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Número 912,

Cultura

Livro

Flavio Moreira da Costa, por amor à burla

por Rosane Pavam publicado 08/08/2016 04h53
Em antologia do humorismo brasileiro, escritor ressalta a inclinação à impostura e vê a graça como um modo literário de dizer a verdade
Millôr Fernandes

Democracia é eu mandar em você. Ditadura é você mandar em mim. Nunca neguei a ninguém o direito de concordar comigo. Millôr Fernandes, A Bíblia do Caos

Espectador cotidiano da chalaça e da burla, o brasileiro vive o humorismo na pele. Eis por que mal o reconhece quando descrito literariamente. Cruel concorrente do humorista é a realidade. Em 1906, por exemplo, durante o processo de reurbanização da Avenida Central, no Rio de Janeiro, o único prédio a desabar foi o do Clube de Engenharia.

Engenheiros e operários culparam-se uns aos outros pela trágica piada pronta, que matou dois trabalhadores. O incidente  deu-se no início de março e no fim do mês as apurações estavam concluídas. Ninguém foi para a cadeia porque o delegado do caso alegou ser impossível apontar um culpado direto.

Mendes Fradique (1893-1944), autor de uma série clássica sobre nossas ironias, O Brasil pelo Método Confuso, riu amargamente do episódio. E escreveu: “O humorismo nasce do contraste direto entre o que é e o que deverá ser. Ora, no Brasil, como em todas as nações de sua idade mental, tudo é precisamente como não deverá ser. De modo que se torna impossível esse contraste, igualmente impossível o humorismo”.

Os humoristas brasileiros, portanto, têm poucas saídas. Em primeiro lugar, quando honrosos, devem visar à crítica, não à graça, como ensinou Chico Anysio. E, depois, buscar o contraste desesperadamente, naquela fronteira em que a risada se aproxima do esgar e a pena da galhofa se une à da melancolia, como ensinou Machado de Assis.

Machado de Assis
Simão Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe quepossuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade,todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto.Machado de Assis, O Alienista

“O humor é a vitória de quem não quer concorrer”, escreveu Millôr Fernandes em sua Bíblia do Caos. Ou como definiu Aparício Torelly, o Barão de Itararé: “Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você”.

Todas as vezes que, no intervalo de sua agitada existência entre o jornalismo, a direção de filmes, a roteirização de telenovelas e o romance, o escritor Flávio Moreira da Costa, de 74 anos, pediu auxílio aos livros, o fez também em busca desse sofisticado qualificador.

Na biblioteca de seu pai, no Rio Grande do Sul, fulgiam as estrelas de Miguel de Cervantes e de Rabelais. “Irreverente, perseguido, o humor é a maneira de dizer a verdade”, concluiu o escritor, que se lançou ao mercado editorial como autor de duas dezenas de antologias (e ele as distingue das coletâneas pelo sabor da permanência). “Sou muito curioso e dispersivo. Na antologia descobri um lugar onde a dispersão pode ser amarrada.”

Nos últimos três anos, Moreira da Costa lançou-se ao recolhimento das verdades ditas pelos grandes jocosos da literatura local. Muitos autores importantes, à moda de Campos de Carvalho, ficaram fora de sua antologia por impossibilidade de negociação dos direitos autorais com as famílias. Mas restaram, na versão final, variados textos de escárnio que ele editou para seu propósito desvelador.

Lima Barreto
Nas suas mãos, a justiça estava a serviço do governo; e, como juiz de direito, foi na comarca mais um ditador que um sereno apreciador de litígios. Lima Barreto, Numa e a Ninfa

Das fábulas e canções indígenas recolhidas por pesquisadores, passando pelos citados Machado, Itararé e Millôr, até Lima Barreto ou Mario Quintana, além do recentíssimo Antonio Prata, entre inúmeros, o antologista buscou na compilação O Melhor do Humor Brasileiro retratar a derrisão nacional em excelente nível.

Moreira da Costa se autodefine mal-humorado e diz preferir o humorismo à pura comicidade. “O humor supostamente brasileiro é aquele compensatório, o da piada”, garante, a desdenhar da risada alta. “Mas aquele que busquei na antologia foi o sério, o inteligente. Porque o humor, para mim, nasce do mau humor, filtrado pela inteligência.”

Para Moreira da Costa, comentadores como Stanislaw Ponte Preta, Leon Eliachar ou José Simão revelam-se piadistas do efêmero, sob o risco de exclusão do imaginário nacional, ao contrário do que ocorreria a Gregório de Matos, um humorista sério, a maldizer: “Que falta nesta cidade? Verdade. Que mais por sua desonra? Honra. Falta mais que se lhe ponha? Vergonha”.

Na compilação do autor gaúcho estão os engraçados insuspeitos, como Bernardo Guimarães, autor de A Escrava Isaura, que escreveu em Disparates Rimados: “Há opiniões diversas sobre dores de barriga. Dizem uns que são lombrigas. Outros, que vêm de conversas”.

Barão de Itararé
O homem que se vende recebe sempre mais do que vale. Barão de Itararé, Máximas e Mínimas

A língua vira igualmente um mote para Mendes Fradique, pseudônimo do médico capixaba José Madeira de Freitas: “Língua é um músculo chato, muito móvel, com uma ponta presa e outra solta. E aí está precisamente o grande mal da humanidade. Se a língua tivesse as duas pontas presas, quantos males se não evitariam no gênero humano?”

Ele também discorre sobre o período: “É uma porção de palavras, começando por letra maiúscula e terminando por ponto final, ponto de espantação, ou ponto de interrogação, ou ainda por uma carreirinha deles. Há, entretanto, períodos que começam por um ponto de interrogação e terminam sabe Deus como”.

O antologista parece comentar períodos recentes quando se refere a males eternos. Recorre aos verbetes de Carlos Laet, um dos grandes frasistas brasileiros, que definiu o “interino” ainda no século XIX: “Diz-se de empregado público que substitui outro durante vários anos, podendo por isso lucrar acumulações e outros proventos que, por lei, são vedados aos efetivos”.

Em sua compilação, os humoristas do passado algo se materializam no presente. Millôr morreu em 2012, aos 88 anos, mas nos fala hoje ao comentar a advocacia: “É a maneira legal de burlar a justiça”. Ou sobre o despeito: “Muita gente que fala o tempo todo contra a corrupção está apenas cuspindo no prato em que não conseguiu comer”.

O Barão de Itararé, que poderia ter recebido muitas páginas mais na antologia, resume com atualidade um conluio antigo: “Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados”. E Monteiro Lobato zomba da correção gramatical (especialmente de quem a pratica) em O Colocador de Pronomes: “Língua? Chama você língua à garabulha bordalenga que estampam periódicos? Cá está um desses galicígrafos. Deletreemo-lo ao acaso”.

Mario Quintana
Não me ajeito com os padres, os críticos e os canudinhos de refresco: não há nada que substitua o sabor da comunicação direta. Mario Quintana, Quintanares

Na sua busca por paralelismos, consonâncias, assimilações e precedências, Moreira da Costa acaba por fazer um inventário da mediocridade brasileira. Um dos principais textos que recolhe para exemplificá-la é o conto Teoria do Medalhão, de Machado de Assis, em que pai e filho conversam como “dois amigos sérios” sobre a necessidade de não ter ideias na vida para se dar bem. O pai recomenda ao jovem que se afaste dos exercícios intelectuais, especialmente da solidão. “Medalhão não quer dizer melancólico”, explica.

“Um grave pode ter seus momentos de expansão alegre. Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos céticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias e arrebentar de riso os suspensórios. Usa a chalaça.”

Moreira da Costa aproxima o Medalhão de A Carteira de Meu Tio, conto no qual Joaquim Manuel de Macedo, o autor de A Moreninha, mostra o empenho de um sobrinho em viver à sombra do parente famoso. A hilária burla prossegue em O Homem Que Sabia Javanês. Neste conto de Lima Barreto, um desempregado aproveita-se de um senhor que lhe paga para ler um livro na língua incompreensível.

É sua Teoria do Medalhão contra a impostura, que o antologista elenca entre as constantes brasileiras, como o mal-entendido, a seguir Mario Quintana: “A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra, o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita”. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 912 de CartaCapital, com o título "Por amor à burla". Assine CartaCapital.