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Número 911,

Internacional

Turquia

Golpismo, um "presente de Deus" a Erdogan

por José Antonio Lima publicado 22/07/2016 11h35, última modificação 24/07/2016 08h31
A tentativa de golpe fortalece Erdogan, que amplia a perseguição ao Hizmet, a quem acusa de montar a conspirata
Bulent Kilic / AFP
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Erdogan seca as lágrimas durante funeral em Istambul em 17 de julho. Sua fúria é direcionada aos gulenistas

De Bruxelas

Em uma democracia, não podemos deixar de lado as demandas da população. Essa foi a resposta do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, a centenas de pessoas que, em um funeral realizado na mesquita Altunizade, em Istambul, no domingo 17, pediam a execução dos envolvidos na tentativa de golpe de Estado deflagrada na sexta-feira anterior.

Aos prantos, cercado por uma multidão e falando em um microfone, Erdogan prometia estar ao lado de seus seguidores. “Juntos, nós vamos lidar com eles”, afirmou. O clima no enterro de Erol Olçak, amigo e aliado antigo de Erdogan, exprimia o sentimento de muitos apoiadores do presidente eleito: é hora da desforra.

Erdogan nega que o putsch ensejará uma vingança por parte do governo, mas suas ações indicam o contrário. Desde o fracassado levante, que deixou 290 mortos, uma centena deles golpistas, um vultoso expurgo está em curso. Mais de 58 mil pessoas foram afetadas, sendo demitidas, suspensas, afastadas de seus cargos ou simplesmente presas. Militares, policiais, juízes e, principalmente, profissionais da educação são os grandes alvos. Muitos vão a julgamento e alguns podem enfrentar a prisão perpétua. A pena de morte, prescrita na Turquia em 2004, pode ser reinstituída.

Chamou atenção a rapidez com que Erdogan conseguiu reagir ao golpe. Para Johannes Hahn, comissário da União Europeia responsável pelas negociações de entrada da Turquia no bloco, o governo turco estava de prontidão. “As listas (do expurgo) estavam disponíveis, o que indica que foram preparadas para ser usadas em certo estágio”. Erdogan não escondeu isso. “Esta rebelião é um presente de Deus para nós”, afirmou. “Pois será um motivo para limpar nosso Exército.”

O alvo principal da “limpeza” proposta por Erdogan é o Hizmet, movimento social e religioso nascido na Turquia, mas hoje presente no mundo todo. Em discursos na semana que passou, Erdogan referiu-se ao Hizmet como “vírus” e “câncer” e defendeu que o ideólogo do movimento, Fethullah Gülen, seja extraditado pelos Estados Unidos, onde vive em autoexílio desde 1999.

Até aqui, não há evidências de que Gülen ou seus seguidores tenham sido os líderes da conspiração. A tese, entretanto, não é considerada absurda por observadores da Turquia. Um exemplo é Mustafa Akyol, jornalista e autor do livro Islam without Extremes: A Muslim Case for Liberty. Em sua coluna no jornal The New York Times, Akyol classificou como "muito provável" a participação de gulenistas no golpe.

O próprio Gülen disse não poder excluir essa possibilidade. Em uma rara entrevista à imprensa internacional, concedida no sábado 16, o imã afirmou não saber exatamente quem são seus seguidores. “Como não conheço esses indivíduos, não posso falar sobre seu potencial envolvimento”, afirmou.

Pôster de Fethullah Gulen
Apoiador de Erdogan pisa sobre pôster de Fethullah Gülen em ato pró-AKP em Istambul, em 18 de julho (Foto: Ozan Kose / AFP)

O certo é que a perseguição ao Hizmet por parte de Erdogan não é uma novidade. Desde 2013, o homem forte da política turca vem caçando pessoas ligadas ao movimento de maneira incessante. Diante deste cenário, organizações filiadas ao Hizmet têm procurado tornar a pressão do governo turco mais visível para a comunidade internacional.

No caso do Brasil, esse trabalho cabe ao Centro Cultural Brasil Turquia, que entre 26 de maio e 3 de junho organizou uma viagem com jornalistas brasileiros para a Alemanha, a Bélgica e a Holanda, na qual CartaCapital embarcou para entrevistar mais de três dezenas de pessoas ligadas ao Hizmet. O quadro que emerge da passagem pela Europa mostra as diversas faces do movimento e sua impressionante complexidade.

O que é o Hizmet?

Selma Ablak não conversa mais com seu irmão. No último encontro, em um hospital de Amsterdã no qual a mãe estava internada, ele fez um comentário que a indignou. “Como você pode continuar no Hizmet? Eles são terroristas”, disse. Foi uma pergunta incômoda, não apenas por ser feita no leito da mãe. Ao atacar o Hizmet, o irmão atingiu o estilo de vida de Ablak e a causa à qual ela se dedica. Além de um ataque político, foi uma ofensa pessoal. “Desde então, não falo mais com ele”, diz.

O racha na família de Ablak é exemplo de uma tensão que vem tomando conta das comunidades turcas na Europa. Trata-se de um reflexo do que ocorre na Turquia. Em meio ao que analistas avaliam como uma guinada autoritária, Erdogan tem o Hizmet como um de seus principais alvos.

Erdogan é personagem central da história da Turquia desde 2003, quando se tornou primeiro-ministro. Sua ascensão coincide com a do Partido Justiça e Desenvolvimento, o AKP. Originalmente, os fundadores do AKP, Erdogan incluído, eram adeptos do chamado Islã político, ideologia segundo a qual a religião é um sistema capaz de resolver qualquer problema político, econômico ou social criado pela modernização. Ao ser formado, em 2001, o AKP abandonou esse discurso e passou a pregar posições pró-Ocidente e pró-livre mercado ao mesmo tempo que defendia um firme conservadorismo social.

A receita foi um sucesso. Apostando em uma base social formada pela massa de muçulmanos praticantes que por décadas foram excluídos e oprimidos pelas elites seculares dominantes desde a fundação da Turquia (em 1923), o AKP chegou ao poder. Nascia ali o que Erdogan viria a chamar de “Nova Turquia”. Internamente, era um país no qual os religiosos conservadores podiam, finalmente, prosperar economicamente e ganhar poder político. Externamente, a Turquia e Erdogan, apresentavam-se como modelo de conciliação entre o Islã e a democracia.

Para construir essa "Nova Turquia", Erdogan teve muitos aliados, e o Hizmet foi fundamental. Assim como o AKP, o movimento tem sua base social entre os milhões de muçulmanos praticantes da Turquia.

Ativo há mais de 30 anos, o Hizmet é resultado dos ensinamentos de Gülen, 75 anos, que desde 1999 vive em autoexílio na minúscula Saylorsburg, na Pensilvânia (Estados Unidos). Esse imã muçulmano deixou a Turquia em meio a um julgamento no qual era acusado de conspirar para transformar o país em um estado islâmico. 

Em um vídeo de 1986, divulgado nos anos 1990 e cujo contexto teria sido distorcido, segundo Gülen, o líder religioso prega que seus seguidores com “posições em órgãos legislativos e administrativos aprendam seus detalhes e estejam atentos o tempo todo para que possam transformá-los e serem mais proveitosos em nome do islã, a fim de levar a cabo a restauração nacional.” 

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Gülen em imagem de 2013: ele inspira os seguidores do Hizmet (Foto: Selahattin Sevi / Zaman Daily / AFP)

Não era uma acusação banal. Desde 1960, a Turquia sofreu quatro golpes de Estado, e em todos eles os militares adentraram a cena política alegando a necessidade de restaurar os princípios laicos estabelecidos pelo “pai dos turcos”. Mustafa Kemal, o Atatürk, foi o responsável por esculpir a Turquia atual em meio à dissolução do Império Otomano no fim da Primeira Guerra Mundial e inventou um país ocidentalizado, no qual manifestações religiosas eram, basicamente, banidas da vida pública.

O mais recente dos golpes ocorreu em 1997, quando os militares divulgaram um memorando com exigências ao governo. Foi o que bastou para o primeiro-ministro islamista eleito no ano anterior renunciar. A acusação de subverter os princípios fundadores turcos é a mesma usada contra Erdogan na sexta-feira 15.

Gülen sempre negou ter uma agenda islâmica oculta ou um projeto político para a Turquia. Mas ao migrar para os Estados Unidos deixou para trás o embrião de um movimento que se tornaria um colosso e ganharia enorme influência.

O Hizmet não tem uma organização central, hierarquia definida, um caixa central ou filiação formal, mas a rede ligada ao movimento conta, entre outras coisas, com cerca de mil instituições de ensino em mais de 160 países; dezenas de veículos de imprensa; diversos think tanks, centenas de organizações humanitárias, algumas gigantes, como a Kimse Yok Mu, conhecida por sua atuação em áreas de desastres naturais; um banco islâmico sediado na Turquia (o Bank Asya); e uma significativa gama de companhias, holdings e associações comerciais que financiam as obras do movimento.

Como Gülen conseguiu isso? Segundo seus seguidores, inspirando as pessoas a tornar o mundo melhor. “A pessoa de Gülen é inspiração para o diálogo e desde o princípio percebi que o movimento é muito aberto”, diz Selma Ablak, diretora da Zijn, Plataforma de Mulheres da Holanda, grupo dedicado a ampliar a participação econômica, social e política das mulheres holandesas.

Nascida em Amsterdã, filha de imigrantes turcos, Ablak esteve em grupos religiosos antes do Hizmet, mas logo se distanciou. “Eram radicais e hostis aos não muçulmanos.” Para Ablak, o Hizmet é uma manifestação do que chama de Islã cultural, na qual a religião tem um papel limitado na vida política, mas fundamental na vida pessoal. “Eu tinha tudo, estudos, trabalho, uma boa família, mas sentia que faltava algo espiritualmente, e aqui encontrei.”

Selma Ablak
Selma Ablak: perseguição ao Hizmet dividiu sua família (Foto: Kamil Ergin)

Herdeiro do pensamento de Said Nursi (1877-1960), teólogo curdo que advogava a convivência entre a religião e a ciência moderna, Gülen prega o diálogo inter-religioso, um Islã tolerante capaz de coexistir com sistemas democráticos e um comportamento individual pautado pelo trabalho duro, a busca pela prosperidade e pelo altruísmo. “O problema do mundo não é econômico ou ecológico, mas é o egoísmo das pessoas”, diz Abdullah Aymaz, jornalista, amigo de Gülen e seguidor de seu pensamento.

Aymaz, de 67 anos, recebeu a reportagem em seu escritório na sede do jornal Zaman Almanya em Offenbach am Main, nas cercanias de Frankfurt. Com três das quatro paredes e uma enorme e bagunçada mesa de madeira repletas de livros, entre os quais se destacam uma biografia de Said Nursi e uma cópia do Alcorão, Aymaz discorre sobre as relações entre governos e sociedades e as agruras do mundo.

Para ele, a pobreza e os conflitos são reflexos da educação precária oferecida às populações e, por isso, o objetivo final do Hizmet é educar as pessoas e “mudar seus corações”. “Diante de uma sociedade educada, o governo deve responder, e não ordenar”, afirma.

A educação é a principal ferramenta de engenharia social do Hizmet. Não à toa, estão entre os principais alvos de Erdogan, que busca acabar com a presença e a influência do movimento.

Entre as primeiras instituições inspiradas por Gülen estão escolas preparatórias para o vestibular. Financiadas por pequenos empresários e administradas por educadores, as escolas logo produziram seus primeiros universitários e graduados que, com o passar dos anos, devolveram seu tempo e dinheiro ao projeto, fomentando a criação de novas entidades.

Nos anos 1980, essas instituições existiam apenas na Turquia, mas após a dissolução da União Soviética o Hizmet se expandiu para países etnicamente próximos da Turquia, como Azerbaijão, Tajiquistão e Turcomenistão. Hoje, a rede chega ao mundo inteiro, e vai dos Estados Unidos, onde há cerca de 120 escolas até a China, passando por inúmeros países africanos, asiáticos e europeus. No Brasil, o movimento mantém o Colégio Belo Futuro, em Santo Amaro, São Paulo, e tem uma parceria com o governo estadual do Rio de Janeiro em um projeto chamado Ensino Médio Intercultural Brasil-Turquia.

Adbullah Aymaz
Adbullah Aymaz: o Hizmet aposta na educação e em um trabalho de longo prazo para crescer (Foto: Kamil Ergin)

O sucesso educacional do Hizmet reside na adaptação ao contexto local onde as escolas são instaladas. Em 2008, o jornal The New York Times fez uma reportagem mostrando como funcionava uma escola ligada ao movimento no Paquistão. O currículo era ocidentalizado e havia uma única matéria de estudos islâmicos, exigência do governo local.

Fora das aulas, os professores encorajavam a prática de um islã moderado, o que era bem visto pelos pais dos alunos. No Paquistão, conhecido por casos de extremismo religioso, muitos desejam que seus filhos aproveitem o avanço científico do Ocidente sem perder a identidade local, em grande medida baseada na religiosidade.

No mundo ocidental, o comportamento é diferente. No caso da Europa, onde a diáspora turca chega a 13 milhões de pessoas, há uma tentativa de unir descendentes de turcos e nativos, que estudam juntos, e não há qualquer ênfase no ensino religioso. Os currículos e o financiamento das escolas, geralmente instituições particulares que recebem recursos públicos, seguem as regras dos governos locais.

A intenção é fazer com que os imigrantes prosperem nas sociedades em que estão inseridos sem perder as raízes turcas. “Aqui, a comunidade não acreditava que os turcos pudessem prover educação, pois muitos acham que chegamos apenas para trabalhar”, disse à reportagem Murat Arslan, professor do Gymnasium & Realschule Dialog. A escola de Colônia é uma das 30 instituições de ensino ligadas ao Hizmet existentes na Alemanha.

Arslan recebeu a reportagem em um sábado ensolarado. Sobre a mesa do refeitório dos alunos havia doces, refrigerantes e água, todos de fornecedores turcos. Perfeitamente barbeado e penteado, usando sapatos e roupas sociais, Arslan e outros professores monitoravam as atividades de alguns poucos estudantes que estavam na escola naquele dia.

O colégio, inaugurado em 2007 e com 450 alunos secundaristas matriculados, fica aberto no fim de semana para quem precisa. Tanto a instituição quanto os professores (20% dos quais são turcos) buscam servir de referência para os estudantes. “Aqui os alunos têm acompanhamento individual e os professores são escolhidos com base no alinhamento ao pensamento da escola, que é o de enfatizar os valores universais”, diz.

Com planos de chegar a 750 alunos matriculados, a Dialog está construindo um novo prédio vizinho a sua sede atual e, de acordo com Arslan, se financia por meio de doações e das mensalidades, quase que totalmente subvencionadas por recursos públicos do governo local.

Na Alemanha, não há indícios conhecidos de irregularidades envolvendo as escolas do Hizmet, mas nos Estados Unidos, onde a transparência das chamadas charter schools (particulares que funcionam com dinheiro público) é precária, houve acusações.

Em 2011, por exemplo, auditorias mostraram que algumas escolas do Hizmet, receptoras de recursos públicos, estavam direcionando contratos para empresários do Hizmet mesmo diante de ofertas mais baratas. Em 2014, o FBI, a polícia federal dos EUA, abriu investigação contra escolas do Hizmet por supostamente privilegiarem fornecedores do movimento na expansão dos serviços de internet dos colégios, também pagos com dinheiro de impostos.

Casos como esse colocam sob os holofotes a pouca transparência do movimento, aspectos controversos do grupo que ajudam a entender a disputa dos gulenistas com o governo Erdogan.

O Hizmet e o AKP rompem

O dia 17 de dezembro de 2013 mudou a história recente da Turquia. Naquela data, forças policiais realizaram uma operação policial que levou para a cadeia 52 pessoas, a maioria ligada ao AKP, partido de Erdogan. O objeto da investigação era um esquema bilionário que envolvia a compra de gás e petróleo do Irã com ouro, burlando as sanções econômicas impostas a Teerã pelos Estados Unidos. Entre os alvos dos investigadores estavam os filhos de três ministros, o diretor do Halkbank, um banco estatal, e diversos empresários.

Áudios vazados para a imprensa mostravam os envolvidos falando abertamente sobre propina e milhões de dólares guardados em caixas de sapatos. Dois meses depois, o escândalo atingiu Erdogan em cheio. Arquivos divulgados anonimamente na internet mostravam conversas de Erdogan com um de seus filhos, Bilal, aparentemente orientando-o a esconder dinheiro vivo que tinha guardado em casa. Erdogan admitiu que foi grampeado, mas afirmou que as gravações eram montadas.

A resposta do governo à ofensiva policial foi acintosa. Antes mesmo de ser envolvido diretamente no escândalo, Erdogan determinou o afastamento de 350 policiais de seus postos, incluindo alguns chefes de unidades, como as de crimes financeiros e crime organizado, que investigaram a troca de ouro por petróleo. Erdogan, então, voltou seu foco para o Hizmet e passou a acusar o movimento de se infiltrar na polícia e no Judiciário. Aos poucos, seu governo foi construindo a tese de que os gulenistas preparavam um golpe de Estado na Turquia.

Favoreceu Erdogan a pouca transparência do Hizmet, manifesta na reclusão de Gülen, na dificuldade de se entender a relação exata dos seguidores com o movimento e nas finanças obscuras. Em um país marcado por golpes e no qual vicejam teorias conspiratórias, o Hizmet ficou à mercê de uma campanha que mistura especulações, verdades e suspeitas inverificáveis.

O caso da “infiltração” na polícia exemplifica as sombras que pairam sobre o Hizmet. Em um cabo diplomático de 2009, James Jeffrey, então embaixador dos EUA em Ancara, afirma ser “impossível confirmar” a informação de que a polícia turca era controlada por gulenistas. “Mas não encontramos ninguém que conteste isso”, escreve. 

Em 2013, nasceu uma ofensiva vasta contra o Hizmet que abarca diversas frentes. Os policiais e promotores que investigaram a corrupção na troca de ouro por petróleo foram presos, banidos de suas profissões e respondem acusações de integrar a Organização Terrorista Fethullahista. O complexo financeiro do Hizmet também vem sendo desmontado. As bilionárias holdings Koza İpek e Kaynak tiveram dezenas de empresas tomadas pelo governo, mesmo destino do Bank Asya.

Um alvo preferencial de Erdogan é o braço midiático do Hizmet, altamente crítico de seu governo desde 2013. Nos últimos dois anos, diversos jornalistas foram presos e os jornais Zaman (o maior da Turquia), Today’s Zaman (sua versão em inglês), Bugün e os canais de tevê Samanyolu e Kanaltürk foram fechados ou tomados por interventores do Estado, incumbidos de dar a eles um tom laudatório ao governo.

A perseguição aos veículos de imprensa do Hizmet foi uma ironia do destino. Em dezembro de 2014, quando os diretores do Zaman e da Samanyolu foram presos acusados de terrorismo, o jornalista Ahmet Sik afirmou que os gulenistas “serviram ao fascismo há alguns anos, mas o que aconteceu com eles também é fascismo”.

Por trás do comentário de Sik estão dois casos judiciais conhecidos como Sledgehammer, de 2003, e Ergenekon, de 2007. Esses eram os nomes de duas supostas organizações clandestinas que, conforme as acusações, teriam tramado a derrubada do governo Erdogan. Militares, parlamentares, jornalistas e empresários estariam por trás das conspirações. Os julgamentos, nos quais oficiais de alta patente acabaram condenados, foram decisivos na consolidação do afastamento das Forças Armadas da política turca.

O resultado dos julgamentos não foi integralmente positivo, pois os trâmites legais foram marcados por denúncias de irregularidades e abusos. No caso Sledgehammer, o jornal Zaman foi acusado de publicar informações falsas deliberadamente. No Ergenekon, em determinado momento o número de réus chegou a 275 e entre eles estavam diversas pessoas que ficaram detidas anos sem julgamento.

Entre eles estava Ahmet Sik, que escrevera um livro investigativo a respeito de Fethullah Gülen, intitulado O Exército do Imã. Outro caso famoso é o de Nedim Sener, também jornalista. Ele foi preso acusado de entregar o Ergenekon no momento em que investigava um policial ligado ao Hizmet por suspeita de assassinato.

Esses e outros casos semelhantes indicam que o Sledgehammer e o Ergenekon foram usados como um acerto de contas contra adversários do AKP e do Hizmet, então muito próximos. Talvez não por coincidência, o rompimento entre o partido e o movimento provocou a ruína dos inquéritos judiciais. Por causa das irregularidades, todas as condenações acabaram revertidas nos dois últimos anos.

O comportamento do Hizmet no período dos julgamentos serviu como uma espécie de lição ao movimento. Naquele período, os veículos de imprensa de oposição destacaram as falhas e abusos nas investigações e julgamentos, mas a imprensa gulenista, em especial o Zaman, enfatizou a ameaça representada pelos acusados. Hoje, essa atuação é vista como equivocada.

“Um jornalista que diz que seu jornal nunca cometeu erros está mentindo”, diz Selçuk Gultasli, ex-editor do Zaman. Em Bruxelas, no escritório do Zaman Vandaag, a versão belga do jornal, Gultasli refletiu sobre a cobertura do Ergenekon em conversa com a reportagem. “Observando em perspectiva, (se pudéssemos reviver aquele período) focaríamos os direitos dos acusados e teríamos a cabeça mais fresca para reportar os fatos”, afirma. Para Gultasli, o jornal falhou também ao apoiar Erdogan, acreditando que ele poderia fazer da Turquia um país democrático. Agora, diz o jornalista, fica claro que essa nunca foi a intenção. E quem experimenta a ira do governo é o próprio Hizmet.

Selçuk Gultasli: erros foram cometidos, mas qual jornalista pode dizer que nunca errou? (Foto: Kamil Ergin)

Após a tentativa de golpe, o apoio do Zaman e do Hizmet como um todo a Erdogan será provavelmente objeto de profunda reflexão no movimento. O presidente, que já vinha se posicionando como líder único da Turquia, saiu fortalecido do episódio.

Erdogan, ainda mais poderoso

Por pouco, o presidente da Turquia não foi preso ou assassinado. Na noite de sexta-feira 15, Erdogan fugiu de um hotel em Marmaris, no sudoeste da Turquia, onde passava férias, minutos antes de duas dezenas de homens armados invadirem o local.

De avião, seguiu para Istambul e o voo só não foi abatido por caças pilotados por golpistas porque eles teriam sido enganados sobre a presença de Erdogan na aeronave. Pelo Facetime, aplicativo da Apple, o presidente entrou ao vivo em um canal de tevê para conclamar a população a ir às ruas combater o golpe. Ao pousar na maior cidade do país, Erdogan foi recebido por uma multidão, que, insuflada por Erdogan e pela rede estatal de mesquitas, ajudou as forças de segurança a conter o ímpeto golpista.

Depois deste périplo, Erdogan está pronto para ser, cada vez mais, uma figura com poder sem paralelo na Turquia. Desde 2014, quando deixou o posto de primeiro-ministro e foi eleito presidente, Erdogan trabalha para o país substituir o sistema parlamentarista pelo presidencialista. Nesta empreitada, críticos e adversários políticos foram atingidos, na política, na mídia, no Judiciário e na sociedade civil. Nem todos têm ligação com o Hizmet, mas a maioria acaba acusada de terrorismo. 

No último 8 de junho, Erdogan assinou um decreto realocando e substituindo, de uma só vez, 3,7 mil juízes e promotores. Entre eles, Murat Aydin, membro do ministério público turco que desafiou o artigo do Código Penal local segundo o qual é crime “insultar o presidente”. Promotores que abriram processos com base nesse artigo, em contrapartida, foram promovidos.

De acordo com o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), a Turquia é o quarto país com mais jornalistas presos (atrás de China, Egito e Irã). Um caso simbólico tem chamado a atenção da imprensa internacional: Can Dündar e Erdem Gül, repórteres do oposicionista Cumhuriyet, podem ser condenados à prisão perpétua por revelar como a inteligência turca abastecia rebeldes sírios com armas e equipamentos militares. O jornal para o qual trabalham não tem qualquer ligação com Hizmet, mas Erdogan os acusa de ajudar o que diz ser a “rede terrorista” de Gülen.

Para opositores de Erdogan, a pressão do governo contra a oposição serve, entre outras coisas, para esconder o caso de corrupção desbaratado em 2013. Com as mudanças no Judiciário e na polícia, todas aquelas ações foram descartadas, mas recentemente as autoridades dos Estados Unidos demonstraram que o caso era verdadeiro.

Em março, foi detido em Miami o negociador de ouro Reza Zarrab, um dos presos em 2013. Diante de um juiz norte-americano, Zarrab ofereceu 50 milhões de dólares como fiança, mas os promotores rejeitaram a proposta. Na argumentação ao juiz afirmaram que, se fosse solto, Zarrab seria protegido pelo governo turco. Como evidências, os promotores acusam Zarrab de subornar três ministros turcos e o diretor do Halkbank para burlar as sanções contra o Irã: exatamente a mesma acusação feita pelas autoridades da Turquia há quase três anos. Além disso, afirmam os promotores, Zarrab doou 4,5 milhões de dólares para uma ONG comandada por Emine Erdoğan, mulher do presidente da Turquia.

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Apoiadores de Erdogan celebram o fracasso do golpe na praça Taksim, em Istambul, em 18 de julho (Foto: Ozan Kose / AFP)

Em grande medida, o crescente autoritarismo de Erdogan é apoiado por parte significativa da população, provocando um racha na sociedade local, em particular entre os eleitores do AKP e os seguidores do Hizmet. Essa tensão atinge duramente a diáspora turca na Europa, como a reportagem presenciou. Há famílias cindidas, como a de Selma Ablak, e pressão econômica. A escola Dialog de Colônia perdeu alunos cujos pais são pró-Erdogan, e a circulação do jornal Zaman Vandaag na Bélgica despencou de 5 mil exemplares para 2 mil. Muitas ONGs também viram suas doações por parte da comunidade turca cair. A tentativa de golpe, e a perseguição renovada, só farão agravar a situação. 

Para o Hizmet, o contexto não deixa muitas alternativas. Como estratégia de sobrevivência, os gulenistas têm ampliado sua internacionalização. Gürkan Çelik, membro do Hizmet e integrante da Fundação Amizade Holanda-Turquia, baseada em Amsterdã, avalia que isso obrigará o movimento a reafirmar seu pacifismo, contrapor as críticas de que seria uma seita de adoradores de Gülen e ser menos opaco ao mundo externo.

Além disso, diz Çelik, que detém uma extensa pesquisa acadêmica sobre o grupo, o Hizmet precisa ter claro qual sua relação com a política. “O Hizmet faz escolhas que não são partidárias, mas elas se dão na arena política”, diz. “Agora o movimento tem a chance de dizer mais sobre si próprio, sobre suas atividades e de ser mais transparente.”

Para a Turquia, o momento é decisivo. A defesa das instituições feita pela população diante do golpismo indica que os valores democráticos têm terreno fértil na sociedade turca. É preciso saber, entretanto, como, e se, é possível conciliá-los com um líder superpoderoso, herói das massas e, agora, sobrevivente de um golpe.

*Uma versão reduzida desta reportagem foi publicada originalmente na edição 911 de CartaCapital, com o título "Um presente de Deus"

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