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Número 911,

Saúde

Expectativa de Vida

O contribuinte secular

por Rogério Tuma publicado 01/08/2016 04h12
Vamos viver cada vez mais. O dilema é como juntar qualidade de vida e independência financeira
IstockPhoto
Oscar Wilde

"Os jovens pensam que dinheiro é tudo na vida, mas quando chega a velhice percebem que isso é a pura verdade" - Oscar Wilde

Se você pensa que vai se aposentar cedo e curtir a vida, pode tirar o cavalinho da chuva. Um estudo que virou livro mostra que estamos fadados a nos aposentar cada vez mais tarde se quisermos manter um padrão de vida razoável.

Em 2009, pesquisadores publicaram na revista Lancet um estudo de revisão de artigos e afirmaram que metade das pessoas nascidas após o ano 2000 vai viver mais de 100 anos, três quartos vão comemorar seus 75 anos, e se você sobrevive aos 50 anos, pode considerar que nasceu de novo, pois a partir daí a melhora da qualidade de vida obtida pela evolução da ciência nos traz um ganho na expectativa de vida de 0,2 ano a cada ano que passa.  

Até 2007 acreditávamos que a expectativa de vida das pessoas ao nascer não passaria de 85 anos. Foi quando os japoneses ultrapassaram a sua expectativa para 86 anos. Na verdade, a expectativa de vida nos países desenvolvidos sobe linearmente desde 1840, indicando que ainda não atingimos um limite para o tempo de vida máximo para um ser humano. 

No início do século XX, as melhorias no controle das doenças infecciosas promoveram um boom na sobrevida dos humanos, principalmente nas crianças. E depois da Segunda Guerra Mundial os avanços da medicina no tratamento das enfermidades cardiovasculares e do câncer promoveram um ganho para os adultos. Em 1950, a chance de alguém sobreviver dos 80 aos 90 anos era de 10%; em 2002 já era de 30%; atualmente excede os 50%. 

O que agora vai promover uma sobrevida mais longa e com mais qualidade será a mudança de hábitos. A Dinamarca era em 1950 um dos países com mais longa expectativa de vida. Porém, em 1980 havia despencado da terceira para a 20ª posição – e a causa disso foi o tabagismo.  A Suécia, vizinha que fuma menos, ganhou três anos de sobrevida nesse mesmo período. 

O controle da ingestão de sal, açúcar e a redução dos vícios como cigarro e álcool, além de atividade física, vão determinar uma nova onda do aumento de expectativa de vida.

A própria qualidade de vida, medida por anos de saúde plena, deve mudar para melhor nas próximas décadas. Até o início deste século pessoas com mais de 50 anos em média gozariam de mais 15 anos com saúde, homens um ano a mais que as mulheres; porém, as dificuldades são mais leves do que no século passado. Neste quesito, os ganhos ainda são pequenos. Mas a verdade é que mais recentemente, com educação e mudança de hábitos, os países desenvolvidos conseguiram reduzir em quase 30% a incidência de doenças cognitivas como mal de Alzheimer. Um estudo americano recente com 32 supercentenários, de idade entre 110 e 119 anos, indicou que 40% deles precisavam de pouco auxílio ou eram independentes. 

Os autores desse estudo, Lynda Groton e Andrew Scott, lançaram um livro intitulado A Vida aos 100 Anos, que propõe auxiliar a nos programarmos para uma vida centenária, já que a chance de passarmos esta marca parece ser uma realidade.

O próximo problema a ser enfrentado é a falta de dinheiro para as últimas longas décadas de vida. Segundo os autores, estamos nos aposentando muito cedo e o que juntamos não será o suficiente. Os autores calculam que se quisermos viver com um padrão que seja metade do período antes da aposentadoria, precisamos guardar 10% de nosso salário anual e nos aposentar aos 80 anos para que a independência econômica acompanhe a independência física. 

Groton e Scott propõem que a idade de aposentadoria seja alongada, pois a cada 50 anos o número de proporção de aposentados em relação aos contribuintes dobra. Sugerem, então, que os sexagenários passem a mudar seu raciocínio: em vez de pensar na aposentadoria, que passem a mirar uma promoção. No livro dão preciosas dicas de como um idoso pode se reinventar.