Você está aqui: Página Inicial / Revista / Moralistas imorais / O racismo aflige Obama
Número 910,

Internacional

EUA

O racismo aflige Obama

por Eduardo Graça — publicado 22/07/2016 01h19
O primeiro presidente negro norte-americano chega ao fim de mandato com muitas vitórias e um tormento
Jonathan Bachman/Reuters/Latinstock
Baton Rouge, Louisiana

Manifestante cool não se deixa levar pela persuasão encouraçada dos policiais brancos, em protesto contra o racismo, em Baton Rouge, Louisiana

*De Nova York

Barack Obama usou os últimos anos de seu segundo mandato como poucos presidentes da história moderna dos Estados Unidos. Ignorou ao mesmo tempo o termo político “pato manco” e a maioria republicana nas duas Casas do Congresso e virou de pernas para o ar as relações de Washington com Havana e Teerã.

Espécie de Ronald Reagan às avessas, na imagem criada pelo economista e articulista Paul Krugman, o primeiro presidente negro foi o que mais modificou o país em suas entranhas desde a reação conservadora do ex-ator e governador da Califórnia nos anos 1980.

No entanto, o semblante abatido e sua transformação em dublê de bombeiro-geral da nação em eventos públicos esta semana escancaram aquele que é provavelmente seu maior fracasso em quase oito anos na Casa Branca: dar a cerca de 14% dos habitantes do país a certeza de não serem cidadãos de segunda classe.

O atentado do dia 7 em Dallas, em que um reservista negro matou cinco policiais e feriu outros 11 cidadãos no meio de um protesto pacífico de diversos grupos contrários à ação brutal da polícia contra negros nos últimos anos nos EUA, levou Obama a iniciar uma campanha informal de união nacional e diálogo em torno das relações étnicas no país.

Nas eleições de 2008 ele apresenta o “sim, nós podemos” ao lado de outro slogan poderoso: o de ser o candidato não dos estados azuis (cor dos democratas) ou vermelho (republicanos), dos negros ou dos brancos, e sim “de todos os Estados Unidos”.

As profundas tensões entre a polícia e a comunidade negra nos EUA devem aumentar nos próximos dias. Não apenas porque estamos tratando de problemas palpáveis, mas também pelas profundas divisões que temos acerca de como resolvê-los. Não há dúvida de que a polícia se sente injustamente tratada e acuada pelos movimentos sociais.

E, por outro lado, os negros acreditam que está simplesmente demorando tempo demais para se fazer o que é certo. Precisamos sentar como uma nação só, nos unir e resolver esses problemas, disse Obama, em uma reunião na quarta-feira com líderes de movimentos de grupos étnicos minoritários e de policiais.

O encontro foi uma resposta da Casa Branca à pressão de grupos como o Black Lives Matter (BLM), criado há dois anos, depois de os primeiros casos de violência policial contra cidadãos negros serem denunciados nas redes sociais.

Na ocasião, depois de manifestações que levaram milhares de pessoas às ruas de todos os EUA, Obama formou um grupo de especialistas para lidar com o tema e prometeu criar uma ponte entre a polícia e as comunidades negras país afora. Os casos, no entanto, só aumentaram e, na semana passada, outros dois negros, nos estados de Louisiana e Minnesota, foram mortos por policiais brancos em situações pouco ortodoxas. 

A tensa reunião de quatro horas em Washington não diminuiu as críticas do BLM, que queria Obama visitando as famílias das vítimas nos dois estados da América Profunda, imediatamente depois de prestar tributo aos policiais assassinados no Texas.

A discórdia, de acordo com os números, só aumentou. Pesquisa divulgada esta semana pelo New York Times/CBS informa que 69% dos americanos acreditam que as relações étnicas no país estão em estado preocupante, níveis idênticos aos da época dos levantes populares iniciados em 1992 depois do caso de Rodney King e da absolvição dos policiais acusados de atacá-lo em Los Angeles.

Mais: 60% dos americanos acreditam que a situação está se deteriorando, aumento significativo em relação aos 38% do ano passado em pesquisa idêntica. Ao contrário do que afirmou Obama no memorial em Dallas, os americanos se mostram, sim, estar “mais divididos do que parece”.

E os dois candidatos majoritários à sucessão de Obama – sua ex-secretária de Estado Hillary Clinton e o bilionário Donald Trump – são vistos, de acordo com as mesmas pesquisas, pela esmagadora maioria da população, como figuras que refletem mais a crescente polarização do país do que atores capazes de diminuir as tensões entre negros e brancos. Trump anuncia o companheiro de chapa neste fim de semana, às vésperas da convenção republicana, que começa na segunda-feira 18.

Até o fechamento desta edição, sua lista estava reduzida a três nomes, incluindo o azarão sulista Newt Gingrich, que exerceu nos anos Clinton posto equivalente ao de presidente da Câmara no Brasil, mas hoje afastado da cúpula do partido, e o governador de New Jersey, Chris Christie.

Mas o franco-favorito é o governador moderado de Indiana, Mike Pence, que, se confirmado, revelaria uma estratégia, apesar do avanço nas pesquisas, mais de defesa do que de ataque de Trump na batalha de novembro.

Ao contrário de Pence, Christie governa um estado com número significativo de minorias étnicas e poderia servir de antídoto para Trump na tentativa de reduzir o tamanho da enxurrada de votos de negros e latinos para Hillary. Indiana é um estado que pende para a direita e só saiu do roteiro em 2008, quando Obama venceu pela margem de erro.

Comparado pelos adversários ao ex-governador segregacionista do Alabama George Wallace, especialmente por sua retórica de “fazer da América um país grandioso novamente”, Trump precisa usar os quatro dias de convenção em Cleveland, Ohio, cidade com 52% de população afro-americana, para reverter um quadro tenebroso.

Apesar de ter suprimido os seis pontos de vantagem de Hillary esta semana, por conta do escândalo dos e-mails privados que usou quando comandava a política externa americana no governo Obama, o direitista que saiu em defesa da polícia e acusou Obama de “aumentar a fogueira das tensões raciais no país”, aparece com traço entre eleitores negros em estados cruciais, como a Pensilvânia, em pesquisas recentes.

O Black Lives Matter já avisou que não dará trégua ao bilionário e promete perturbar a festa da direita com protestos tão barulhentos quanto os que farão a partir do dia 25 na convenção democrática na Filadélfia.

*Reportagem publicada originalmente na edição 910 de CartaCapital, com o título "O racismo aflige o presidente negro"