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Número 912,

Internacional

Estados Unidos

Donald Trump e o império do ego

por The Observer — publicado 04/08/2016 04h02
A trajetória do candidato republicano expõe aquilo que de fato o interessa: ele próprio
John Moore/ Getty Images/ AFP
Trump

"Donald acredita que é uma pessoa incrivelmente ótima, e quem não reconhecer isso é um fracassado."

Por David Smith

Randal Pinkett atravessou o saguão de mármore rosado da Trump Tower, na Quinta Avenida, pegou um elevador que deslizou até o 26º andar e entrou num escritório que, além da vista maravilhosa de Manhattan no inverno, estava forrado de lembranças e capas de revistas com o rosto de Donald John Trump. O primeiro e único afro-americano que ganhou o reality-show O Aprendiz chegava para seu primeiro dia de trabalho. 

Quando ele entrou, lembra Pinkett, Trump examinava metodicamente uma pilha de 30 centímetros de revistas e jornais sobre sua mesa. Cada item da pilha tinha um bilhete adesivo. Trump pegou um no topo da pilha, colocou-o na mesa e o abriu na página com o bilhete colado. Ele leu o artigo relevante e então o pôs de lado. De maneira desconcertante, esse ritual continuou durante toda a sua reunião de meia hora, no início de 2006.

“Por isso eu me perguntei: esse cara está lendo as tendências atuais do mercado imobiliário, a cobertura das Bolsas, os negócios globais?”, disse Pinkett. “Eu me inclinei durante a conversa e percebi que ele só olhava artigos sobre si mesmo. Na verdade, em vários pontos da conversa Donald ficou tão excitado com o que lia sobre ele próprio que levantou a revista para me mostrar, dizendo: ‘Veja, Randal, O Aprendiz foi o primeiro colocado em audiência na semana passada. Não é ótimo?’ Só posso concluir que Donald adora ler sobre Donald.” 

Segundo muitos que o conhecem, o estudam ou escrevem sobre ele, Donald fez de si mesmo o trabalho de sua vida. Agora ele tenta aperfeiçoar sua obra-prima. A autoconfiança o ajudou a afastar 16 rivais, incluindo governadores e senadores, para tornar-se o primeiro não político em décadas a vencer uma nomeação para presidente de um grande partido político. A coroação do magnata bilionário ocorreu na semana passada na convenção republicana em Cleveland, Ohio, para a que poderá ser a mais feia disputa eleitoral da história dos EUA, contra a candidata democrata Hillary Clinton.

Como Donald Trump chegou a essa altura incrível, antes impensável, é uma história de ancestrais imigrantes que trabalharam duro e sem cansaço, de prepotência e autopromoção, de sucesso e fama, de distorcer a verdade e difamar concorrentes. É também a história de um ego monumental, inabalado pela dúvida. “Ele é um narcisista de nível internacional”, diz David Cay Johnston, autor do livro ainda inédito The Making of Donald Trump (A Construção de Donald Trump), que estima que seu personagem-título vale 1 bilhão de dólares. “Donald acredita que é uma pessoa incrivelmente ótima, e quem não reconhecer isso é um fracassado.”

Trump, provavelmente, era mais conhecido por milhões de pessoas como o apresentador da versão americana do programa O Aprendiz, quando, em junho do ano passado, lançou sua campanha presidencial extremamente improvável na Trump Tower. Depois da hoje famosa
descida de escada rolante, o empreiteiro imobiliário pronunciou um discurso em que mencionou os imigrantes mexicanos: “Eles trazem drogas. Eles trazem crimes. São estupradores. Alguns, suponho, são boas pessoas”.

O veneno foi injetado no corpo da política americana. Ele continha um ingrediente-chave da filosofia de Trump, que ele descreve como “hipérbole verdadeira”, a qual, segundo afirma, é uma forma inocente de exagero e uma forma muito eficaz de promoção. Esse hábito está embutido na história da família Trump. 

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Trump, à esquerda, com os irmãos. Freddy, o turbulento, está de preto. (Seth Poppel/ Yearbook Library)

Seu avô alemão, Friedrich Trump, tinha 16 anos quando chegou de barco em Manhattan, com apenas uma mala, em 1885. Mudou a grafia de seu nome para Frederick e rumou para Seattle para fazer fortuna – no bairro da luz vermelha. Alugou um minúsculo restaurante chamado Poodle Dog, que tinha uma cozinha e um bar e anunciava “quartos particulares para damas”. 

Mudou-se depois com a família para o Queens, em Nova York, abriu um escritório e comprou alguns imóveis, mas foi morto pela gripe espanhola na epidemia de 1918. A empresa foi herdada por seu filho de 12 anos, Fred, que sobreviveu à Grande Depressão e, segundo Blair, contou uma “mentira deslavada” ao fingir ser um próspero executivo imobiliário. No fim dos anos 1920, vendia casas no Queens por quase 4 mil dólares cada uma.

Em 1936, Fred Trump, que afirmava ser sueco, e não alemão, casou-se com Mary MacLeod,  imigrante escocesa. Sua mobilidade ascendente era inescapável em sua segunda residência, com 23 cômodos. Donald – nascido em junho de 1946 –  e seus quatro irmãos passaram a maior parte da infância lá. Não adiantava muito os vizinhos tentarem se equiparar aos Trump. Eles tinham Cadillacs conversíveis estacionados na entrada, um chauffeur, cozinheiro, uma tevê em cores e uma piscina, mas não muitos livros. 

De repente, aos 13 anos, Donald foi arrancado dessa vida tranquila e enviado para a Academia Militar de Nova York, um internato particular. O biógrafo Blair, que o entrevistou longamente, explica: “Diz a história que ele e outro garoto fugiram para Manhattan de metrô e conseguiram canivetes, evidentemente sem nada de mau na cabeça, mas eles pareciam bacanas, e o pai o mandou para a escola militar. Lá foi ele, e parece que adorou”.

Longe de quebrá-lo, a academia militar foi a verdadeira formação de Trump, que ganhava as competições sobre tudo, desde limpar o quarto a polir os sapatos. Os cadetes eram submetidos ao treinamento militar básico (cada um recebia um rifle M1 e aprendia a desmontá-lo), estudava um currículo acadêmico (o interesse de Trump terminou na geometria) e praticava esportes (Trump era ótimo em beisebol e basquete).

Os jovens cadetes viviam à sombra da Guerra Fria e sofreram a incerteza da crise dos mísseis cubanos, depois o assassinato do presidente Kennedy, em 1963. Peter Ticktin, hoje  advogado em Boca Raton, na Flórida, diz: “Ficamos todos chocados, todos choraram” – inclusive Trump. 

Ticktin era um sargento de pelotão, enquanto Trump, dois anos mais velho, era capitão de companhia. “Ele era autoconfiante, um pouco esnobe. Não diria arrogante, porque era extremamente acessível. Uma boa pessoa, e acho que ainda é.” 

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Trump: cadete na Academia Militar de Nova York. (Seth Poppel/ Yearbook Library)

Trump foi para a Universidade Fordham, no Bronx, depois para a Escola Wharton da Universidade da Pensilvânia, e formou-se em Economia em 1968. Ele ajudou a administrar a carteira de seu pai de projetos habitacionais para a classe média no Brooklyn e no Queens e tornou-se o favorito para sucedê-lo depois que seu irmão mais velho, Freddy, decidiu ser piloto. Freddy morreu aos 43 anos por causa de alcoolismo, tragédia que Trump diz tê-lo levado a rejeitar bebidas, cigarros e drogas durante toda a sua vida.

Trump aproveitou ao máximo sua vantagem inicial e, com uma ética do trabalho feroz – ele se levanta por volta das 5 da manhã todos os dias –, dedicou-se a construir um império. Atravessou o rio para Manhattan, um cenário muito maior e mais lucrativo. Transformou o decadente Hotel Commodore no Grand Hyatt e construiu a Trump Tower, de 68 andares, onde um retrato de Fred, que morreu em 1999, ainda domina um bar. Também abriu hotéis e cassinos, empreendimentos que levaram a quatro pedidos de concordata. O tropeço financeiro coincidiu com o colapso de seu casamento com Ivana Winklmayr,  modelo tcheca, após 14 anos, por causa de um affair com a ex-miss Marla Maples.

Trump foi obrigado a vender prédios, um Boeing 727 e seu iate, o Trump Princess, mas também nunca havia sido um grande marinheiro. Mesmo nesse ocaso pessoal e profissional, ao que parece, sua autoconfiança foi inabalável. Roger Stone, 63 anos, um consultor político e amigo de Trump desde que o conheceu, em 1979, afirma: “Acho que ele nunca perdeu a fé em si mesmo porque é o maior negociador que já existiu. Descobriu que valia mais para os bancos vivo do que morto, por isso, se eles o derrubassem, cairiam junto. Assim ele pôde negociar acordos incríveis que permitiram que se reerguesse a partir do zero.

A recuperação de Trump nos anos 1990 – que inspirou seu livro The Art of the Comeback (A Arte do Retorno) – incluiu incursões no ramo do entretenimento, e ele adquiriu os concursos de beleza Miss Universo, Miss USA e Miss Teen USA. Mas foi em 2004 que a fama de Trump ganhou impulso, com O Aprendiz, cujos participantes disputavam uma oportunidade em um cargo de gerência na organização de Trump. Ele afirmou em uma declaração de renda que recebeu ao todo 213 milhões de dólares da rede NBC. 

Durante anos, a equação Trump igual a sucesso foi bombeada para dentro de milhões de lares. Blair comenta: “Isso deu a ele dez anos diante do público americano como o patrão, o CEO, contratando pessoas, famoso por demitir outras, sendo o cara capaz de consertar tudo, o que sabe tudo, o grande patriarca autoritário. Acho que isso marcou muita gente que ‘confia’ nele, é o que o torna ‘confiável’”.

Pinkett, 45 anos, que ganhou O Aprendiz em 2005, concorda. “Os reality shows, entre outros fatores, criaram essa cultura da hipercelebridade nos Estados Unidos, na qual estamos hoje realmente mergulhados”, disse ele. “A fama tornou-se uma forma de capital, e Donald é um dos principais beneficiários desse fenômeno cultural da celebridade que se transforma em capital. Ele passou de empresário de sucesso a uma personalidade da mídia, e hoje está faturando com esse capital.”

Dez anos depois, a Trump Tower, vizinha à joalheria de luxo Tiffany & Co., de 179 anos, pulsa com atividade no centro de Manhattan. Em um dia destes, famílias de camiseta e short reuniam-se no Trump Bar, no Trump Grill – cujo menu inclui Trump Scotch, uma seleção dos vinhos Trump, um sanduíche de filé Trump Tower e o sorvete caseiro Trump –, no Trump Café, na Sorveteria Trump e na Trump Store, que vende seus livros, bonés de beisebol “Faça a América ser Grande de Novo”, desodorantes “Success by Trump”, gravatas da coleção assinada Donald J. Trump, bonés de beisebol do Trump National Golf Club e balas e confeitos Trump Tower.

Os produtos são caros, mas despretensiosos, como Trump. Uma foto recente mostrou o magnata em seu jato particular consumindo um Big Mac do McDonald’s, fritas e uma Diet Coke. Seus seguidores dizem que isso mostra sua autenticidade. Stone, que quis que ele disputasse a Casa Branca desde 1988, lembra a convenção republicana daquele ano. “Ele foi convidado para um jantar black-tie com o então vice-presidente George H. W. Bush e seu candidato a vice, o senador Dan Quayle. Trump olhou para o convite gravado que tinha sido entregue pessoalmente em sua suíte no hotel e me disse: ‘Ligue para a recepção e pergunte quem faz o melhor cheeseburger da cidade. Vamos guardar isso e sair para comer um sanduíche’.”

O escritor Ken Auletta, 74 anos, que faz cobertura da mídia para a revista New Yorker, conta uma história que define bem o personagem. Auletta, cujo pai conhecia de vista o pai de Trump, de um restaurante onde costumavam almoçar separadamente, encontrou Donald por acaso, anos depois em um jogo de basquete do New York Knicks. “Ele aproximou-se de mim e disse: ‘Ei, Kenny!’ Eu não conheço ninguém que me chame de Kenny... Ele disse: ‘Ei, Kenny, como vai seu pai?’ Eu respondi: ‘Bem, na verdade ele morreu’. ‘Oh, sinto muito em saber disso’. No ano seguinte, eu o reencontrei em um jogo dos Knicks e ele diz: ‘Kenny, como vai seu pai?’ Então eu disse: ‘Na verdade, ele morreu’. ‘Ah, sinto muito em saber disso’. No terceiro ano eu o encontro novamente e ele diz: ‘Ei, Kenny, como vai seu pai?’ Eu olhei para ele fixamente, fiz uma pausa de alguns segundos e disse: ‘Meu pai está igual’, e saí andando.”

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Trump acompanhado da modelo Ivana. (Bob Strong/ AFP)

Trump é pai e avô. Ele tem cinco filhos de três casamentos. Os do primeiro – Donald Jr., Ivanka e Eric – hoje o ajudam a dirigir a Trump Organization e exercem um papel cada vez maior na campanha eleitoral. Stone, falando de Miami Beach, na Flórida, diz: “Acho que ninguém negaria que ele tem um ego saudável, mas o que ele realmente curte é sua família. Ele é extraordinariamente orgulhoso de sua família e do papel que eles estão assumindo nos negócios”.

Stone concorda que há pouco espaço para autorreflexão. “Não acho que ele tenha muito tempo de psicoterapia. Como Nixon e Reagan, para os quais trabalhei, Trump não é especialmente introspectivo. Está mais interessado na próxima luta, na próxima batalha.” 

*Reportagem publicada originalmente na edição 912 de CartaCapital, com o título "O império do ego". Assine CartaCapital.