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Número 913,

Sociedade

Riqueza

Em livro, o perfil dos bilionários brasileiros

por Marsílea Gombata publicado 12/08/2016 12h11
O que eles têm de diferente, a fortuna que uns tentam ocultar e outros querem exibir
iStockphoto
Brazilionários

No Brasil, muitas fortunas surgem da promiscuidade com o governo e com a corrupção

Eike Batista, que desceu do céu ao inferno em questão de anos no pódio dos homens mais ricos do País, reflete uma tensão latente no Brasil: a imagem de self-made man que ele buscou difundir, o empresário criativo e ousado que se faz por si, na verdade contrasta com o contexto que lhe permitiu acumular tamanha fortuna, regado a figuras influentes e relações privilegiadas com o governo.

“Personagens como ele querem sempre vender a ideia de que a riqueza é fruto de seu esforço exclusivamente, e as pessoas acreditam muito nisso”, observa Alex Cuadros, autor de Brazilionaires – Wealth, power, decadence, and hope in an american country, lançado recentemente pela nova-iorquina Spiegel & Grau. 

Ao falar sobre o processo de construção do livro no qual devassa a trajetória de nossos bilionários – muitos deles nem sequer autodeclarados –, o autor americano lembra, por exemplo, que a biografia de Eike, O X da Questão: A trajetória do maior empreendedor do Brasil, fez mais sucesso entre aqueles que aspiravam à riqueza do que entre a própria elite. “As pessoas querem acreditar que existe uma fórmula mágica para se chegar a esse patamar, que é algo que pode ser ensinado e aprendido.”

Cuadros, que viveu seis anos em São Paulo, integrava o time de repórteres que cobriam os bilionários da América Latina quando percebeu que tinha em mãos um material muito rico para manter restrito a entrevistas e reportagens publicadas pela Bloomberg. Queria mergulhar e entender como funciona o poder no Brasil e quais as ideias nacionais sobre riqueza e progresso. Além disso, o livro era a chance de cobrir a vida dos figurões sob uma ótica menos business, em uma linha que fosse capaz de falar das relações obscuras dos empresários com o governo, que muitas vezes envolvem corrupção, coisa que todos, em alguma medida, negam. 

“O próprio Eike era uma figura de grandes contradições”, afirma Cuadros. “Dizia representar um novo tipo de empreendedorismo, que não dependia de favores do Estado. Ao mesmo tempo, era filho de um ex-ministro e ex-presidente da Vale, conseguiu benefícios nos contratos com o governo e empréstimos do BNDES. Queria ocupar a versão idealizada do que o empresário deveria ser no Brasil, mas reforçava a estrutura de vínculos entre família, dinheiro e Estado.” O pai, Eliezer Batista, foi viabilizador de projetos megalomaníacos como Carajás – megaprojeto de exploração mineral da Vale por uma área que incluía Pará, Tocantins e Maranhão – e detentor de um verdadeiro mapa da mina, mais tarde regalado ao filho.

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Eike caiu de 20 bilhões de dólares para -1 bi. Blairo Maggi é o time dos meteóricos. O patrimônio que Roberto Marinho deixou é três vezes maior. A riqueza de Maluf é uma obra após a outra (Fotos: Paulo Fridman, Sérgio Lima/FolhaPress, Otavio Magalhaes/Estadão Conteúdo e Ed Ferreira/Estadão Conteúdo)

Apesar de ser dono de uma realidade muito distinta de países rentistas como Rússia e Noruega, ou mesmo de palcos de transnacionais e startups como os Estados Unidos, o Brasil também é um terreno fértil para bilionários. Ainda que o status não seja bradado em alto e bom som, o livro mostra como o País assistiu ao longo de décadas ascensões vertiginosas de nomes como Paulo Maluf, Edir Macedo, Sebastião Camargo e Jorge Paulo Lemann, este presente em círculos de influência internacionais, como a Universidade Harvard, onde o empresário suíço-brasileiro estudou economia. 

Com o faro jornalístico que funcionou como mola propulsora para a realização do livro, Cuadros reconstrói trajetórias desses e de outros magnatas que já são parte do imaginário brasileiro, como Marcelo Odebrecht, Roberto Marinho, Abilio Diniz e Blairo Maggi. 

Mas como descobrir e provar que um magnata é dono de uma fortuna bilionária, já que, se há os que querem exibi-la, existem os que buscam ocultá-la? O know-how que trouxe da Bloomberg permitiu a Cuadros aplicar um método do qual os ricaços não conseguem escapar: a soma do valor das ações na Bolsa com estimativas dos ativos em outros mercados. 

Uma das grandes surpresas ao aplicar esse método foi a fortuna do próprio dono da Globo: eram 25 bilhões de dólares, segundo a lista da Bloomberg, três vezes mais do que apontava o famoso ranking da Forbes. “É uma quantia muito grande de dinheiro, que reflete o poder da família no Brasil”, disse sobre Roberto Marinho, a figura mais próxima de um Cidadão Kane brasileiro. Os filhos herdaram dele a fortuna – e a ansiedade de preservá-la a qualquer custo.

Brazilionaires começa com uma cena simbólica: a de Thor, filho de Eike e da capa da Playbloy Luma de Oliveira, atropelando Wanderson da Silva na via Rio-Petrópolis. O choque que tirou a vida de Wanderson era o ápice de uma série de irregularidades cometidas antes por Thor, que conseguia contorná-las de maneira indolor. “Repórteres descobriram que Thor havia acumulado 11 infrações de trânsito nos últimos 18 meses, a maioria por excesso de velocidade, e o suficiente para que sua licença fosse suspensa, se não fosse a lenta burocracia do Brasil. Ainda mais comprometedor, descobriu-se que Thor também havia atropelado com seu Audi um ciclista de 86 anos de idade em uma rua no Rio no ano anterior, quebrando seu quadril. Eike havia pago as despesas médicas, mas a família manteve segredo até então.”

O livro, que fala sobre bilionários, mas também sobre “como a riqueza é acumulada no mundo moderno e as histórias que contamos a nós mesmos para explicar esse processo”, é dividido em duas partes. A primeira, “Raízes da Riqueza”, traz um panorama sobre como os bilionários ficam ricos, se mantêm ricos e como eles moldam a realidade do País. A segunda parte fala sobre “O Sonho Brasileiro” (em alusão ao American Dream) e tem como linha narrativa a ascensão épica e queda de Eike, assim como os sonhos de prosperidade que foram sofrendo modificações paralelamente no Brasil. 

Personagem preferido do autor, Eike começa brilhando no livro ao ostentar 30 bilhões de dólares, em uma época em que detém o controle de empresas como MMX Mineração, LLX Logística, MPX Energia, OGX Petróleo e OSX Brasil, em um grupo batizado de EBX (combinação de suas iniciais com o indispensável “X”, que daria o toque de multiplicação para suas riquezas). 

Depois do embalo pelo momento próspero do País, quando a Petrobras produzia mais do que toda a Noruega, Eike passa então para 20 bilhões e daí ladeira abaixo. Sua queda reflete um cenário macroeconômico e geopolítico no qual o Brasil perde a China faminta por commodities como soja e ferro, e o FMI estima uma contração da economia de 8% entre 2015 e 2017. Sua fortuna passa a 13 bilhões, depois para 200 milhões, até entrar no vermelho e configurar um saldo devedor de 1 bilhão. 

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Abilio Diniz, dono de 4 bilhões, cunhou o jargão: "Eu sigo as regras que criei para mim". Edir Macedo diz ser "o mais rico do planeta na fé de Senhor Jesus" (Fotos: Paulo Fridman, Sérgio Lima/FolhaPress, Otavio Magalhães/Estadão Conteúdo, Ed Ferreira/Estadão Conteúdo e iStockPhoto)

O próprio status da fortuna de cada bilionário trazido no livro é um item decorativo que abre os capítulos, juntamente com uma frase embebida em bom humor. No caso do bispo Edir Macedo, a citação escolhida para ornar com seu 1,2 bilhão de dólares foi: “Do ponto de vista da fé no Senhor Jesus, sou o homem mais rico do planeta”. Abilio Diniz, por sua vez, foi pintado com 4 bilhões e o jargão: “Eu sigo as regras que construí para mim”. 

Seguem abrindo capítulos – e explicando a realidade brasileira – Sebastião Camargo (Camargo Corrêa) com 13 bilhões, Jorge Paulo Lemann com seus 20 bilhões e Paulo Maluf, dono de 1 bilhão de dólares e da frase “Ninguém anda 1 quilômetro em São Paulo sem passar por um dos meus projetos”, que rendeu notoriedade ao ex-governador e ex-prefeito de São Paulo, cujo passado é marcado por profundos laços com a ditadura civil-militar. 

“No Brasil, você vê muito mais fortunas construídas graças à relação com o governo ou por corrupção, e isso se deve um pouco ao peso do Estado na economia brasileira, que dá mais oportunidade para isso ocorrer”, explica Cuadros. “Esse mecanismo de usar o poder econômico para influenciar a política, no entanto, estende-se a outros países como os Estados Unidos. Do mesmo jeito que as empreiteiras financiam os dois lados do espectro ideológico, Wall Street passou a financiar tanto democratas quanto republicanos, e pressiona por aprovar legislações que beneficiem tais instituições.” 

Como observa no livro, a troca de “favores” é mútua. Aqui, em 2009, o BNDES sozinho concedeu 76 bilhões de dólares em empréstimos, “mais do que o Banco Mundial emprestou em todo o mundo”. Um dos resultados do que poderia se chamar de “bolsa empresariado” foi a criação da JBS, que abriu mão de 180 milhões para financiamento de campanhas eleitorais em 2014. “Se todos os políticos que receberam dinheiro da JBS formassem um partido, ele seria o maior do Congresso”, pontua em Brazilionaires. Para o autor, esse é o ponto: a relação entre o dinheiro privado e o poder público no Brasil é mais intensa do que em quase todos os demais países.

Um dos alvos da Lava Jato, a Odebrecht é posta no livro como um dos diversos players desse sistema. Depois de configurar dentre os grandes financiadores de campanha, por exemplo, não surpreende que na “república das empreiteiras” ela seja parte do consórcio que construiu a faraônica Belo Monte, na Amazônia paraense, ao lado da Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão e Galvão Engenharia.

Brazillionaires - Wealth, Power, Decadence, and Hope in an American Country. Alex Cuadros. Spiegel & Grau, 368 págs., US$ 28,00

Por trás da terceira maior usina hidrelétrica do mundo repousa o espírito neodesenvolvimentista do empresariado brasileiro, que Cuadros investiga no capítulo 3, intitulado “Destino Manifesto” – em alusão à expansão dos EUA para o Oeste no século XIX. No Brasil, esse espírito é representado pelo zelo por suas “vantagens comparativas”, ou seja, a exploração em prol de commodities e energia.

Afinal, enquanto o ruralista Blairo Maggi (dono de 1,8 bilhão) dizia “as pessoas que me criticam são antidesenvolvimento”, Marcelo Odebrecht (com sua fortuna avaliada em 6 bilhões) gostava de reiterar que “Belo Monte é muito importante para o País”, mensagem que encontrava coro na voz da presidenta Dilma Rousseff. “Perto do fim de seu primeiro mandato como presidenta, Dilma visitaria Belo Monte para uma foto para sua campanha da reeleição. Quando um repórter perguntou sobre o impacto ambiental por causa da barragem, ela respondeu embebida em sarcasmo: ‘Você prefere ficar sem eletricidade? E pagar altas contas de energia também?’.”

Mais do que o passado, o presente talvez seja a explicação do porquê de o livro não ter sido ainda publicado por aqui. Os direitos chegaram a ser vendidos para a Zahar, mas a editora acabou cancelando o contrato. Havia, segundo Cuadros, muitas objeções à primeira versão do livro, pensada para o público americano.

Os argumentos iam desde que o autor estava sendo preconceituoso com os empresários até o de que o próprio Lemann teria ficado descontente com o tratamento dado a ele na obra, o que poderia resultar em ação judicial do homem mais rico do Brasil contra a editora. No fim das contas, trata-se de uma postura preocupante, mas nisso o Brasil não surpreende, avalia Cuadros: “É assim em todo o mundo”. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 913 de CartaCapital, com o título "Brazilionários". Assine CartaCapital.