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Número 913,

Economia

Opinião

O capitalismo e seus conformados

por Delfim Netto publicado 11/08/2016 04h33
O fundamental, neste momento, não é o regime eleitoral, mas encurtar o prazo das incertezas para acelerar a retomada
Capitalismo

Os “inconformados” sugerem “curtos-circuitos” para o socialismo “ideal”

economia deve acolher os vários mundos potencialmente possíveis, produtos de “visões” humanas diferentes. Não se restringe apenas à análise objetiva que tende a tomar o “mundo” como este lhe parece. Isso dá origem a pelo menos duas aproximações do problema.

De um lado, os “conformistas”, que tomam o mundo como é, apesar de achá-lo injusto. Recomendam uma política econômica (o exercício “prático” do conhecimento “teórico”) para administrá-lo melhor, confiando que o respeito às restrições físicas e o empoderamento da sociedade, através do sufrágio universal, é o caminho mais eficaz para uma sociedade civilizada.

De outro, os “inconformados”, que acham inútil tentar consertar uma organização essencialmente injusta. Sugerem “curtos-circuitos” para o socialismo “ideal”. Ignoram que as tentativas de instalar o socialismo “ideal”, quando adquiriu concretude no socialismo “real”, revelou-se um dos desastres que marcarão o século XX.

Levou à completa aniquilação da liberdade individual, construiu “castas” (o partido portador da “verdade” e a canalha que não a vê) e terminou na mais completa ineficiência produtiva, pela centralização das decisões econômicas sem um mecanismo aceitável e funcional para coordenar as atividades que proporcionam a sobrevivência material da sociedade.

Os “conformados” dividem-se, basicamente, em duas “escolas”, os ortodoxos e os heterodoxos. Uma divisão de conveniência e não estável. Há uma tendência da ortodoxia de, a pouco e pouco, depois do controle empírico incontornável, ir absorvendo o que sobrou das novidades heterodoxas e incorporá-las. É grave imprudência, portanto, desconsiderar as visões alternativas que sempre se apresentam.

Da mesma forma que a esquerda inteligente num ambiente de genuíno sufrágio universal foi, e é, um poderoso instrumento de domesticação do “capitalismo”, uma heterodoxia diligente, que põe à prova, com novos argumentos e pesquisa empírica, as “verdades” da ortodoxia, é o caminho do seu aperfeiçoamento.

A ortodoxia deve mesmo ser o reservatório das “verdades” ainda não rejeitadas. Isso nada tem de estranho. É apenas a marcha natural do conhecimento: o permanente desafio à “verdade” estabelecida, submetendo-a, continuadamente, às novas interpretações e às novas evidências.

Mas é preciso dizer com firmeza que, a despeito de todas as dificuldades, existe um sólido patrimônio de conhecimentos organizado e materialmente útil, acumulado na disciplina Economia, para promover o desenvolvimento social e econômico de uma sociedade que tenha como objetivos fundamentais:

1. Ampliar a autonomia da liberdade individual.

2. Mitigar as desigualdades de oportunidades.

3. Para atendê-las, utilizar um Estado forte, constitucionalmente controlado e capaz de garantir a coordenação das atividades econômicas através de mercados bem regulados. 

Certamente, isso não é a “civilização”, mas este é o ponto. A história dos últimos dois séculos e meio revela que os países que se mostraram capazes de instituir o sufrágio universal que empodera o cidadão comum e tiveram a inteligência de instituir uma política econômica que incorpora os ensinamentos acumulados pela economia, progrediram e avançaram no nível de renda, na inclusão social, no aumento da igualdade de oportunidades.

Não são muito mais do que duas dezenas, todos eles democracias desde a Segunda Guerra Mundial e com uma relação respeitosa entre o Estado e o setor privado. Com exceção dos Estados Unidos, que têm um bipartidarismo consolidado, possuem uma espécie de parlamentarismo em que o regime eleitoral garante uma maioria estável para dar segurança à administração e oferece mecanismos que garantem a solução, sem movimentos dramáticos, para a perda de protagonismo do governo. O bom seria simplesmente imitá-los.

No Brasil, hoje há uns primeiros sinais de que o governo está recuperando o seu protagonismo e talvez estejamos nos aproximando de uma mudança de expectativas. O fundamental, neste momento, não é o regime eleitoral, mas encurtar o prazo das incertezas para acelerar a retomada. 

*Publicada originalmente na edição 913 de CartaCapital, com o título "É preciso resolver". Assine CartaCapital.