Você está aqui: Página Inicial / Revista / Farra Olímpica / Smartphone, o banco portátil
Número 913,

Economia

Tecnologia

Smartphone, o banco portátil

por Vanderlei Campos — publicado 15/08/2016 04h10
Com transações mais rápidas, baratas e seguras, ele tornou-se o novo centro da vida financeira
Istock Photo
Smartphones

O cartão de crédito digital é emitido em minutos e o de plástico exige mais de uma semana

A ida a uma agência bancária, hábito há anos em declínio por causa do avanço das transações pela internet, será ainda menos necessária com a proliferação de aplicativos financeiros para smartphones. Desenvolvidos por pequenas empresas de tecnologia denominadas fintechs, aqueles softwares permitem realizar uma variedade crescente de operações típicas de bancos por meio de celulares conectados à internet.

A partir deste mês, os usuários dos modelos mais sofisticados podem incorporar cartões virtuais dos principais estabelecimentos de crédito e bandeiras. O pagamento é simples, basta colocar o aparelho próximo do terminal de ponto de venda e a confirmação acontece através da leitura da impressão digital. Além de substituir o modelo tradicional de plástico, o instrumento abre caminho para outras facilidades. A opção de inclusão automática do CPF nos pagamentos, por exemplo, poupa segundos preciosos. 

A inovação possibilitou uma mudança radical inclusive no esforço necessário à obtenção de um cartão de crédito. Antes, o cliente ia até uma agência, aguardava para ser atendido por um gerente, assinava um extenso contrato e esperava em casa uma semana, no mínimo, pela entrega física do meio de pagamento.

Agora precisa só de alguns minutos. Basta baixar no smartphone o aplicativo desejado e em seguida surge na tela uma réplica digital da versão de plástico, acrescida de informações sobre o total gasto até aquele momento, a quantia remanescente, a melhor data de compra e o limite de gastos. A possibilidade de consultar a fatura a qualquer momento, em tempo real, é outra vantagem em relação ao modelo convencional. 

A versão virtual é boa também para os comerciantes. Nas seis lojas da rede de supermercados Kawakami, em Marília, no centro-oeste paulista, vários consumidores já substituíram seus cartões de benefícios, crédito e débito pelo celular. Por meio do serviço da Tá Pago, uma fintech regional, o cliente informa o CPF e recebe uma senha por SMS, única para cada transação. “Reduzimos os problemas de estorno, não pegamos em nenhum momento os dados do cartão e ganhamos um canal com o consumidor”, diz Alessandro Marquete, gerente-administrativo.

A taxa é 1 ponto porcentual inferior à das operações convencionais.  Através do aplicativo ou pela web, varejistas e clientes obtêm extratos em tempo real. A Tá Pago desenvolve ainda parcerias com os fornecedores de sistemas de automação comercial para a comunicação direta entre os dados do terminal de caixa e o software de gestão financeira, sem entrada manual das informações. É ainda uma alternativa de atendimento aos consumidores sem contas bancárias.

“Banco foi feito para o celular”, define Guga Stocco, líder de inovação e estratégia do Banco Original. “Os demais canais, inclusive o internet banking, foram concebidos no tempo em que telefonávamos a um ponto em busca de um táxi. Hoje, um dispositivo com câmera, geolocalização, biometria e outros recursos é perfeito para moldar os processos à melhor experiência possível do cliente”, diz.

Sem os custos de infraestrutura de agências e a partir de uma estratégia de automação afinada às demandas da nova geração de usuários, startups como a Nubank e, mais recentemente, o Banco Neon colocam em xeque o modelo de serviços tradicional. “Eficiência e produtos mais competitivos, para quem vai usar o serviço, são fundamentais”, destaca Bruno Diniz, do Next Bank.

Por trás dos aplicativos que virtualizam o atendimento e automatizam os pagamentos, poderosos sistemas de análise de documentos, cruzamento de dados, geolocalização e outras informações “contextualizam” as transações e tornam o sistema mais resistente a fraudes.

Surgida em outro arranjo regional, a carteira virtual da PicPay foi desenvolvida pensando no pagamento “sem fricção” em restaurantes. Basta apontar para o QR Code no cardápio, confirmar o valor e o sistema identifica o estabelecimento e transfere o valor. O aplicativo permite também transferir recursos de um celular para outro.

No último trimestre, o Banco Original tornou-se sócio da empresa e trabalha na integração com a conta corrente, o que permitiria uma automação das recargas e até liberação de “dinheiro” conforme os limites de crédito pré-aprovados. Não se trata de embarcar o cartão de débito no celular. Na prática, quando se realizam transações entre consumidores e estabelecimentos do PicPay, não há bandeira ou adquirente envolvidos. Alinhado à tendência de “banco como plataforma”, a estratégia das instituições financeiras é tornar o serviço integrável entre elas.

Kawakami_sul_02_1.jpg
Vários clientes dos supermercados Kawami, de Marília, trocaram os seus cartões de crédito, benefícios e débito pelo celular. ( Baptistão)

Os empreendedores das fintechs quase sempre são experientes em finanças ou varejo, conhecem as ineficiências, as sutilezas regulatórias, têm melhor acesso às fontes de capital e fazem inovações inviáveis dentro das pesadas estruturas das organizações. “Quando tomamos como referência os efeitos da transformação digital em outras indústrias, estima-se uma transferência entre 15% e 30% da receita com serviços financeiros para entrantes. Nos Estados Unidos, 1% desse faturamento já é das fintechs”, calcula Fernando Freitas, gerente de inovação do Bradesco.

Algumas fintechs avançam no território das atividades de negociação, onde os contatos presenciais entre devedores e credores sempre foram considerados fundamentais. É o caso da Quero Quitar, criada por Marc Lahoud, seu atual CEO e ex-proprietário de uma empresa de varejo durante 26 anos, Alencastro Silva, experiente em centrais de cobrança, Rafael Miranda, da área de TI, e o psicólogo Artur Zular.

Eles desenvolveram um aplicativo de negociação em que o devedor recebe por e-mail e SMS as regras definidas pelo credor e pode fazer propostas. O uso do software e a ação de operadores hábeis resultam em redução drástica de custo e a impessoalidade melhora ainda mais os resultados. “Criamos um ambiente neutro, em que não se menciona ‘negativação’ e o usuário se sente no controle”, diz Lahoud.

Hoje, a Quero Quitar atua dentro da Wayra, aceleradora do Grupo Telefônica, e desde o fim de 2015, a partir de uma seleção da InovaBra, braço do Bradesco para startups, tem um contrato também com o banco. “Em uma fintech, a ideia normalmente é construída a partir de capital próprio, o ‘investidor anjo’ sustenta o processo de crescimento e o fundo de investimento dá escala comercial e de operações”, descreve. O investidor anjo é quem põe seu capital em empresas nascentes de elevado potencial de crescimento, como as startups.

Do lado da concessão do crédito, Marcos Ramos, CEO da Easy Crédito, destaca a diminuição dos custos de varejistas, instituições financeiras e consumidores. Não menos importante, há uma significativa queda dos riscos de atrito entre as partes.

O aplicativo automatiza as políticas de concessão de financiamento de 16 estabelecimentos, para que os 10 mil consumidores cadastrados possam conferir e comparar as condições antes mesmo de negociar qualquer compra. O economista trabalhou desde os 18 anos em bancos, Santander e HSBC incluídos, e aos 28 anos iniciou atividades como consultor de crédito.

Ameaça e oportunidade à indústria bancária tradicional, os mesmos modelos que implicam desintermediação cumprem o que não se conseguiu em décadas de promoção da inclusão financeira. Há uma abundância de exemplos. Os clientes do PagSeguro fazem transferências ponto a ponto dos saldos de suas carteiras.

Um taxista pode pagar o almoço com o que recebeu por uma corrida. É possível também carregar em um cartão de bandeira tradicional. Mesmo sem uma conta em banco, os usuários da empresa agregam receita para pequenos e grandes varejistas, a taxas de 2,5% a 4% do valor consumido. Por todas essas vantagens, o portador de um smartphone dificilmente ficará fora do banco de bolso. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 913 de CartaCapital, com o título "O banco portátil". Assine CartaCapital.