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Número 909,

Economia

Opinião

Delírios de grandeza

por Thomaz Wood Jr. publicado 19/07/2016 02h43
O estranho hábito de inflar ideias fracas e camuflar sentidos banais nos currículos de executivos
Max Haack/ Agecom Salvador
Executivos

Com os novos termos mudaram também a linguagem das peças de comunicação empresarial e o discurso dos profissionais

Examinar currículos de executivos pode ser tarefa humilhante para egos frágeis, pois nessas verdadeiras peças de ficção sobram manifestações do mais desinibido narcisismo. Assim, um simples gerente de pessoal transforma-se em um irresistível talent manager, responsável por employer branding, capaz de fazer culture analysis e definir o employee value proposition. De forma similar, um mero gerente de contas transmuta-se em um high potencial account manager, capaz de desenvolver times de alto desempenho e acelerar o crescimento dos lucros, um ser excepcional em demand generation e na alavancagem de cutting edge marketing techniques. Donald Trump não faria melhor!

Nos currículos de executivos, aquilo que poderia ser considerado delírio de grandeza, próprio de indivíduos com distúrbios mentais, é o novo normal. Comportamentos e linguagem antes eram observados apenas em tiranos, tresloucados capitães de indústria e psicopatas de ofícios diversos, mas passaram a permear a vida organizacional e social. E mal notamos o elefante na sala de estar.

Em ensaio publicado pela revista inglesa de educação em negócios Management Learning, Mats Alvesson e Yiannis Gabriel analisam com lente crítica manifestações individuais e organizacionais de grandiosidade. Os autores, professores em escolas de negócios na Suécia e na Inglaterra, respectivamente, relacionam o fenômeno à disseminação maciça do narcisismo e à busca obsessiva do aumento da autoestima. Essas manifestações são atribuídas à ação combinada de múltiplas forças sociais, incluídas a mídia e as agências de propaganda, a vender superlativos e trocar substância por imagem. O resultado é o estímulo constante a fantasias e desejos relacionados a uma vida idealizada, publicamente reconhecida e aplaudida.

A grandiosidade e suas manifestações sociais, alertam Alvesson e Gabriel, levam a uma busca pelo superficial e glamouroso, em detrimento do que possa parecer trivial. Os apelos à grandiosidade podem ser observados na linguagem empregada nos currículos, mostram os exemplos acima, no dia a dia nas empresas e na vida social. Com isso, os fundamentos da administração, de operações, finanças e marketing cedem espaço a atraentes e insossas teorias sobre liderança. Gerentes e supervisores agora são executivos e líderes. Vender é gerar valor para o cliente. Trocar de mercado é quebrar paradigma. Gestão de recursos humanos transformou-se em gestão de talentos. Grupos de trabalho ganham a alcunha de times de alta performance. Donos de pet shops são agora empresários. E uma Kombi na qual se vendem sanduí­ches torna-se uma startup.

Com os novos termos mudaram também a linguagem das peças de comunicação empresarial e o discurso dos profissionais. Ambos adquiriram características de narrativas épicas, com heróis, batalhas, feitos incríveis e resultados notáveis. Alvesson e Gabriel associam a linguagem grandiosa das organizações e de seus prepostos à novilíngua e ao duplipensar, termos cunhados por George Orwell, no livro 1984. O autor inglês revelou em sua distopia como a manipulação da linguagem pode servir à manipulação do raciocínio e à subjugação do pensamento.

O narcisismo e a mania de grandeza não são fenômenos recentes. O que é novo é a disseminação maciça da cultura do narcisismo e a obsessão generalizada dos indivíduos por construir uma autoimagem positiva por meio do consumo de objetos, marcas e experiências. Alvesson e Gabriel observam que a grandiosidade é uma tentativa dos indivíduos de darem a eles mesmos, ao seu grupo ocupacional ou organização, e até mesmo à sociedade na qual vivem, um status positivo e uma imagem melhorada, embora superficial. Esses indivíduos parecem viver e trabalhar em simbiose com determinadas organizações. Vendem corpos e almas, sacrificam a vida pessoal em troca da identificação com a cultura, os valores e a imagem de suas organizações. 

Educadores, de acordo com Mats Alvesson e Yiannis Gabriel, deveriam contrapor-se à tendência à grandiosidade. Segundo os autores, em lugar de “vender” a si próprios como líderes em seus campos para constituir futuros líderes, professores deveriam, humildemente, formar cidadãos que passarão a maior parte de suas vidas longe da ribalta, na luta para desenvolver suas potencialidades e habilidades. 

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