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Número 909,

Sociedade

Gastroconfusão

Belém, a elite e a gastronomia

por Brenda Taketa — publicado 15/07/2016 09h53, última modificação 16/07/2016 11h42
A indigesta polêmica em torno de um polo gastronômico, um museu histórico, um jeito elitista de governar – e, ah, o Alex Atala
Museu

Casa das 11 janelas, Belém: de museu histórico a reduto da alta gastronomia?

"Gastronomia é cultura”, diz o slogan do novo projeto que promete “ocupar” o centro histórico de Belém. E que acabou mobilizando, contra ele, artistas visuais, produtores culturais, curadores nacionais e frequentadores do Museu da Casa das 11 Janelas, instalado em imponente casarão do século XVIII, antiga residência de um dono de engenho debruçada sobre a Baía do Guajará.

Tombado pelo Patrimônio, este que é um dos mais conhecidos cartões-postais de Belém terá de ceder seu espaço para um “Polo da Gastronomia”, anunciado pelo governo do estado do Pará no dia 17 de junho.

A reação começou em defesa do único museu destinado à arte contemporânea em todo o Pará, mas acabou expondo um sistema de governar fomentado em truculência e autoritarismo, de decisões impostas do alto para baixo e com o nítido viés elitista que vêm caracterizando as sucessivas gestões do PSDB no Estado.

O acervo do museu é dos mais representativos da arte moderna e contemporânea brasileira, com uma bela coleção doada pela Funarte, entre outras fontes, e com trabalhos de artistas como Cildo Meirelles, Adriana Varejão, Rosângela Rennó, Miguel Rio Branco, Luiz Braga e Miguel Chikaoka.

A mobilização cresceu em torno da internet, de petições online e manifestações no casario histórico as quais reivindicavam uma audiência pública para a discussão sobre o uso do espaço. A resposta do governador Simão Jatene foi convocar uma reunião com alguns dos ativistas e representantes da Secretaria de Cultura, na tentativa de resolver o impasse a portas fechadas. Foi um desastre.

Alex Atala
Na Amazônia, Alex Atala quer ir além da farofa de içá (Foto: Reprodução/Instagram)
“Fomos para tentar abrir o diálogo, mesmo sabendo do risco de sermos mal interpretados”, relata o fotógrafo e pesquisador Mariano Klautau Filho. “Mas, no decorrer de toda a reunião, ficou muito claro a posição irredutível do governo e que não há de fato nenhuma proposta em relação ao museu. “O governador manteve uma postura muito evasiva e ao mesmo tempo prepotente. Ele rebateu e foi rebatido o tempo todo até o ponto em que nos chamou de ‘meia dúzia’ e nós nos retiramos.”

Jatene acabou fornecendo o mote para os descontentes. “Não somos apenas meia dúzia” passou a ser usado no Facebook em resposta à insinuação de que o governo não declinará da intenção de instalar o Polo Gastronômico no casarão só para ceder a um punhado de descontentes.

“A escolha do espaço para implantação do Polo de Gastronomia deveu-se ao esforço de agregar ao sítio conhecido como ‘Feliz Lusitânia’, que já congrega manifestações marcantes da nossa história e traços da nossa cultura e memória, mais um componente, com o condão de fazer um elo entre todos os seres vivos de todos os tempos e lugares, que é o alimento”, respondeu a Secretaria de Comunicação.

O governo do PSDB nega o fechamento puro e simples do museu. Entre as alegações, a nota oficial diz que a Casa “sempre abrigou também um restaurante, que ocupava metade da mesma (sic)” e que “o tempo vem impondo ao museu, além das limitações naturais de um prédio que não foi concebido para o que se destina, novos desafios”, em função “da tendência de crescimento de acervo” e de “razões estruturais”, relativas “a restrições quanto ao espaço, climatização, iluminação, entre outros fatores”. 

Ainda sendo, a Secretaria de Estado de Cultura já teria sido “orientada a encontrar um espaço mais apropriado” para o museu. Três alternativas estariam em estudo – todas de difícil execução. A mais charmosa seria a recuperação do Palacete Faciola, construído em 1901 em fausto arquitetônico para abrigar uma família abonada.

O complexo está em condições bastante precárias, com risco de desabamento. Fontes citam também um prédio vizinho ao museu, depósito de fogos de artifício que acabou consumido por um incêndio. A terceira opção seria a construção, do zero, de um museu no Novo Parque do Utinga (Procuradas pela reportagem, as secretarias de Cultura, de Comunicação e de Desenvolvimento, Mineração e Energia não se pronunciaram).

Estação das Docas
Estação das Docas: com a crise, os espaços gourmet encolheram (Foto: Reprodução/Artur Lannini/Flickr)

Acabou sobrando para o chef paulista Alex Atala, que lidera um dos institutos fundadores do Centro Global de Gastronomia e Biodiversidade da Amazônia, organização sem fins lucrativos idealizadora da proposta que gerou o projeto do Polo.

A irrupção de uma figura como a de Atala acabou apimentando a polêmica. #ForaAtala e #FicaMuseu viralizaram nas redes sociais. As críticas, as ironias e as provocações postadas levaram o chef a divulgar um comunicado informando um “profundo desagrado o que está acontecendo”.

Diante disso, o Instituto Atá, criado por Atala, desistiu de se candidatar a gerenciar o Polo Gastronômico, enquanto o impasse sobre o museu persistir. “De nossa parte, houve uma tentativa de diálogo, mas não houve flexibilidade das outras partes”, explicou.

Os argumentos oficiais para intervenções arquitetônicas e urbanísticas de tal pretensão vêm desde 1995, quando governava o Pará Almir Gabriel, do mesmo PSDB do atual governador Simão Jatene. Por trás do discurso da “modernização” há o objetivo de tornar rentáveis os novos espaços para a exploração comercial.

O episódio da mudança imposta ao Museu das 11 Janelas apenas acentua o que vem sendo duas décadas de política cultural do PSDB – intercalada apenas pela eleição de Júlia Canepa, do PT, em 2006. A novidade é que a gastronomia passa a justificar, em detrimento da arte, o lucro e o consumo.

No fim de 2014, ano em que se reelegeu, Simão Jatene enviou à Assembleia Legislativa um projeto de reforma administrativa que anulava a criação de órgãos como o Instituto de Artes do Pará (IAP), a Fundação Curro Velho e a Fundação Cultural Tancredo Neves. Sem discussões com a sociedade, as três entidades foram diluídas na “nova” Fundação Cultural do Pará.

Palacete Faciola
O Palacete Faciola não tem condições de abrigar o museu. Na polêmica, Saint-Clair e o governador Jatene estão em lados opostos (Foto: José Cruz/ABr)

“Do ponto de vista da política cultural é um crime pensar a cultura como instrumento para o turismo”, critica o pesquisador Fábio Fonseca de Castro. Ele denuncia a construção de obras de lazer que excluem o acesso de grande parte da população, a manutenção de políticas de fomento com base em concessões seletivas a poucos grupos e a centralização em Belém de toda a ação cultural do governo, num estado que tem 144 municípios.

Uma concepção tão elitista de governar não resulta nem mesmo em benefício para o turismo, contesta Silvio Figueiredo, especialista em gestão pública. “O principal investimento para aumentar o fluxo turístico deveria ser o cuidado com a cidade e seus moradores, o transporte público, a coleta de lixo, a manutenção dos logradouros públicos, o cuidado com o patrimônio e a atenção à especulação imobiliária e à segurança, questões também relacionadas à diminuição de desigualdades sociais”, diz Figueiredo.

A gastronomia pode muito bem conviver com a culinária tradicional, patrimônio imaterial que bem ou mal resiste, mas “de nada adiantará impor novos modismos, pois modismos passam”. A consequência nefasta será “a expulsão da população desses espaços em detrimento das elites e da promessa de um turismo que parece que nunca virá, em tempos de crise internacional”.

A crise, aliás, já chegou à Estação das Docas, criada no começo dos anos 2000. Hoje há vários espaços vagos na área dedicada a restaurantes. “Parece que ainda vivemos uma busca permanente pelo Eldorado”, critica a fotógrafa e pesquisadora Cláudia Leão. “É a promessa do Eldorado como uma estratégia de enriquecimento.”

O geógrafo Saint-Clair Trindade Júnior explica: “Não é que os espaços voltados à alta gastronomia não tenham de existir. Eles também podem e devem fazer parte de uma rede, mas não são prioritários ou estratégicos, como quer o governo”.

Ver-o-Peso
Ver-o-Peso: os feirantes temem a elitização do lugar (Foto: Carlos Sodré)

Se o objetivo é aproveitar o potencial da gastronomia e da cultura alimentar do Pará, “é necessário partir das redes que já existem, não apenas concentradas no centro histórico da cidade. O Polo de Gastronomia não precisa ser criado, ele já existe ”.

Quando, em outubro, o Centro Global de Gastronomia e Biodiversidade da Amazônia anunciou, na Casa das 11 Janelas, o projeto que o governo sacralizaria, a promessa era de que o polo iria “dialogar com o contexto do Ver-o-Peso, uma vitrine da biodiversidade alimentícia da Amazônia: cores, cheiros e sabores diversificados e muitas vezes exóticos”.

No lendário Mercado Ver-o-Peso, a cautela chegou antes da euforia. Feirantes como Manoel Rendeiro, Mario Lima e Júlio Wanzeler já estão escolados no contato com o poder público. Este ano, reagiram contra o polêmico projeto da prefeitura de transformar a feira com cara de feira num mercado coberto, fechado, com boxes de alvenaria. “Os governos fazem tudo em segredo. Aí, quanto tu espantas, eles baixam o decreto e não tem mais jeito”, dizem, em coro.

*Reportagem publicada originalmente na edição 909 de CartaCapital, com o título "Pimenta no pirarucu"

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