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Número 912,

Economia

Atuação social

Empresários contra o câncer infantil

por Juliana Elias — publicado 05/08/2016 12h06, última modificação 17/08/2016 13h14
Executivos empenham também o seu saber profissional para o combate eficiente à doença
Ilustração: Minimorgan. Fotos: iStockphoto
Cura

Nas entidades especializadas, o índice de cura supera 70% e nos hospitais gerais beira 50%

Sérgio Amoroso, presidente do Grupo Jari, um dos maiores produtores de celulose do País, tem uma tarefa difícil para 2016: executar um orçamento de 96 milhões de reais, quase 10% maior que o de 2015, com receitas inferiores às despesas.

A conta não é da empresa, mas do Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graac), hospital e centro de atendimento sem fins lucrativos, presidido também pelo executivo. 

O Graac funciona em parceria com a Universidade Federal de São Paulo e é uma das referências no País para o tratamento do câncer infantil. Amoroso é um dos empresários que, além de apoio financeiro, dedicam seu conhecimento profissional e um tempo considerável ao aumento da eficiência e da capacidade de atendimento das instituições do setor. 

O presidente do Jari acompanha o projeto desde 1991, quando o médico Antonio Sergio Petrilli, um dos seus precursores, procurou-o em busca de contatos no meio empresarial para levantar verbas e colocar o projeto em pé.

Havia necessidade de 1,5 milhão de dólares para transformar a casa em São Paulo em uma edificação maior para tratar adequadamente as primeiras crianças. Amoroso fez a doação, ajudou a melhorar o projeto e não saiu mais do Graac. Hoje, a entidade é um complexo de dois edifícios com 11 andares, 67 leitos, salas de cirurgia, transplantes e quimioterapia e mais de 3 mil adolescentes e crianças atendidos por ano entre consultas, internações e tratamentos. 

Empresários como Sérgio Amoroso são peças-chave nas entidades de combate ao câncer infantojuvenil no País. Os executivos contribuem com recursos, profissionalização, gestão, tecnologia e outros aportes de eficiência comuns no mundo corporativo, mas escassos no terceiro setor.  

Amoroso
O único patrimônio das instituições é a imagem, daí a importância da seriedade e eficiência, diz Campos (Foto: Gustavo Scatena/Graac)

“Isso aqui não é uma empresa, não tem dono, ainda assim precisa de hierarquia e organização”, analisa Amoroso. Há sete anos, implantou uma estrutura corporativa de gestão no Graac. As decisões foram centralizadas no conselho administrativo e as áreas específicas receberam superintendências.

A mudança possibilitou avanços notáveis. Além de um edifício novo com o dobro da capacidade anterior, o centro ganhou equipamentos de ponta, inclusive uma sala para cirurgia cerebral, a única da América Latina com equipamento de ressonância acoplado.

O recurso permite o mapeamento de tumores pelos médicos em tempo real durante a operação e evita a remoção do paciente para fazer o exame em outra sala, procedimento que aumentava os riscos do processo. O acesso ao tratamento e aos equipamentos é gratuito e disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Os avanços aumentam os custos, fonte dos desafios de Amoroso. “Ver o hospital crescer é uma vitória, mas a cada vez que expandimos, os gastos crescem na mesma proporção.” Um exemplo é o orçamento do Graac, estabelecido em 50 milhões em 2010, atingiu quase o dobro neste ano. As receitas fixas, porém, são apenas duas: os 12 milhões de reais recebidos por convênios, pelos poucos atendimentos particulares (cerca de 10% dos pacientes), mais 17 milhões repassados pelo SUS.

O restante necessário para manter a estrutura em boas condições de funcionamento precisa ser levantado por meio de captações, doações, parcerias, eventos e o que mais a equipe de marketing, montada e dirigida pelo empresário, criar para arrecadar fundos. 

Por serem especializados e contarem com suporte financeiro adicional, institutos como o Graac têm uma taxa de cura acima de 70%, enquanto a média em hospitais gerais oscila em torno de 50%. Com 12 mil novos casos ao ano entre crianças e adolescentes, o câncer é hoje a segunda maior causa de mortalidade infantil no País.

Os óbitos por acidente estão no topo da lista, e a letalidade da diarreia e de complicações pós-parto diminui em consequência do avanço da cobertura dos sistemas sanitário e de saúde pública. “Qualitativamente, o Brasil tem hospitais comparáveis aos mais avançados do resto do mundo. Nosso problema é quantitativo, fazer isso chegar a todos”, diz o pediatra Vicente Odone Filho, coordenador-clínico do Instituto de Tratamento do Câncer Infantil (Itaci), braço oncológico do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Campos
Amoroso sente-se gratificado pela proximidade com o atendimento e o tratamento das crianças (Foto: Casa Durval Paiva)

Segundo o médico, os principais problemas são a demora do diagnóstico e a dificuldade para acompanhar a criança após a alta, pois muitas famílias provêm de localidades remotas e nem sempre é fácil encontrá-las. 

Esses são alguns dos problemas que o empresário Luís Roberto Demarco busca solucionar. Proprietário da Nexxy Capital, empresa de aceleração de negócios em tecnologia, criou em 2012 o Instituto Stella Demarco (ISD), de apoio tecnológico e financeiro ao Itaci.

“Em muitos casos sobra boa vontade no terceiro setor, há voluntários e funcionários que fazem um trabalho extraordinário, mas faltam profissionalismo e estrutura para lidar com os desafios mais complexos.”

O executivo é sócio da Orbium, empresa de software que fornece ao Itaci o seu programa de CRM, para gestão de relacionamento com clientes. A ferramenta auxilia no acompanhamento dos pacientes após o tratamento. A CRM desenvolve também um projeto para permitir o atendimento a distância de pacientes internados em hospitais públicos de outras regiões. 

Demarco e Stella
Demarco e Stella, na origem do apoio ao trabalho referencial do Instituto Itaci (Foto: Divulgação/Instituto Stella Demarco)

Outra atividade do ISD é o financiamento de pesquisas realizadas no Itaci, incluída a investigação do funcionamento das células do neuroblastoma, um tipo complexo de câncer típico em crianças de até 3 anos, e formas de combatê-lo.

“Foi uma promessa que eu fiz para a minha filha”, conta Demarco. Diagnosticada com neuroblastoma em 2011, Stella foi tratada no Itaci até março de 2012. “No último dia, fiquei só segurando a mão dela e prometi que trabalharia para outras crianças com o mesmo problema sobreviverem.”

Segundo Rilder Campos, presidente da Confederação Nacional de Instituições de Apoio e Assistência à Criança e ao Adolescente com Câncer (Coniacc), a maior parte das instituições do setor surge por iniciativa de médicos ou empresários com familiares acometidos pela doença.

Dono de uma empresa de tecnologia nos anos 1990, Campos entregou o negócio aos irmãos, depois de seu filho Fernando, naquela época com 1 ano e meio, receber o diagnóstico de retinoblastoma, câncer que atinge os olhos, também típico da primeira infância. Fernando sobreviveu, mas perdeu a visão.

O tratamento foi realizado em instituições de apoio nos Estados Unidos, uma inspiração para o pai e o avô criarem, no Brasil, a Casa Durval Paiva, em funcionamento desde 1995 em Natal (RN) e dirigida voluntariamente por Campos.

“A atividade amadora está com os dias contados, o terceiro setor já compreendeu a importância de se profissionalizar. Nós não temos produto para vender. Vivemos do apoio da sociedade e o nosso único patrimônio é a nossa imagem, daí a importância de a instituição ser séria, transparente e eficiente.” O Coniacc congrega 52 entidades do setor. 

O hospital tem o que aprender com os empresários e esses extraem lições da proximidade com o atendimento e o tratamento dos pacientes, diz Amoroso, do Graac. Agilidade é uma das contribuições dos executivos mais necessárias aos grupos de combate ao câncer infantil.

Em contrapartida, aprendem a ter abertura e paciência em situações difíceis. Ao contrário da maior parte dos colegas, ele não chegou ao setor por causa de problemas de saúde na família. “Graças a Deus, não é o meu caso”, diz. “Este é um dos papéis do empresário, e dos melhores. Ele não pode ser conhecido pelo egoísmo. Eu sou um beneficiado, e isso também é razão para ajudar.” 

*Reportagem publicada originalmente na edição 912 de CartaCapital, com o título "Muito além do dinheiro". Assine CartaCapital.

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