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Número 909,

Internacional

Direitas

E se a extrema direita chegar ao poder?

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 18/07/2016 03h57, última modificação 18/07/2016 05h54
É hora de se perguntar com seriedade qual mundo o populismo de direita poderá construir
Aurora Dourada

Aurora Dourada, parte da vertente mais explicitamente neofascista do novo populismo de direita

Boris Johnson, líder da campanha pelo Brexit entre os conservadores, desistiu de concorrer pela chefia do partido e do governo. No UKIP, o líder Nigel Farage e o presidente Steve Crowther deixaram seus cargos: “Quero minha vida de volta”, diz o primeiro.

Quem sucedeu David Cameron como premier do Reino Unido é a ex-ministra do Interior Theresa May, partidária da permanência que promete acatar o resultado do referendo, mas não quer fazer o pedido formal de retirada da União Europeia antes de 2017, nem convocar eleições antes de 2020.

Não é que a vitória tenha sido roubada aos xenófobos e ditos soberanistas: eles lhe deram as costas e correram, sem saber lidar com a granada cujo pino arrancaram quase sem querer. Para muitas das lideranças, a campanha foi um pretexto para se promoverem.

Para muitos dos eleitores, foi um voto de protesto contra o desemprego, a deterioração dos serviços sociais, as mudanças culturais, a frustração das promessas da globalização e a imigração. Os primeiros esperavam de uma votação substancial pelo Brexit mais prestígio para seus nomes e bandeiras; os segundos mais atenção e respeito para com seu inconformismo, mas poucos acreditaram na vitória e menos ainda fizeram planos para essa contingência.

Poucos eleitores parecem, porém, arrependidos de seu voto. Menos ainda se vê qualquer recuo nas tendências favoráveis ao nacionalismo, à xenofobia e a um suposto retorno ao passado representadas por partidos de direita populista na Europa e por Donald Trump nos Estados Unidos.

Partido polonês
O partido polonês 'Lei e ordem', hoje no poder, é a face conesrvadora do autoritarismo, tolerada pela UE (Foto: Mateusz Wlodarczyk/AFP)

A diferença nas pesquisas entre este e Hillary Clinton tem diminuído e o matemático Nate Silver lhe atribui, a três meses da eleição, 22% de chances de vitória, probabilidade maior do que aquela atribuída ao Brexit pelas casas de apostas quando as urnas se fechavam.

O Movimento 5 Estrelas, contrário ao euro, acaba de vencer importantes eleições municipais na Itália. A Justiça austríaca anulou a eleição presidencial de abril, na qual a ultradireita de Norbert Hofer foi derrotada por pequena margem e com isso lhe deu nova chance em outubro.

O presidente húngaro János Áder anunciou, para o mesmo mês, um referendo na Hungria sobre o “direito” da União Europeia a obrigá-la a aceitar uma cota de refugiados e seu colega tcheco Milos Zeman propôs um referendo ainda sem data sobre a permanência de seu país na União Europeia e na Otan, embora se diga favorável a ambas.

Esses movimentos terão planos mais claros que seus similares britânicos? Têm ideias claras sobre como conduzir seus povos após o colapso do euro, da União Europeia e dos atuais acordos internacionais? Seus eleitores pensam que sim.

Trump lhes pede sua confiança e a maioria dos eleitores republicanos o atende, apesar do caráter vago e contraditório de suas promessas. Com os nacionalistas europeus não é muito diferente. Uns e outros preferem a expressão estética à teórica e apresentam-se como pragmáticos e “contra as ideologias” como os fascistas de antes da Guerra, talvez até mais. Uma possível exceção é o teórico neofascista russo Aleksandr Dugin, mas sua Quarta Teoria Política tem pouca influência fora de seu país.

Le Pen
A Frente Nacional de Le Pen, ultradireita que quer ser aceita como partido normal (Foto: Citizenside/Frederic Seguran/AFP)

É preciso perguntar, porém, para qual tipo de mundo essas políticas apontam, pois seu avanço é inegável e o discurso liberal, demasiado ancorado no desdém pelo Estado e pelo debate político e no “Não Há Alternativa” de Margaret Thatcher, perdeu o hábito de articular respostas convincentes.

Idem quanto às esquerdas, condicionadas por décadas de hegemonia neoliberal a se limitar a propostas para moderar seus efeitos sem conseguir pensar fora da caixa e apontar um caminho viável para um horizonte alternativo, mesmo quando se intitulam radicais (caso do Syriza, como se viu em 2015).

É a economia, estúpido? Sim e não. O voto no Brexit, assim como nos populismos de direita em geral, tem causas econômicas: é um protesto de regiões, camadas e setores deprimidos, que necessitam de ajuda de Londres e mesmo de Bruxelas, situação da qual, segundo a ideologia neoliberal, deveriam se envergonhar e na qual, segundo Angela Merkel e seu próprio governo, devem renunciar à dignidade e abrir mão de decidir sua vida e seu destino.

Ao mesmo tempo, é um voto contra o totalitarismo das prioridades econômicas e financeiras definidas pelo “pensamento único” e em favor de retomar, por meio da política e do Estado, certo grau de controle sobre seu destino coletivo, a tal da “soberania”.

Ironicamente, vão entregá-la ao mesmo Partido Conservador de Margaret Thatcher, do qual Bruxelas aprendeu tudo que sabe sobre austeridade e desigualdade e de cujo neoliberalismo o “ordoliberalismo” de Merkel é uma versão mitigada e mais organizada.

Alternativa
Alternativa para a Alemanha, o lado mais 'moderno' e 'liberal' da xenofobia (Foto: Stefan Sauer/AFP)

Longe de reforçar a saúde pública com recursos supostamente poupados à União Europeia, o ministro da Fazenda britânico propõe a redução do imposto de renda empresarial de 20% para menos de 15%, para combater a fuga de capitais e isso certamente exigirá mais cortes de gastos sociais.

O conservador Centro de Estudos Políticos (CPS) propõe aproveitar a “oportunidade única para uma revolução na escala dos anos 1980 e remover ônus regulatórios desnecessários sobre as empresas, tais como os relacionados às diretrizes climáticas e fundos de investimento”.

Assim como em outras épocas e nações, o populismo de direita captura a revolta contra “eles”, imigrantes humildes ou elites cosmopolitas liberais, em favor de uma elite nacional simbolicamente parte de “nós”.

Em política internacional, o foco é fechar fronteiras a imigrantes (mas não a capitais estrangeiros), privilegiar os nacionais de velha cepa e tentar arrancar vantagens para o próprio país por meio de ameaças comerciais, políticas ou militares em prejuízo da reciprocidade, do direito internacional e dos direitos humanos. Internamente, está em combater o “multiculturalismo”, impor a uniformidade de valores e costumes e punir ou expulsar os desviantes. 

Onde essas forças chegaram ao poder e as condições políticas permitem, como na Hungria, Polônia, Turquia, Rússia e Israel, veem-se a centralização do poder, o enquadramento da mídia e do Judiciário, a perseguição a dissidentes e a instituição de um autoritarismo nacionalista, sem se chegar (até agora) à ditadura explícita. 

Merkel e Thatcher
Quem votou pelo Brexit pensando livrar-se da austeridade de Merkel deu todo o poder aos fiéis discípulos de Thatcher, ainda mais dogmática em neoliberalismo (Foto: John McDougall/AFP e Christine Nesbitt/AFP)
Distinguem-se entre eles as seguintes tendências:

1. Nacional-conservadores: partidos de direita que no Europarlamento se alinham a conservadores tradicionais como Angela Merkel e David Cameron e têm boas relações com as elites, mas caminham para o nacionalismo autoritário sem serem contidos por seus aliados. Estão nessa categoria os partidos governantes da Hungria, Fidesz, e Polônia, Lei e Justiça. Assemelham-se ao AKP de Recep Erdogan, a Rússia Unida de Vladimir Putin, ao Likud de Benjamin Netanyahu e à vertente trumpiana dos republicanos dos EUA.

2. Nacionalistas moderados, que contestam as elites, a União Europeia e a globalização e flertam com a xenofobia, mas tentam (nem sempre com sucesso) caracterizar-se como liberais. Incluem o UKIP e os conservadores eurocéticos britânicos, o Movimento 5 Estrelas italiano e a Alternativa para a Alemanha (AfD), todos em rápida ascensão.

3. Nacionalistas radicais, com mais ênfase na “guerra cultural” e no chauvinismo explícito, mas ainda com uma fachada de normalidade, como a Frente Nacional francesa, a Liga Norte italiana e os Partidos da Liberdade austríaco e holandês.

4. Neofascistas no sentido estrito do termo, como o húngaro Jobbik, o grego Aurora Dourada e o alemão NPD, todos com representação no Europarlamento, além de legendas menores como o Partido Nacional Britânico (BNP) e a Chama Tricolor italiana. 

Faltam, exceto no sionismo radical e nos representantes mais extremos do último grupo, propostas declaradas de expansão imperial comparáveis ao Mein Kampf de Adolf Hitler. Mesmo a anexação da Crimeia foi uma decisão pontual e contingente para proteger uma base naval estratégica, não conquista de “espaço vital”.

Mas os estragos mútuos da busca por vantagens comerciais e políticas unilaterais e do desdém pela lei internacional e pela necessidade de conter a mudança climática podem iniciar uma escalada de retaliações da qual é fácil perder o controle, principalmente se alianças militares forem rompidas e houver uma nova corrida armamentista, inclusive nuclear.

Putin, Erdogan e Netanyahu
As recentes reconciliações diplomáticas entre Putin, Erdogan e Netanyahu correspondem a sua aproximação ideológica e a uma desconfiança compartilhada e crescente ante o neoliberalismo ocidental (Fotos: Ivan Sekretarev/AFP, Adem Altan/AFP e Gali Tibbon/AFP)

Como reagirão Moscou e Pequim se países como Japão, Coreia do Sul e Ucrânia quiserem suas próprias armas atômicas, como quer Trump?

As dificuldades que certamente se seguirão das rupturas imprevistas (já sentidas nos setores financeiros britânico e europeu) serão pretexto para mais acusações aos suspeitos de sempre e para a radicalização do discurso populista, enquanto os protegidos da nova ordem desfrutam de um “capitalismo de catástrofe” e põem a seu serviço o desespero e o medo criados por desastres sociais para lucrar com a reconstrução e reconfigurar a sociedade e a economia em seu proveito.

Em troca de segurança e soberania ilusórias e da preservação de mesquinhos privilégios ante estrangeiros e divergentes, pode-se obter um mundo ainda mais injusto e com muito menos liberdade de movimento e pensamento.