato republicano à Presidência em 2008 e prisioneiro na Guerra do Vietnã. O bilionário disse “apreciar vencedores” e “não ter visto uma única ajuda de McCain aos veteranos de guerra em suas décadas de atuação política”.

“Está difícil saber se isso é uma campanha ou um circo”, resumiu David Gergen, professor de Harvard e ex-conselheiro dos presidentes Nixon, Ford, Reagan e Clinton. “Em quatro décadas de militância política nos EUA, nunca vi cinco dias tão desastrosos para um candidato à Presidência”, resume o mago das campanhas políticas nos EUA, David Axelrod, que comandou a revolucionária candidatura de Barack Obama em 2008.

O New York Times aproveitou a polêmica para publicar extensa reportagem mostrando como Trump conseguiu burlar o alistamento para não arriscar sua vida no Sudeste Asiático – onde McCain, ao contrário, lutou e sofreu. 

A metralhadora giratória de Trump se voltou contra ele próprio até mesmo em seu quintal. Nomes de peso do Partido Republicano ou de índole conservadora estão agora com Hillary – como já tinha acontecido com o ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg.

McCain
O ex-prisioneiro McCain ganhou de Trump uma ofensa: é um perdedor (Foto: Timothy Clary/Fotoarena)

Enquanto Trump afirmava, em um comício na Flórida na quarta 3, que “nossa campanha e partido nunca estiveram tão unidos”, Meg Whitman, ex-candidata republicana a governadora da Califórnia e executiva da Hewlett-Packard, anunciava publicamente seu apoio a Hillary, classificando a alternativa como “um perigoso demagogo”.

Foi imediatamente seguida por dois deputados republicanos. Richard Hanna, de Nova York, foi sucinto: “Não é mais possível apenas denunciar as ideias dele. As primárias acabaram. Votarei em Hillary porque Trump não tem as mínimas condições de liderar nosso país e precisamos impedir sua vitória”.

O tributo ao capitão Humayun Khan prestado por seus pais na convenção democrata tiraram Trump do sério. O pai, Khizr, criticou a xenofobia do republicano e disse que, “ao contrário de nosso filho, Trump jamais se sacrificou pelos Estados Unidos”.

Trump replicou em desastrosas entrevistas. Observou que o fato de a mãe de Khan não ter falado, apenas assistido, representa “a opressão a mulheres” na cultura islâmica. Ghazala Khan, identificando-se como cidadã americana, publicou uma dura resposta na página de Opinião do Washington Post.

Trump fez troça – como gostam de ouvir seus seguidores – e botou em dúvida a bravura do capitão morto em combate. “Um homem incapaz de se emocionar com a dor de uma mãe que perdeu seu filho na guerra”, concluiu o veterano Eugene Robinson, do Post, é sintoma de “uma pessoa com doença mental séria”.

Por ironia, quem estava ameaçada de ter uma semana complicada era Hillary Clinton. Uma reportagem publicada pelo Wall Street Journal denunciava o envio de 400 milhões de dólares para Teerã a fim de os Estados Unidos assegurarem o retorno de americanos presos no país durante o acordo nuclear assinado pelo governo Obama (a Casa Branca diz que a dívida vem dos tempos do governo do xá Reza Pahlevi e atravessou os governos Ford, Carter, Reagan, os Bush I e II e Clinton e que se trata apenas de uma “coincidência”).

Hillary já estava fora da Secretaria de Estado, mas Trump não hesitou em dizer que “o dinheiro para o Irã prova que Hillary é uma das fundadoras honorárias do Estado Islâmico”.

Meg Whitman
Meg Whitman aderiu a Hillary e levou outros com ela (Foto: Marcel Metteettelsiefen/Fotoarena)

O presidente Obama entrou na briga, dizendo que os eventos desta semana deixam claro que “Trump não tem condições de ser presidente”. Sugeriu que “os republicanos deveriam parar de recriminar o candidato por eles ungido por conta de suas atitudes inaceitáveis e ter a coragem de anunciar publicamente o rompimento com ele”.

O historiador Douglas Brinkley lembra que a última vez em que um presidente se manifestou desta forma em relação ao candidato da oposição foi no longínquo 1952, com Harry Truman criticando a falta de experiência política de Dwight Eisenhower. E, mesmo assim, os termos foram bem menos graves.

Resultado de todo o patético espetáculo by Donald Trump: pela primeira vez nesta corrida presidencial as pesquisas passaram a indicar uma vantagem de dois dígitos para a democrata (10%) tanto na disputa nacional (10%) quanto em estados-chave para a vitória em novembro (por exemplo, 15% de vantagem em New Hampshire,12% na Pensilvânia e 6% na fundamental Flórida).

*Reportagem publicada originalmente na edição 913 de CartaCapital, com o título "Ele surtou de vez". Assine CartaCapital.

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