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Número 908,

Sociedade

Online

A matemática contra o pedófilo

por Marcelo Dias — publicado 13/07/2016 04h48
Peritos federais conseguem rastrear os traços de um crime sinistro
Raphael Inácio
Parangaba

Parangaba: know-how de exportação contra a impunidade

Imagine uma operação de busca na selva. Sem mapas, binóculos ou apoio logístico – somente com um facão. Assim eram feitas as operações de combate à pornografia infantil pela Polícia Federal até o dia em que os peritos criminais federais Matheus Polastro e Pedro Eleutério desenvolveram, no estado de Mato Grosso do Sul, o Nudetective.

O programa resume em minutos uma busca que poderia levar meses, encontrando todo o conteúdo pornográfico de pedofilia em computadores, pen drives, smatphones e demais mídias de armazenamento.

Após a mudança do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 2008, que criminalizou a posse de arquivos com conteúdo de pedofilia, a presença de peritos na cena do crime tornou-se essencial para o flagrante.

Para ajudar o trabalho dos peritos existem programas que buscam os arquivos de imagem e vídeo através de sua hash ou sua assinatura digital. Mas, para obter resultados confiáveis, é necessário o mesmo arquivo em um banco de dados prévio. 

A falha é que qualquer alteração feita no conteúdo do arquivo, seja a mudança de um pixel na imagem, o hash muda. Foi depois de uma operação dessas, onde Matheus só localizou os arquivos de forma manual, é que nasceu a ideia do programa.

Logo nos primeiros testes, realizados em sua casa, a detecção de imagens apresentou mais de 90% de acerto. Pressentindo o êxito, ele convidou Pedro para ajudar no desenvolvimento. “Sabia que tinha algo bom em mãos e que meu colega gostava de pesquisa e programação”, conta Matheus. “Pedro topou o convite e, após alguns fins de semana, feriados e noites em claro, nasceu a primeira versão do Nudetective.”

Para o teste pegaram um HD com conteúdo já periciado e rodaram o programa. Conseguiram 95% de acerto em 12 minutos. Seu diferencial era não só buscar pela assinatura digital ou nomes conhecidos, mas por novos arquivos por intermédio da leitura dos pixels presentes na imagem calibrados a uma paleta de tons de pele. Começava a revolução em termos de investigação criminal de pornografia infantil.

Com o sucesso do programa e o reconhecimento nacional e internacional de seu funcionamento, inscreveram-se no Sistema de Pesquisa e Desenvolvimento em Criminalística (Sipes) da Polícia Federal.

Um projeto autônomo, sem pedido de verbas, somente de tempo de serviço, para continuarem com o desenvolvimento do software. A única ressalva era continuar a publicar a pesquisa em congressos para que tudo seja validado pela comunidade científica. Foram os únicos na área de informática com projeto aprovado.

Em 2012, a primeira versão com a busca de vídeos estava pronta. “O número de frames – imagens – em um filme é gigantesco. Selecionar uma parte do vídeo e analisar seria muito demorado”, explica Mateus.

Peritos
Pedro Euleutério e Matheus Polastro: a vigilância alcança computadores, pen drives e smartphones (Foto: Raphael Inácio)

“O comportamento dos envolvidos no vídeo foi a chave. Para chegar a índices de acerto acima dos 80%, precisamos desenvolver uma função matemática própria, que, sendo aplicada, diferenciasse vídeos de pornografia infantil dos demais”, completa Pedro.

Além da detecção de imagens e vídeos, todo o processo de busca e obtenção de resultados é simultâneo. O que economiza tempo e dinheiro, como explica o perito criminal federal, chefe do Setor Técnico-Científico, Everaldo Gomes Parangaba. “O gestor precisa priorizar o que a sociedade necessita”, diz Parangaba.

“Nosso setor mais sensível é o de informática. Uma perícia em computador pode levar meses e o defensor usa essa demora para tumultuar o processo com recursos. Imagine que, com o programa, o que durava meses hoje leva minutos e consegue-se individualizar a culpa, trazendo prudência e celeridade na investigação. Hoje não temos necessidade de parar uma empresa recolhendo todas as suas máquinas, por exemplo. Apesar dos poucos mecanismos de incentivo, fico feliz com a iniciativa e a criatividade deles e em ter apoiado o projeto. Em um assunto sensível como esse o estado de Mato Grosso do Sul é referência, e o melhor de tudo foi diminuir a impunidade nesses casos”, comemora.

A licença de uso do software, que é programado em Java, é gratuita e só é disponibilizada para forças da lei e pesquisas acadêmicas. Segundo seus desenvolvedores, nunca houve o intuito de venda, pois não enxergam sentido em lucrar com algo que seja para salvar crianças. Mas, então, por que não deixá-lo disponível para todos? Somente para que não possa ser utilizado para criar formas de burlá-lo, explicam.

Desde seu lançamento, o Nudetective já foi compartilhado com Argentina, Paraguai, Suécia, Áustria, Noruega, Nova Zelândia e Portugal. Ganhou reconhecimento e premiações em congressos forenses no Brasil e no mundo.

Como o 1º Prêmio Destaque Forense, da Sociedade Brasileira de Ciências Forenses, de melhor artigo científico do biênio 2012-2013 e o Travel Award Winner, da International Association of Forensic Sciences (Iafs), realizado em Seul, na Coreia do Sul, em 2014.