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Número 910,

Internacional

Venezuela

Com crise, futuro do chavismo é incerto

por Marsílea Gombata publicado 20/07/2016 04h29
Cenário econômico desilude população e faz projeto iniciado por Chávez perder adeptos
Federico Parra/AFP
Venezuela

População luta para encontrar produtos da cesta básica nos mercados

*De Caracas

"Desde que me conheço por gente, nunca vi uma situação como esta. Comemos o que há: banana e mandioca. E o que o governo distribui nunca é o suficiente. Amanheço na fila às 5 horas e às 4 horas da tarde, quando chega a minha vez, muitas vezes não há mais nada.”

O desabafo de Marianela Pérez é parte de um coro cada vez maior de cansados e descrentes. São venezuelanos que, se antes acreditavam no projeto chavista a ponto de votar no governismo em todas as eleições, hoje repensam os caminhos da Revolução Bolivariana iniciada em 1999. 

Moradora de Petare, a maior favela da América Latina, a caraquenha de 37 anos e mãe de três filhos teve sua vida transformada pela intensa crise econômica que assola a Venezuela. Há um ano e meio foi demitida do posto de auxiliar de limpeza da multinacional Aon, onde trabalhou por sete anos.

A consultoria com sede em Miami fechou as portas, em meio ao cenário difícil para o setor privado no país. Marianela, cujo marido é empregado no setor público e recebe o salário mínimo de 15 mil bolívares (o que no câmbio oficial seriam 1,5 mil dólares, mas no mercado negro significam 15 dólares), conta ter se entusiasmado pelas mudanças de cunho social promovidas por Hugo Chávez no início de sua gestão.

“Votei em Chávez de 1998 até 2012. Como tinha esperanças, também apoiei Maduro, em 2013. Mas estou revoltada com a situação do país hoje”, afirma, ao garantir que nem sequer na oposição votaria. 

Mercado
Filas e prateleiras vazias são rotina para os venezuelanos (Foto: Marsílea Gombata)

Tão sem ânimo quanto a vizinha, María López, de 36 anos, diz ter votado no chavismo de 1998 a 2013 sem pestanejar, mas agora torce por uma mudança. Funcionária do Instituto Nacional de Serviços Sociais, ela queria assinar a petição para o referendo revogatório que pode retirar do poder o presidente Nicolás Maduro, mas teme por seu emprego.

“Como trabalho no setor público, não posso votar contra. Meus patrões podem ir ao Conselho Nacional Eleitoral, encontrar na petição o número de minha cédula de identidade e me demitirem”, explica ao rememorar a Lista Táscon, quando funcionários públicos foram demitidos em 2004 por assinar uma lista pelo referendo revogatório contra Chávez, do qual o então presidente saiu vitorioso. 

Vivendo as agruras do que alguns vêm chamando de “período especial” – mesmo termo utilizado para classificar os duríssimos anos de escassez em Cuba logo após o fim da União Soviética –, muitos venezuelanos têm o cansaço refletido no semblante, em olheiras pelas horas de sono maldormidas e interrompidas pela urgência das filas que se formam ainda de madrugada em busca de itens da cesta básica, pela sutil magreza involuntária que alguns atribuem de forma espirituosa à “dieta do Maduro”. 

O governo herdado por Maduro após a morte de Chávez, em 2013, ainda mantém uma legião de partidários, mas vem perdendo espaço a cada dia. “O apoio tanto ao presidente quanto ao chavismo está entre 20% e 25%, mas de modo geral a popularidade do governo caiu de maneira importante”, observa Luis Vicente León, diretor do Datanálisis. “Números bem distantes do clímax de 71% que já atingiu Chávez.” 

Pesquisa do instituto mostra que em 8 dezembro de 2012, quando Chávez anunciou Maduro como seu sucessor, aqueles que se autodefiniam chavistas eram 44% da população. No fim de 2015, esse número havia baixado para 22%. 

A gestão de Maduro, por sua vez, ainda mantém 23,3% de aprovação, enquanto o governador do estado de Miranda, Henrique Capriles, é visto por 40% como líder da oposição. 

Crise
A vendedora Deisy, o professor de beisebol Julio Cezar e a cabeleireira Juana contam nunca ter vivido uma situação tão grave como a de agora. Desesperançosos, nem mesmo na oposição confiam para a mudança necessária ao país (Fotos: Yan Boechat)

Dona das maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela é vítima de sua própria bonança. O país, que entre 1999 e 2014 obteve 960 bilhões de dólares provenientes da receita da exportação da commodity, mantendo entre 1993 e 1998 uma média anual de 56,5 bilhões ante 15,2 bilhões atuais, abandonou a diversificação de indústrias e sistemas produtivos diante de vantagens econômicas na importação de itens básicos e manufaturados em vez de produzi-los internamente.

Assim, ficou refém das oscilações do mercado externo. O petróleo é responsável por 96% de suas exportações. Caiu de 103 dólares/barril  em 2012 para 39,60 de dólares atuais.

Os subsídios dados pelo governo como parte do projeto de inclusão social e diminuição da pobreza na Venezuela tornou-se uma armadilha. Os itens considerados básicos, como farinha de milho, arroz, leite, pasta de dente, eram subsidiados pelo governo e acabaram tendo um valor de venda abaixo do custo de produção.

Com a falta desses produtos no mercado (por causa da dificuldade de importação ou de produção) e um salário mínimo corroído por uma inflação projetada para 500% neste ano, crescem saques e contrabandos, praticados por atores conhecidos como bachaqueros, que revendem itens básicos a um valor até 1.600% vezes maior do que o preço regulado.

O clima de convulsão social amarga a memória do país que viveu em 1989 a revolta popular conhecida como Caracazo, que deixou dezenas de mortos. O então presidente Carlos Andrés Pérez suspendeu as garantias constitucionais e impor toque de recolher.

Mudança
Marianela e a família de Rafael esperam por mudanças econômicas que tragam alívio à rotina das filas. Beneficiada pelo Gran Misión Vivienda Venezuela, Margalis enxerga no chavismo a maior transformação vivida na Venezuela (Fotos: Yan Boechat)

Hoje, vive-se um decreto emergencial anunciado por Maduro, a transferência da distribuição de alimentos e remédios para as mãos das Forças Armadas e algumas fronteiras fechadas, por onde passam clandestinamente remédios e itens alimentícios em falta na Venezuela.

A espiral da escassez de produtos com preços regulados tem impactado na produção de itens que não são de primeira necessidade. A Coca-Cola Femsa, mexicana que engarrafa o refrigerante no país, anunciou recentemente que reduzirá sua produção pela falta de açúcar.

Em padarias como a Trigo’s, no bairro de classe média La Trinidad, os 300 sacos de farinha utilizados ao longo de um mês, em 2014, hoje mal chegam a 100. 

O que está em risco hoje é o projeto que começou em 1999, quando Chávez chegou ao poder. Embalado por uma agenda que negava a cartilha neoliberal de austeridade em relação aos gastos sociais, seu governo deu início a um ciclo virtuoso de eliminação da pobreza.

Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), da ONU, em 1999 a Venezuela tinha 49,4% de sua população abaixo da linha da pobreza. Treze anos mais tarde, em 2012, esse número foi reduzido para 25,4%.

A queda do preço do barril de petróleo impactou o aporte do Estado para programas sociais e resultou em uma desaceleração da redução da pobreza. Entre 2012 e 2013, a taxa da pobreza aumentou 6,7 pontos, indo de 25,4% para 32,1%.  

Ainda que tenha havido um retrocesso recente, a marca do chavismo na história do país é inegável. Foi na gestão de Chávez que se criou em 2004 o Fundo para o Desenvolvimento Econômico e Social do País da petroleira estatal PDVSA, com vistas a financiar as chamadas misiones (programas sociais que somam mais de 40), de modo a garantir a distribuição indireta da renda petroleira.

“Na IV República (período anterior ao Chávez), não se tinha acesso à educação ou moradia. Éramos invisíveis para outros governos, mas com Chávez passamos a existir”, afirma Magalis Mundarán, de 51 anos, porta-voz do Conselho Comunal Unidos Venceremos, em Caricuao, em Caracas.

Ela emociona-se ao contar que conseguiu trocar o barraco onde sempre morou por uma casa na favela há três anos, depois de se inscrever no Programa Gran Misión Vivienda Venezuela, inspirado no Minha Casa Minha Vida brasileiro.

“Antes não nos davam um grão de comida sequer. Mas hoje tenho casa, fiz colégio pela Misión Ribas e quero começar a universidade pela Misión Sucre”, conta. Seu quarto exibe pôsteres e fotografias de Chávez. A decoração, que exalta “el comandante, presidente, pai e amigo”, dá o tom de culto personalista ao sobrado onde vive na parte de baixo com a filha, e no segundo andar abriga outros cinco parentes.

Maduro
O legado de Chávez: a redução de 49,4% para 25,4% das pessoas abaixo da linha da pobreza (Foto: Federico Parra/AFP)

Mas o cenário atual descontenta muitos que outrora apostaram no chavismo. Na fila todas as terças-feiras para conseguir fralda para a filha Ana, de 8 meses, Rafael Vásquez, de 22 anos, e a mulher, Isabel, de 18 anos, culpam a gestão atual pelo aperto em que vivem.

“Com Chávez era diferente, não tinha isso. Chegávamos a qualquer supermercado e comprávamos o que podíamos. De janeiro para cá, a coisa piorou muito”, conta o pedreiro, que vive na Plaza Venezuela, centro de Caracas, e até ontem votava no PSUV. “Ou temos de passar horas na fila para conseguir dois pacotes de fralda a 230 bolívares ou, quando acabam, compramos de bachaqueros por 7 mil bolívares. Isso não é chavismo, é madurismo.” 

Da mesma opinião compartilha Juana Zerpa, de 49 anos, cabelereira e moradora de Catia, conglomerado de favelas na capital. “Com Maduro a nossa vida se tornou uma fila eterna! Era melhor com Chávez”, reclama, desanimada também com a oposição.

A fila longe de casa é a opção para a cabeleireira que ali encontra xampu , cada vez mais raro, a 60 bolívares. Se tivesse de recorrer aos bachaqueros, teria de pagar 2,5 mil bolívares. “Precisamos mudar o modelo econômico ”, reclama.

O quanto, então, Venezuela e chavismo ainda caminham juntos? Para o ex-chanceler e vice-presidente Elías Jaua, momentos de dificuldades econômicas confundem a população. “Em situações de escassez, setores da população tendem a se embaralhar. O resultado das eleições de dezembro (que concedeu maioria à oposição na Assembleia Nacional) mostra esse mal-estar”, observa Jaua.

“Não há evidências, por outro lado, de que a imensa maioria da população rompeu com valores que sustentam o ideal socialista que o chavismo propõe: de soberania nacional, sociedade igualitária, papel do Estado na economia, distribuição igualitária do sistema de proteção social criado, democracia participativa versus democracia representativa das elites. Esses valores estão intactos, apesar do mal-estar social.” 

Orgulhoso de fotos e bilhetes de Chávez que decoram seu escritório político, Jaua reconhece que muito mudou no país após a morte do ex-presidente, mas garante que todo o sistema de proteção social iniciado por ele continua prioridade do governo Maduro. “Nada parou”, garante.

Alguns venezuelanos, entretanto, contestam. Vendedora de uma loja de sapatos no boulevard de Sabana Grande, centro de compras da capital, Deisy Esteves, de 18 anos, tenta sem sucesso ganhar uma bolsa do governo ou ser beneficiada por programas sociais de educação. “Além de estar na fila de espera da Misión Sucre, votei, em 2015, no PSUV para ver se me davam um cupom que me isentasse da matrícula e mensalidade, mas isso nunca aconteceu”, diz.

Samper
Samper, da Unasul, aponta polarização como entrave à estabilização econômica (Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters/Latinstock)
Para a jovem que sonha em viver em outro país, se fosse Chávez no comando as coisas estariam diferentes. “Pelo menos ele resolvia. Maduro, ao contrário, é um fantoche. Faz tudo o que Diosdado Cabello manda.” Cabello é o número 2 do chavismo, representante da ala militar. 

Filho de dominicanos que migraram para a Venezuela, Julio Cezar Monzon, professor de beisebol em 23 de Enero – comunidade que abriga o mausoléu de Chávez, no quartel 4F –, também reclama da falta de apoio do governo.

“Comecei a votar em Chávez em 1998, mas estive com ele até ele estar comigo. Nosso trabalho é tirar meninos de 9 a 19 anos do ócio e treiná-los, mas nunca recebemos qualquer ajuda para manter a escola ou o alojamento.” Questionado se hoje votaria em Maduro ou em outro candidato do chavismo, ele se pôs pessimista: “Se hoje já não temos mais o que comer, imagine daqui a uns anos”. 

Viver com otimismo requer, portanto, um esforço. Mensagem do presidente Maduro que o Eucario Guilarte, da Comuna Rogelio Castillo Gamarra, tenta transmitir aos membros da 36 Conselhos Comunais que representa em Petare.

“A crise nos leva a outros caminhos. Precisamos nos adaptar e criar coisas novas”, observa entusiasmado o caraquenho, de 57 anos, segurando manuais de agricultura familiar e cultivo de plantas medicinais. “O governo pede um esforço para que todos sejam autossuficientes em ao menos um produto, como tomate, por exemplo.”

Ele ressalta que o governo vem sendo sabotado pelo setor privado, que controla a distribuição de alimentos e, para burlar isso, passou para as Forças Armadas a distribuição de alimentos e remédios.

Além disso, vem impulsionado os chamados Comitês de Abastecimento e Produção (Claps), responsáveis pela distribuição de bolsas com itens básicos a cada 15 dias, pelas mãos dos Conselhos Comunais, que em algumas zonas ou cidades contam com a ajuda do próprio diretório do PSUV local, como ocorre na região de San Carlos, capital do estado de Cojedes. 

Opositores reclamam que as bolsas chegam com itens insuficientes para a quinzena e desmentem que o setor privado esteja boicotando o governo. “Chávez cometeu o gravíssimo erro de pensar que o socialismo consistia em um Estado superpoderoso e um setor privado inexistente. Quando esse Estado ficou sem riqueza para repartir, a sociedade quebrou”, ressalta Enrique Márquez, primeiro-vice-presidente da Assembleia Nacional. “Temos de gerar um setor privado forte.” 

Enquanto a oposição culpa o governo por ser ineficiente, o chavismo fala em boicote e terrorismo por grupos privados e guerra econômica, termos referendados por autoridades como Ernesto Samper, secretário-geral da União das Nações Sul-Americanas (Unasul).

“Há uma guerra econômica contra a Venezuela. São medidas que pretendem mudar o curso dos acontecimentos políticos por meio de uma pressão econômica que, na minha opinião, são totalmente contraproducentes”, disse. “O caminho que a Venezuela precisa não é o da represália econômica, mas encontrar uma forma de convivência com a oposição e levar adiante um plano de estabilização.” 

A Unasul, inclusive, é autora de um plano econômico para tirar o país do sufoco e propõe reformas como unificação e flutuação cambial, aumentos progressivos de gasolina e eletricidade, ajustes de salários, e um programa de subsídios, diretos por meio de cartões eletrônicos, o que visa reduzir o contrabando de produtos diretamente subsidiados, como remédios e itens da cesta básica.

Ao reforçar que a prioridade neste momento é estabilizar economicamente o país, o ex-presidente da Colômbia teme que a polarização política, que, em 2002, levou a oposição a tentar um golpe frustrado contra Chávez e, em 2005, fez os partidos opositores se absterem das eleições legislativas, atrapalhe qualquer diálogo sério. “Solucionar os temas econômicos em um ambiente de tranquilidade política seria muito mais fácil.”

É essa mesma polarização que dá o tom do referendo revogatório que coloca em xeque a Presidência de Maduro. Enquanto Capriles quer que a votação ocorra ainda neste ano, o governo diz que falta todo um processo burocrático constitucional, o que levaria os venezuelanos às urnas em janeiro.

Caso a votação ocorra neste ano e Maduro perca, novas eleições são convocadas. Se o referendo ficar para 2017, no entanto, o vice-presidente Aristóbulo Istúriz pode assumir a Presidência até 2019. 

“Uma mudança de governo que acabe aplicando as políticas que foram utilizadas na época do capitalismo rentístico pré-Chávez ou do chamado neorrentismo socialista do chavismo seria mais do mesmo”, observa Víctor Álvarez, ex-ministro de Indústrias Básicas e ex-diretor da estatal petrolífera PDVSA no governo Chávez. “Mas um governo que mude radicalmente a orientação dessa política econômica, que é a verdadeira raiz dos problemas atuais, pode superar esta crise.”

Para ele, “Maduro poderia continuar no poder e, se aplicar corretamente o plano da Unasul, corrigiria descontroles cambiais, fiscais, monetários, ativaria o aparato produtivo e seria exitoso. Mas uma mudança de governo com as mesmas políticas fracassará como os demais.”  

*Reportagem publicada originalmente na edição 910 de CartaCapital, com o título "O amanhã incerto"