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Número 913,

Política

Entrevista - Laerte Coutinho

"Nunca tive dúvidas de que tramavam um golpe"

por Mino Carta e Rodrigo Martins — publicado 05/08/2016 12h27, última modificação 05/08/2016 19h27
No programa Jogo de Carta, a cartunista explica por que grita golpe
Reprodução
Laerte

"A direta assumiu uma cara assustadora, porque baba, odeia, é capaz de agressões inomináveis", diz Laerte

Criadora de memoráveis histórias em quadrinhos, como Piratas do Tietê e Overman, Laerte Coutinho há tempos destaca-se pela precisão de suas charges políticas. Mais recentemente, tem denunciado, com afiado humor, as falácias do processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Publicadas pelo jornal Folha de S.Paulo, algumas dessas charges foram cedidas ao livro Por Que Gritamos Golpe?, coletânea de artigos lançada pela Editora Boitempo em julho.

Em descontraída entrevista ao programa Jogo de Carta, transmitido ao vivo pelo site de CartaCapital e pelo Facebook na terça-feira 2, a cartunista expôs a sua visão sobre a trama. E explicou por que aceitou o convite para conduzir a tocha olímpica pelas ruas da capital paulista. A íntegra, em vídeo, está disponível.

Jogo de Carta: Por que você grita “golpe”?

Laerte Coutinho: Nunca tive dúvidas de que tramavam um golpe. Apesar de essa turma se fornir de todo tipo de conforto legalista, as regras foram sempre evocadas, tínhamos acabado de ver o que aconteceu com Fernando Lugo no Paraguai, o que ocorreu em Honduras. É um tipo de golpe moderno que vem se disseminando. No Brasil, não foi nada diferente. Basta ter maioria no Congresso para fazer qualquer coisa.

JC: Então a democracia foi mandada às favas?

LC: Foi mandada às favas e precisa ser reinventada. O status democrático que existia está destruído. Precisamos enfrentar uma discussão séria sobre o nosso modelo de representação política e partidária, de eleição. Todo esse arranjo precisa ser revisto, senão os golpes vão se suceder.

JC: Nos últimos tempos, os reacionários parecem ter saído do armário, com forte discurso de intolerância, inclusive contra as minorias.

LC: Apesar de ocupar os espaços ideológicos, a direita não tinha muito como crescer eleitoralmente a não ser pelo lado moral. Foi a época em que os fundamentalistas religiosos e os conservadores cresceram e fizeram essa direita ganhar uma cara assustadora, porque baba, odeia, é capaz de agressões inomináveis. Por um lado, esse pessoal se sente confortável com o governo golpista que está aí. Por outro, precisa ter densidade representativa e visibilidade para enfrentar um movimento libertário que também se faz visível, na luta LGBT, antirracista e feminista.

JC: Arrisca um palpite sobre o julgamento do impeachment?

LC: Acho que o Senado vai aprovar.

JC: E qual seria a charge do dia seguinte?

LC: Para mim sempre foi uma dificuldade muito grande fazer charge, porque parece que sou responsável por jogar luz a determinada situação. Sempre me achei muito pouco iluminada. Comecei a fazer cartoon na época da ditadura. Ali, era tudo muito simples. Havia o governo, os milicos, os empresários, que eram a favor do regime, e todo o resto do pessoal, com muitas nuances, que integrava o campo democrático. Algum tempo depois, no governo Geisel (1974-1979), esse campo se partiu em mil pedaços, o que deixou a coisa mais complicada. Mais ou menos nessa época, parei com as charges políticas e comecei a fazer quadrinhos, narrativas gráficas ficcionais, de outra natureza.

JC: O que mudou?

LC: Acabou a simplicidade, o maniqueísmo, a divisão do mundo entre mocinhos e bandidos. Muita gente abandonou a charge política e migrou para os quadrinhos, para outras narrativas. Não como um movimento de fuga, mas para ocupar novos espaços. Enfim... Fazer charge sempre me pareceu uma tarefa muito acima das minhas forças.

JC: Mas e a charge pós-votação do impeachment, qual será?

LC: Estou falando tudo isso aqui, enchendo linguiça, para ganhar tempo (risos). Não sei, francamente não sei. Trabalho muito com o improviso. Meu pensamento ideológico é mais um espaço a ser ocupado no meu cérebro do que uma estrutura sólida e rígida.

Charge
Charge da cartunista Laerte

JC: Uma charge bastante criativa e oportuna é aquela do ciclista que se equilibra sobre a palavra golpe. Como surgiu a ideia?

LC: Esse é um tipo de achado meio fortuito. Primeiro, pensei na palavra golpe como uma espécie de veículo, algo que pudesse ser montado. Então imaginei que esse veículo pudesse ser algo de uso individual, artesanal, como é a bicicleta. Essa cena evoca não apenas uma pedalada, mas também certo malabarismo, porque ele está com as mãos livres. Sabe aquela velha piada do ciclista? “Olha, sem as mãos.” Logo depois: “Olha, sem os dentes”. Na minha versão, virou: “Olha, mãe, sem os militares”. Achei boa a associação, embora prefira não escrever nas minhas charges.

JC: Você conduziu a tocha olímpica em São Paulo. Cá entre nós, não deu vontade de apagar aquela chama?

LC: Deu (risos). Depois que topei, não deu mais. Agora, no início, fiquei em dúvida: “Será que eu entro nessa?” Na verdade, eu concordo com o que o escritor Antonio Prata escreveu em sua coluna na Folha. Ele também foi convidado, estava ressabiado, e o pai dele, Mário Prata, telefonou. “Por que você está em dúvida? Essa tocha não é do governo, do Eduardo Paes, do Temer... Essa tocha é de Zeus” (risos). Eu pensei na quantidade de atletas que vão representar o Brasil. A minha irmã também é atleta, empenhadíssima. Faz levantamento de peso, é fortíssima, tem marcas mundiais. Marília Coutinho é o nome dela.

JC: Não deixa de ser uma forma de representar as pessoas transgênero.

LC: Sim. E tem uma coisa muito interessante. Pela primeira vez, o Comitê Olímpico Internacional estabeleceu normas para a participação de atletas transgênero nas Olimpíadas, o que é uma coisa muito delicada. A pessoa que transiciona de um gênero para outro precisa lidar com os níveis de testosterona no corpo, o que pode conferir um desempenho nos esportes desproporcional. Então o COI estabeleceu alguns critérios em relação a isso, mas entende que a transgeneridade é algo humano. Passou a aceitar e acolher os atletas transgêneros como aptos a participar das Olimpíadas.

 

*Reportagem publicada originalmente na edição 913 de CartaCapital, com o título "O luminoso traço da resistência". Assine CartaCapital.