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Número 911,

Sociedade

Opinião

Medo olímpico

por Wálter Maierovitch publicado 28/07/2016 02h08
Às vésperas dos Jogos, o Rio vive no terror do Terror. Mas este não é o aspecto mais negativo da situação
Roberto Castro/ME
Segurança Publica RJ

Cerimônia onde a Força Nacional de Segurança assume a segurança das áreas de competições dos jogos Rio 2016.

Nos Jogos Olímpicos de 1972, realizados em Munique, um comando terrorista pertencente ao grupo conhecido por Setembro Negro, ingressou na Vila Olímpica, sequestrou atletas judeus e exigiu, para liberá-los, a imediata soltura de 200 palestinos presos em cárceres israelenses. Não houve tempo para refletir sobre a proposta de troca, a polícia alemã reagiu rapidamente e morreram 11 atletas israelenses, um policial germânico e cinco terroristas palestinos.

Com a aproximação dos Jogos Olímpicos, um clima de medo paira sobre a Cidade Maravilhosa. Não convém esquecer que o terrorismo ao tempo de Munique era outro: o atual é bem pior. Para começar, o Setembro Negro era uma organização laica, de ideologia socialista e inimigo único.

Hoje, o terrorismo preocupante é o de matriz religiosa fundamentalista wahabita, que se autoproclama Estado Islâmico do Iraque e do Levante e ficou internacionalmente conhecido pelos acrônimos EI ou Daesh. Seus inimigos são os que não professam a sua fé e impedem a formação de um califado voltado a purificar os infiéis: no Iraque e na Síria promove atentados para matar xiitas e sunitas não wahabitas.

O Estado Islâmico repete a comum atitude das organizações terroristas transnacionais, ou seja, privilegia ações simbólicas pela difusão planetária do medo. Como ressaltou Ayman al-Zawahiri, quando era o segundo na hierarquia alqaedista, em certos lugares e ocasiões o ataque confere mídia espontânea. A propósito de ataques seletivos e simbólicos, a Al-Qaeda selecionou as Torres Gêmeas de Nova York e o Pentágono, enquanto o Estado Islâmico, na sua última ação, em 14 de julho, voltou a atacar a França, em Nice, quando do aniversário da Tomada da Bastilha, em 1789.

Os especialistas europeus na matéria alertam que no Ocidente as células do terror, para se implantar e desenvolver, ou, por vezes, permanecer dormentes à espera de ocasião propícia, necessitam infiltrar-se e esconder-se em comunidades ou guetos formados por imigrantes de mesma origem. Em comunidades islâmicas da Bélgica formou-se a célula terrorista ligada ao EI que, em 2015, se deslocou para atacar em Paris e Saint Denis. Da sul-americana Tríplice Fronteira, em 1992 e 1994, e a aproveitar a presença da numerosa comunidade árabe, partiu o grupo terrorista responsável pelos ataques em Buenos Aires à embaixada de Israel e da associação judaica de assistência Amia.

No Rio não existe uma comunidade islâmica fanatizada e permeável à acomodação de uma célula do EI. Ao contrário, existe uma perfeita e salutar integração dos imigrantes e seus descendentes. Por isso as autoridades nacionais apontam como baixa a possibilidade de ações terroristas durante a Rio 2016. O problema a enfrentar diz respeito ao ciberterror.

Um dos legados nefastos de Osama bin Laden foi difundir pelas redes sociais a chamada do “faça você mesmo a sua parte na luta armada contra o Ocidente, independente do apoio da Al-Qaeda”. Assim, informados pelas redes sociais, proliferaram os “lobos solitários”. No Brasil, as autoridades de polícia e de inteligência descobriram uma página de propaganda do grupo Ansar al Khilafah, que seria de brasileiros com perfil filo-EI.

A propaganda via ciberterror incentiva ações escoteiras. Por outro lado, são baixas as chances de envio ao Rio de brasileiros treinados nos campos de adestramento do EI, se é que eles existem. De todo modo, apesar dos cuidados e da cooperação internacional entre agências de inteligência, o sentimento de medo apossou-se da maioria dos cariocas que estão, como revelam levantamentos, descontentes com a escolha de sua capital como sede dos Jogos. Para se ter uma ideia do pavor reinante, nesta semana, no bairro do Leblon, uma mala com roupas sujas e velhas deixada na calçada causou grande agitação, parou o trânsito e fez muitas pessoas deixarem às pressas as suas residências, por temor da explosão de uma bomba.

A penúria do estado e a situação trágica nos hospitais públicos cariocas contribuem para o clima de pessimismo, abatimento e medo. Não bastasse isso, a violência cresce e está sendo abandonado, por falta de recursos materiais e humanos, o certeiro projeto idealizado pelo secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame. Na sua execução, foram reprimidas as organizações criminosas, houve recuperação de territórios governados pela bandidagem e, também, a retomada do controle social pelo Estado. No momento, tudo está indo água abaixo.