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Número 910,

Sociedade

Brasiliana

Tempo de ser criança

por Liana Amaral — publicado 28/07/2016 02h08
Projeto usa arte para devolver a infância a filhos de refugiados em fase de adaptação
Liana Amaral
Refugiados

Misam, Meenas e Hanan. Dos 9 mil refugiados residentes no Brasil, cerca de 5% vivem na infância

São dois os tipos de viajantes, os que viajam para fugir e os que viajam para buscar, definiu o escritor Erico Verissimo. Os angolanos Afia, Jael e Celma e a síria Hanan, cujos sobrenomes as famílias preferem não divulgar, pertencem ao segundo grupo. São filhos de refugiados que depois de enfrentar uma jornada angustiante chegaram ao Brasil na esperança de um recomeço longe da guerra e da fome.

Ao lado de outras meninas e meninos entre 3 e 12 anos de diversas nacionalidades, eles formam o Coro Infantil Coração Jolie, iniciativa do recém-criado projeto Arte como Refúgio, parceria entre o Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e a ONG brasileira I Know My Rights (IKMR, Eu Conheço Meus Direitos).

Com entusiasmo suficiente para enfrentar a chuva e o frio de uma manhã paulistana de inverno, rostos sorridentes e vozes afinadas deram significado especial aos versos de uma música dos mineiros Jota Quest a prenunciar uma caminhada ensolarada.

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Vitória e Rafael com Vivianne Reis (Liana Amaral)

A canção O Sol integra o repertório do coral e inaugurou a série de atividades semanais que a partir de agosto o programa Arte como Refúgio vai oferecer às crianças da IKMR, a incluir oficinas de arte, dança, contação de histórias e prática de esportes. A iniciativa tem a colaboração de professores e alunos do Centro Universitário Belas Artes e será realizada na instituição, na Vila Mariana.

Com quatro anos de atividades, a IKMR atende cerca de 300 crianças, de 0 a 12 anos, oriundas de países assolados por guerras, pobreza e violência. A maior parte das atividades, como o coral, cujo nome é homenagem ao trabalho da atriz Angelina Jolie, passeios mensais com as famílias e a futura programação do Arte como Refúgio ocorre em São Paulo, cidade que reúne o maior contingente de famílias nessa condição no País.

A ONG também promove ações para crianças acolhidas no Rio de Janeiro, em Porto Alegre e Manaus. Os recursos são provenientes de doações individuais e da iniciativa privada e, a partir deste ano, de apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados.  

Segundo o Comitê Nacional de Refugiados, organismo ligado ao Ministério da Justiça, o Brasil tem quase 9 mil refugiados reconhecidos, de 79 nacionalidades. Entre 2010 e abril deste ano, o número de pessoas nessas condições cresceu 127% no território nacional. “As crianças representam cerca de 5% desse total e vivem em situação de grande vulnerabilidade, sem poder usufruir dos direitos da infância reconhecidos em tratados internacionais”, afirma Vivianne Reis, criadora e diretora da IKMR. 

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Aisha, Helga, Luis e Afia. (Liana Amaral)

Os sírios formam a maior comunidade de refugiados no Brasil, com cerca de 2,3 mil pessoas, a maior parte estabelecida em São Paulo. As crianças sírias também representam o maior grupo atendido pela IKMR. Embora tenham de enfrentar a barreira do idioma, aprendem rápido o português e costumam ajudar os pais na comunicação em seu novo país.

Na festa realizada no auditório do Centro Belas Artes, cheia de doces, sanduíches e pipoca, as crianças se divertiram sem inibição e demonstraram grande capacidade de adaptação. Divino e Aurelie, da República Democrática do Congo, compartilharam com Afia, Jael e Celma o encantamento pelos balões torcidos em múltiplas formas. Há um ano no Brasil, Afia mora com a mãe e dois irmãos em Ermelino Matarazzo, zona leste.

O pai permanece em Angola, situação bastante comum entre as famílias sem recursos para as despesas de viagem de todos os parentes. Ela frequenta uma escola estadual, participa do coral e declara seu amor pelo país que a acolheu, mesmo sentimento do garoto Jael e da recém-chegada Celma, para quem “aqui é bem longe, mas é melhor”.

Com um ano de Brasil, Misam, de 13 anos, fala português com fluência e pouco sotaque. Traz ainda forte na lembrança uma das muitas cenas presenciadas na Síria. “Vi uma bomba explodir perto de casa.”

A família, pai, mãe e um irmão, vive agora de um pequeno negócio de comida árabe em São Paulo e respira aliviada por ter deixado a guerra para trás. Uma das provas de adaptação completa ao País é a nova preferência gastronômica de Misam, “coxinha e pão de queijo”.

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Divino e Aurelie. (Liana Amaral)

É com português fluente e entonação enfática que Hanan, 11 anos, conta sua história. A garota síria de traços marcantes e sonho de se tornar jornalista relata o difícil percurso da família até chegar ao Brasil, em fevereiro de 2015. A jornada incluiu dois anos e meio num campo de refugiados na Jordânia, onde nasceu sua irmã mais nova. “Lá faltava tudo, água, comida, fraldas, era horrível.”

Agora, ela tem memórias bem mais alegres para guardar. No dia 3 de maio, em Brasília, Hanan foi uma das primeiras condutoras da Tocha Olímpica e sua história ganhou destaque na mídia. “Você já não conhecia meu nome?”, pergunta, orgulhosa.