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Número 908,

Saúde

Investimento

Investir em saúde dá lucro

por Rogério Tuma publicado 11/07/2016 04h43
Priorizar as crianças é um ato de humanidade e dá resultados econômicos
iStockphoto

Um estudo da Universidade Harvard patrocinado pelo governo canadense mostra que a política de priorizar a saúde das crianças nos países em desenvolvimento acaba retornando todo o dinheiro investido com lucro nos próximos 20 anos.

São 300% de lucro, por aumento de produtividade da população, e não o fazer pode causar um impacto, por exemplo, no Brasil, de até 10 pontos negativos no PIB, no mesmo período. 

O estudo faz parte de um programa canadense de saúde pública chamado “Grandes Desafios Canadá: Salvando Cérebros”. 

Em um país onde o investimento do governo é decidido com base no retorno aos bolsos dos governantes será difícil de um investimento para uma década acontecer. Porém, o estudo feito pelo professor Günther Fink e publicado na revista American Journal of Clinical Nutrition mostra que o mundo em desenvolvimento perde 176,8 bilhões de dólares, todo ano, em redução de produtividade por atraso nas carreiras profissionais das crianças quando crescem.

O estudo mostra que nos países de baixa ou média renda, onde há pouco investimento na saúde e consequente baixo desenvolvimento físico e cognitivo das crianças, há uma perda reflexa de quase 70 milhões de anos de educação, se somados anualmente todos os nascidos vivos desses países. Perto de 30% das crianças entre 3 e 4 anos nesses países não atingem o mínimo de desenvolvimento cognitivo e físico esperado. O abismo só se alarga.

Vários estudos mostram que o valor necessário por criança para ter um desenvolvimento adequado nos primeiros anos de vida é de100 dólares, aproximadamente. O trabalho canadense considerou conservadoramente que esse investimento poderia prevenir apenas 20% do atraso de desenvolvimento e sugeriu que o retorno por produtividade nas décadas seguintes fosse de 3:1. Sem levar em conta os ganhos de qualidade de vida e saúde durante toda a existência dessas crianças. 

O custo anual na América Latina do atraso no desenvolvimento infantil é de 47 bilhões de dólares, apenas no Brasil é de 11,5 bilhões de dólares. Se considerarmos um investimento anual de 4 bilhões de dólares em ações para o desenvolvimento infantil, e o aumento de produtividade quando esse cidadão cresce, entra no mercado de trabalho aos 20 anos e se aposenta aos 60, o retorno aos cofres públicos do investimento é de 12 bilhões de dólares ao ano. Um retorno de 3 dólares para cada dólar investido!

O programa canadense Saving Brains desenvolve projetos que facilitam o desenvolvimento infantil. Foram investidos 41 milhões de dólares em 107 programas de inovação que atendem mais de 20 mil crianças em risco. O impacto dessas intervenções e seu uso como modelo serão analisados nos próximos anos. 

Esse tipo de estudo mostra como nossa responsabilidade com as próximas gerações é gigantesca e afeta a todos nós. Políticas de saúde de longo prazo raramente são vistas no Brasil, pois não trazem voto e pouco dinheiro se pode roubar. Mas, se percebermos que nossos filhos não apenas precisam sobreviver, mas também florescer, poderemos em um futuro próximo mudar um destino que agora se apresenta tão sombrio. 

*Publicado originalmente na edição 908 de CartaCapital, com o título "Futuro sombrio"

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