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Número 909,

Sociedade

Igreja

Dom Paulo, a fé a serviço do povo brasileiro

por Miguel Martins publicado 15/07/2016 09h36, última modificação 16/07/2016 11h40
Em 50 anos como bispo, ele fez da justiça social sua missão
Felipe Rau/Estadão Conteúdo
Dom Paulo

"Não fazer política é a pior maneira de fazer política", dizia o sacerdote

Templo máximo da Arquidiocese de São Paulo, a Catedral da Sé consagrou-se na história recente como local de fé e resistência, onde as homenagens religiosas muitas vezes trajam uma bata política.

Não seria diferente na celebração dos 50 anos da ordenação episcopal de dom Paulo Evaristo Arns, em missa realizada no sábado 2. Há quatro décadas, o então arcebispo paulista abriu as portas da catedral para um ato inter-religioso que denunciou a morte do jornalista de origem judaica Vladimir Herzog, torturado e assassinado pelos militares durante a ditadura. Natural, portanto, que temas políticos marcassem a entrega do Jubileu de Ouro a dom Paulo.

Ouvido atentamente pelos admiradores do arcebispo emérito de 94 anos, presente à missa apesar da saúde debilitada, um dos discursos que recordou a luta do sacerdote contra a repressão militar serviu à reflexão sobre a crise política atual no País.

O ativista católico Chico Whitaker, assessor de dom Paulo durante os anos 1970, foi aclamado pelos fiéis ao comentar o difícil momento brasileiro. “Elegemos um vice-presidente e uma maioria congressual que representam interesses e objetivos muito diferentes, e às vezes até mesmo opostos, aos da presidenta eleita”, alertou, após lembrar uma emblemática frase do homenageado: “Não fazer política é a pior maneira de fazer política.”

De formação e hábitos franciscanos, dom Paulo é um missionário que dedicou sua vida à defesa dos pobres e à justiça social. A denúncia da tortura e da perseguição política durante a ditadura está diretamente relacionada à sua pregação religiosa.

“Diante da repressão, ele podia ignorá-la ou procurar entendê-la”, afirma Whitaker. “Ele naturalmente descobriu que não bastava a assistência e a caridade. Era fundamental investir na ação política.”

Vladimir Herzog
Por feitos como a denúncia do assassinato de Herzog, o arcebispo emérito merece todas as homenagens (Foto: Estadão Conteúdo)

Em 1966, dom Paulo tornou-se bispo em um momento de renovação na Igreja Católica. Quatro anos antes, o então papa João XXIII deu início ao Concílio Vaticano II, que buscava redefinir o papel da religião na sociedade, com foco em uma nova orientação pastoral voltada para a resolução dos problemas sociais e econômicos. No Brasil, a cartilha ganhou força após a Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em 1968 em Medellín, na Colômbia.

As reuniões foram fundamentais para o desenvolvimento da Teologia da Libertação, preocupada prioritariamente com a promoção da justiça social, e para a consolidação das Comunidades Eclesiais de Base, que buscavam substituir a supremacia das paróquias na organização da vida religiosa pela valorização de comunidades menores, com a presença tanto de integrantes da Igreja quanto de leigos. Atento à renovação, dom Paulo abraçou a nova doutrina e o modelo descentralizado de comunidades.

O sacerdote tornou-se arcebispo de São Paulo em um momento crucial. Em 1969, um grupo de dominicanos foi preso pelo delegado Sérgio Fleury, do Departamento de Ordem Política e Social, sob acusação de manter laços com a Ação Libertadora Nacional, organização de luta armada comandada por Carlos Marighella.

Uma das lideranças dominicanas, Frei Tito foi brutalmente torturado. À época, dom Agnelo Rossi, então arcebispo paulista, preferiu não interceder em favor dos presos. A repercussão dos relatos de Tito publicados na Europa levou o então papa Paulo VI a substituir Rossi por dom Paulo no comando da Arquidiocese.

Pouco após assumir o cargo, dom Paulo não se omitiu ao tomar conhecimento da prisão do padre Giulio Vicini e da assistente social leiga Yara Spaldini pelo Departamento de Ordem Política e Social em 1971. O sacerdote foi pessoalmente ao Deops e testemunhou as agressões físicas sofridas por seus colaboradores.

“Quando ele soube que ambos foram torturados, passou a mostrar a que veio”, recorda Maria Ângela, secretária pessoal do cardeal por cerca de 40 anos. Dom Paulo divulgou no jornal O São Paulo, semanário da Arquidiocese, uma nota-denúncia sobre a violência sofrida por Vicini e Yara, além de determinar que o texto fosse afixado na porta das igrejas e dos oratórios públicos. “Foi um impacto enorme, alguns padres mais velhos tiveram medo”, lembra Maria Ângela. “Ele, que ainda era desconhecido na própria igreja, ganhou muita projeção”.

Pupilos
Chico Whitaker assessorou dom Paulo na formação das CEBs e Leonardo Boff foi defendido pelo ex-professor de Roma (Fotos: Miguel Medina/AFP e Mayela Lopez/AFP)

No ano seguinte, por iniciativa de dom Paulo, a Assembleia da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil publicou o Documento de Brodósqui, um relatório que denunciava as prisões arbitrárias, a tortura e o desaparecimento de perseguidos políticos após a aprovação do Ato Institucional nº 5.

A partir de 1973, o arcebispo passou a celebrar missas com forte conteúdo político. O assassinato pelos militares do líder estudantil Alexandre Vannucchi Leme, da ALN, foi respondido com uma missa-protesto na Catedral da Sé para contestar a versão oficial apresentada pela ditadura para sua morte, segundo a qual o estudante teria sido vítima de um atropelamento.

Em 1975, o ato inter-religioso em homenagem a Herzog serviu também para manifestar repúdio à versão de que o jornalista teria cometido suicídio.

Além das denúncias contra as arbitrariedades da repressão, dom Paulo notabilizou-se por seu engajamento na consolidação das Comunidades Eclesiais de Base. Um de seus principais parceiros no desenvolvimento do projeto, Whitaker afirma que a experiência na periferia foi um “banho de realidade” e o ensinou muito em termos de representação política. “Havia enorme horizontalidade nas comunidades. Os coordenadores eram renovados periodicamente e tornavam-se auxiliares das novas lideranças.”

Segundo Leonardo Boff, expoente da Teologia da Libertação, D. Paulo não enxergava as comunidades como uma simples frente de pastoral ou um prolongamento da paróquia em meios pobres. O objetivo era valorizar tanto as bases sociais como a participação dos leigos. “Dom Paulo animava-os a decidirem os caminhos da Igreja e aceitava suas sugestões.”

Para reforçar o aspecto pedagógico das comunidades, lembra Boff, o arcebispo convidou o pedagogo Paulo Freire para acompanhar as atividades na periferia. “Além de sua dimensão especificamente religiosa, as comunidades de base eram centros de conscientização, de resistência contra a ditadura e de construção da cidadania”, afirma. A articulação das comunidades é, por sinal, um dos pontos de partida para a fundação do Partido dos Trabalhadores em 1980.

Boff tem muito a agradecer a dom Paulo. O cardeal foi professor do teólogo em Petrópolis e o ajudou a ingressar na Universidade de Munique. Em 1982, Boff foi alvo de um processo doutrinário na Congregação para a Doutrina da Fé, antiga Inquisição, por conta da publicação de seu livro Igreja: Carisma e Poder, crítico às instituições católicas tradicionais. O interrogatório foi conduzido pelo então cardeal Joseph Ratzinger, que mais tarde se tornaria o papa Bento XVI.

Dom Paulo acompanhou Boff a Roma para defendê-lo no processo. “Ao lado do cardeal Aloysio Lorscheider, ele argumentou a Ratzinger: ‘Damos nosso testemunho de pastores de que se trata de uma teologia edificante e boa para a Igreja’”, lembra o ex-aluno do arcebispo emérito.

Dom Paulo convidou ainda o cardeal a “visitar as comunidades eclesiais no Brasil e rezar com o povo”. Em seguida, negociou que Boff e seu irmão apresentassem um documento à congregação para ressaltar a importância da Teologia da Libertação.

Após o fim da ditadura, dom Paulo seguiu no comando da Arquidiocese paulista até 1998, quando renunciou por limite de idade e tornou-se arcebispo emérito. Nos últimos anos, seu estado de saúde piorou, mas não o suficiente para impedi-lo de comparecer à missa em sua homenagem no sábado 2.

Hoje, quem mais se esforçou em romper com o silêncio da ditadura não tem condições de verbalizar sua posição sobre a crise política no País. Arns não tem dado entrevistas ou declarações públicas, mas quem o conhece garante que sua posição seria contrária ao impeachment de Dilma Rousseff.

“Ele sempre soube de que lado ficar e foi um defensor inarredável da democracia”, afirma Boff. “Ele não tem condições de falar, mas estou certo de que está atento e sofrendo muito com essa situação de ilegalidade.”

Fiel escudeira de tantos anos, Maria Ângela diz que o sacerdote preserva seu hábito de ler diariamente os jornais. “Ele se tornou um homem de oração, mas tenho certeza de que está sensibilizado e rezando muito para o Brasil voltar aos eixos”, diz. “Em suas conversas com Deus, ele deve estar pedindo pela iluminação do povo brasileiro. O carinho pelo povo sempre foi sua principal característica.” 

*Reportagem publicada originalmente na edição 909 de CartaCapital, com o título "A fé a serviço do povo brasileiro"