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Número 912,

Política

Impeachment

O PT e o preço do pragmatismo

por Miguel Martins publicado 03/08/2016 03h51
Sob críticas internas, a realpolitik do Partido dos Trabalhadores emperra a reação ao golpe
Sérgio Castro / Estadão Conteúdo
maia e temer

Quando o impeachment de Dilma Rousseff ainda era uma farsa em fabricação, Lula pregou uma “revolução” no Partido dos Trabalhadores para recuperar a utopia perdida pela legenda ao longo de mais de uma década de governo. “Nós temos de definir se queremos salvar nossa pele, nossos cargos ou nosso projeto”, afirmou o ex-presidente em um seminário organizado em 2015.

Em meio ao afastamento provisório da presidenta eleita e momentos antes da votação final no Senado que pode consolidar o golpe, a missão de impedir a efetivação de Michel Temer parece esbarrar no velho pragmatismo dos tempos de poder. A perenidade da realpolitik nutrida pelo PT nos últimos anos tem incomodado parlamentares da legenda e reflete-se na tímida capacidade atual de mobilização contra o interino.

Embora municiada por vitórias jurídicas relevantes, a campanha de Dilma para comprovar a ilegalidade de seu afastamento não tem conseguido produzir fatos políticos relevantes a reforçar sua defesa.

Com 22 votos favoráveis na sessão do Senado que definiu o afastamento, a presidenta eleita precisa em tese de mais seis senadores, ou de ausências em mesmo número, para garantir seu retorno ao poder. Sua defesa foi subsidiada por importantes decisões recentes: enquanto o Ministério Público concluiu não ter havido crime comum nas chamadas “pedaladas fiscais”, uma perícia realizada pela comissão do impeachment no Senado não constatou ação direta da presidenta eleita.

Nos bastidores, a confiança dos parlamentares sobre a volta de Dilma parece abalada. Em conversas reservadas, um parlamentar petista admite a dificuldade para conquistar votos contra o impeachment e afirma que o campo majoritário do partido está “atordoado” e segue sem acompanhar a guinada à esquerda da base militante.

A eleição de Rodrigo Maia, do DEM, como novo presidente da Câmara revelou-se uma oportunidade perdida para os partidos de esquerda demonstrarem união em um momento desfavorável. As articulações de deputados do PT e do PCdoB para apoiar Maia foram alvo de críticas de parlamentares de ambos os partidos.

No segundo turno, quando o democrata derrotou Rogério Rosso, do PSD, a divisão interna do PT ficou clara: de 56 deputados que votaram na sessão, 25 deixaram o plenário por não aceitar apoiar um candidato favorável ao afastamento de Dilma. A outra parcela, formada principalmente por nomes do campo majoritário, aderiu à tese do “mal menor” ao preferir derrotar Rosso, aliado de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara, com o suposto objetivo de elevar o nível dos trabalhos na Casa.

Em seu discurso de posse, Maia fez questão de agradecer aos seus “amigos” Orlando Silva e Aldo Rebelo, do PCdoB, e a Afonso Florence, líder do PT na Câmara, “pela confiança”. Ao investir no discurso de pacificação e expor o apoio de petistas e comunistas à sua candidatura, o democrata criou uma saia justa para os caciques de ambos os partidos.

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Para Lindbergh, o PT não pode apostar no jogo do Congresso e tem de olhar para fora. ( Edilson Rodrigues/ Agência Senado)

Wadih Damous foi um dos deputados petistas que preferiram deixar a sessão. “Os dois candidatos eram símbolos do golpe parlamentar”, justifica. “O Rosso presidiu a Comissão Especial de Impeachment e o Maia foi um dos coordenadores do processo. Não havia como apoiá-los.” A perspectiva de um “mal menor” não o convenceu. “Essa eleição não merecia tanta atenção de nossa bancada, é um mandato de apenas seis meses.”

Embora não tenha lançado candidato próprio, o PT concentrou seus votos no primeiro turno no peemedebista Marcelo Castro, ex-ministro da Saúde de Dilma e contrário ao impedimento, que terminou em terceiro na disputa. Para a votação de segundo turno, não houve orientação de bancada.

José Guimarães, ex-líder do governo de Dilma na Câmara, foi um dos deputados que optaram por votar. Perguntado sobre o incômodo de petistas com a articulação com Maia, ele diz que o partido está unido na luta contra o golpe. “Opiniões divergentes são periféricas.” Sobre o apoio ao democrata, Guimarães afirma que “essa pauta já passou”. “Maia não pensa como a gente e nem pensamos como ele, mas precisamos de regras de civilidade na disputa.”

No Senado, o apoio de parte do PT a Maia também gerou críticas. Em um vídeo pessoal, o senador Lindbergh Farias desabafou ao afirmar que a esquerda “sujou as mãos” com o democrata. Para ele, PT, PCdoB e PSOL deviam ter se unido em torno de apenas uma candidatura. “Agora, apoiar Maia é inexplicável, ele traz uma agenda regressiva, de retirada de direitos”, diz. “No momento, ele prepara a votação da PEC que limita os gastos públicos à inflação do ano anterior e a entrega do pré-sal. O que ganhamos com esse acordo?”

Para o senador, o apoio a Maia dificulta a resistência ao impeachment. “Não podemos voltar à prática do pragmatismo. Sabemos o que sofremos com a aliança com o PMDB. Não se pode apenas jogar o jogo interno do Congresso, tem de se olhar para fora.” O parlamentar diz “não ter dúvida” de que a eleição do democrata foi positiva para Temer ao distanciar o governo interino de Cunha. “Ele se livrou de um problema.”

Aliado de longa data do PT, o PCdoB também revelou rusgas internas. O partido lançou a candidatura de Orlando Silva no primeiro turno. Amealhou apenas 16 votos. No segundo, a bancada do partido votou em peso, com exceção das deputadas Jandira Feghali e Alice Portugal. Após a eleição de Maia, Jandira criticou as articulações de seu correligionário para apoiá-lo. “Ele (Silva) foi autorizado a tentar construir uma candidatura de unidade.

Agora, com essa articulação direta entre os dois, fiquei muito surpreendida.” À época, ventilou-se a possibilidade de o apoio estar relacionado à anulação da CPI da União Nacional dos Estudantes, entidade na qual o PCdoB tem forte presença. Embora tenha sido um dos signatários da criação da comissão, Maia manteve a decisão de Waldir Maranhão, seu antecessor, de barrar a instalação da CPI.

Ao lançar sua candidatura como forma de marcar posição, Luiza Erundina, do PSOL, ganhou o apoio de 22 deputados no primeiro turno. Como a bancada da legenda tem seis integrantes, a candidata à prefeitura de São Paulo recebeu votos de outros partidos do campo progressista, o que reforça o desgaste de alguns deputados com o pragmatismo de suas legendas.

Nas duas maiores cidades do País, o PSOL mostra-se fortalecido em comparação ao PT e ao PCdoB na largada da disputa municipal deste ano. Em São Paulo, o prefeito petista Fernando Haddad está em quarto nas pesquisas, com 8% das intenções de voto, segundo levantamento mais recente do Datafolha. Erundina surge à frente do candidato à reeleição, com 10%. Apoiada pelo PT, Jandira lançou sua candidatura à prefeitura do Rio de Janeiro, mas terá dificuldade em superar Marcelo Freixo, do PSOL, que surge em segundo em pesquisas preliminares, atrás de Marcelo Crivella, do PRB.

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Carregado pela polícia ao tentar evitar uma reintegração de posse, Suplicy oferece a metáfora de uma velha utopia. (Marcelo Camargo/ ABr)

Enquanto o PSOL parece acenar para a parcela da esquerda desiludida com os equívocos petistas, a principal legenda do campo progressista deve lavar a roupa suja em um congresso a ser realizado após as eleições municipais. Enquanto Lindbergh defende “enterrar o pragmatismo” dos últimos anos, Damous afirma que o PT tem várias identidades em disputa. “Isso só vai ser resolvido em um grande debate com a militância partidária.”

Há quem ainda dê de ombros para o pragmatismo e valorize a importância de atos simbólicos no PT. Candidato à vereador paulistano, o ex-senador Eduardo Suplicy foi preso na segunda-feira 25 após protestar contra a reintegração de posse de um terreno ocupado por 350 famílias.

Suplicy deitou-se na rua e foi levado pela polícia militar após se recusar a deixar o local. As imagens do ex-senador sendo carregado pelos agentes rodaram o País. Embora o episódio tenha aspectos de autopromoção, os valores que moveram o senador a tentar barrar a reintegração são um alento para uma militância cada vez mais carente de referências. Se o objetivo é recuperar a utopia perdida, nada melhor que um pouco de rebeldia para animar as bases. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 912 de CartaCapital, com o título "O preço do pragmatismo". Assine CartaCapital.