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Número 912,

Política

Editorial

A nova Idade Média

por Mino Carta publicado 01/08/2016 04h12
Do terrorismo a Donald Trump, os sintomas são claros. Temer por atentados em tempos olímpicos é compreensível, pior é, porém, o uso político da ameaça
Giotto

Dante Alighieri (retratado por Giotto) saiu da selva obscura para mergulhar na luz renascimental

Peço perdão por me arvorar a pensar grande. Arrisco-me então a confessar a sensação que me toma há tempo: vejo o mundo adentrar uma nova Idade Média. A despeito do avanço tecnológico? Ou com a contribuição indispensável do próprio?

E aqui estou, a tamborilar as teclas da minha velha Olivetti. De computadores mantenho-me afastado e, se me aproximo, temo que me engulam com sua bocarra escancarada a mostrar o abismo. Cautela exagerada, talvez paranoica? Pois observo que muitos, bilhões, já foram deglutidos, e posso até provar.

Há quem se considere órfão quando privado do seu celular, sem contar o desconforto que experimento ao observar adolescentes hipnotizados pelos joguinhos eletrônicos, jejunos de qualquer leitura, mesmo dos gibis de antanho. Gravíssimo: afastam-se de vez das peladas de rua, tão convenientes à vida em comum. Em compensação, contamos com a repentina informação via internet de que Orfeu jantou uma inolvidável feijoada em companhia de Eurídice.

Não pretendo expandir-me por este caminho, digo apenas que nem sempre o homem se habilita a usar corretamente o instrumento por ele mesmo inventado. Repete-se a triste história do aprendiz de mágico, conhece o abracadabra inicial da magia, mas não sabe como encerrá-la e acaba atropelado pelo sortilégio mal aprendido. Recapitulo: o avanço torna-se atraso.

Não me refiro a um fenômeno brasileiro, atiro-me a encarar o mundo em adiantado processo de cretinização, cujos sintomas, de avassaladora nitidez, multiplicam-se aos quatro ventos. Vamos da chamada arte contemporânea, disposta a seguir na rota de Masaccio ou de Van Gogh ao cobrar dezenas de milhões de dólares por telas brancas rasgadas por um estilete ou sacos de aniagem furados por um charuto em brasa, à atroz ausência de estadistas e poetas.

Como explicar a presença na ribalta global de personagens como Donald Trump a não ser ao entendê-las típicas do marasmo mental em que mergulha progressivamente o gênero humano? Sem esquecer, está claro, Hillary Clinton. E como explicar o delirante terrorismo a assolar a Terra, a não ser encarando-o como manifestação de uma selvageria medieval?

Nada acontece por acaso, a gente sabe. O sofrimento do Oriente Médio, as vicissitudes de uma imensa região, hoje levadas ao paroxismo em nome de uma estulta guerra de raças e religiões, nascem obviamente de pregressas prepotências e erros diplomáticos ocidentais, cada vez mais confirmados e acentuados em vez de buscar o retorno à razão.

Na selva obscura da nova Idade Média, o homem embrenha-se profundamente a cada dia, mais e mais. Humanidade indefesa, submissa a práticas econômicas destinadas a favorecer pouquíssimos e a oprimir todos os demais, alguns milhares de sultões de um lado, bilhões de desvalidos do outro. Perdida na mata e sem liderança, vítima dos impulsos e dos humores mais tresloucados, dos instintos mais baixos.

Dante Alighieri, último poeta e pensador da Idade Média, entrou na selva obscura e recebeu o aviso: perdei toda esperança. No entanto, ao cabo da espantosa descida aos ínferos, reencontrou a esperança ao rever as estrelas, metáfora deslumbrante do mergulho na luz renascimental. A Renascença começa com Dante, Petrarca e Boccaccio, com Giotto, Cimabue e os pintores de Siena, com Nicolò e Giovanni Pisano, ainda em 1300. Foi o retorno às ideias e aos ideais da civilização greco-romana e seus intérpretes foram chamados de humanistas. Tratou-se da valorização das virtudes humanas ao abrir os olhos para a estética como sinônimo de ética.

O Brasil não foi alcançado pela Renascença, e nem poderia ser. Tampouco o foi pelo Iluminismo e pelas grandes revoluções que mudaram o mundo. A Idade Média prossegue no país da casa-grande e da senzala, se quiserem de sobrados e mocambos, hoje batizados de favelas. Nesta moldura, o terrorismo que se alastra em todas as direções passa a apavorar o Brasil às vésperas dos Jogos Olímpicos. Um evento desse porte torna-se, em princípio, alvo do Terror.

Nesta edição abordamos o assunto e o risco. O qual assume por aqui feições bastante próprias na linha habitual, no caso misto de drama com ópera-bufa. O risco está, antes da possibilidade de um ataque islâmico, aparentemente remota, no uso político da ameaça, alimentada por factoides e invencionices de sabor tipicamente nativo, de sorte a justificar uma reação armada, quem sabe com a participação dos fantasmas de 1964.