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Número 907,

Política

Entrevista - Eduardo Paes

"A crise do estado não é fruto dos Jogos"

por Miguel Martins publicado 29/06/2016 01h52, última modificação 04/07/2016 11h34
Para o prefeito do Rio de Janeiro, o município vive situação confortável
Tânia Rego/ABr
Eduardo Paes

'Se era para alguém estar quebrado aqui, era a prefeitura'

A menos de dois meses dos Jogos, Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, admite que o espírito olímpico ainda não se manifestou entre os cariocas. “Não vejo ninguém no Brasil muito empolgado com qualquer coisa neste momento.” Na entrevista a seguir, ele critica a tentativa de associação entre a crise do estado e a realização das Olimpíadas, argumenta que a situação do município é confortável e defende o Porto Maravilha, projeto de revitalização da zona portuária da cidade.

CartaCapital: Há relação entre a crise do estado do Rio de Janeiro e as demandas dos Jogos Olímpicos?

Eduardo Paes: É um absurdo dizer que tem a ver com as Olimpíadas. Está claro que o estado não fez nenhum estádio, a maior parte das responsabilidades é do município. Se era para alguém estar quebrado aqui, era a prefeitura. Claro que há uma crise do estado, mas não é fruto dos Jogos. 

CC: O senhor afirma que a situação fiscal do município é confortável, pois o nível de endividamento corresponderia a 30% da receita corrente líquida da prefeitura. Há, porém, um empréstimo de 1 bilhão de dólares do Banco Mundial a ser saldado e uma disputa judicial sobre o valor devido pela prefeitura à União. No longo prazo, a situação pode piorar?

EP: A controvérsia sobre o valor da dívida com a União foi pacificada. Ao longo desse processo, com Lula ainda presidente, fizemos um swap da dívida com o Banco Mundial. Isso permitiu uma redução grande do débito com a União. Logo depois foi aprovada uma lei de renegociação que beneficiou enormemente a cidade de São Paulo e o Rio. Mesmo com o empréstimo do Banco Mundial, diminuímos muito nossa dívida. A Lei de Responsabilidade Fiscal permite endividamento de até 120% da receita corrente e nós apresentamos um quarto dessa proporção. 

CC: Um dos símbolos do legado olímpico, o Porto Maravilha, está na mira das autoridades por causa de uma suposta propina de 52 milhões de reais recebida por Eduardo Cunha para liberar recursos do Fundo de Investimento do FGTS para as obras na zona portuária. O caso delatado pelos executivos da Carioca Engenharia mancha a imagem do projeto? 

EP: Acho que não. Se consideramos a delação de Fábio Cleto, ex-vice-presidente da Caixa, há dezenas de casos de propina em operações do FGTS. Então não há ligação direta com o Porto Maravilha, a obra foi apenas o primeiro caso revelado do esquema. Não tem a ver com a relação entre a prefeitura e o consórcio que realiza as obras na região. É um problema de Brasília e da Caixa Econômica Federal.

CC: Como o senhor avalia as críticas de que o Porto Maravilha elitiza o Centro do Rio?

EP: A descoberta em meio às obras do Cais do Valongo, onde desembarcou mais de 1 milhão de negros escravizados, reforça o contrário. A identidade da origem africana e da diáspora negra virou um assunto muito importante. Acho que, pelo contrário, a origem da região e suas raízes se fortaleceram.

CC: O Comitê Popular das Olimpíadas afirma que mais de 4 mil famílias perderam suas casas por causa dos Jogos. Há a promessa da construção de 10 mil unidades de moradia popular no Centro do Rio nos próximos anos. Por que o projeto está paralisado?

EP: Está encaminhado. A diminuição do Minha Casa Minha Vida a partir do ano passado segurou alguns empreendimentos. Previa-se que alguns deles estariam prontos durante o evento, mas não foi possível. Se Deus quiser, não sei com qual governo ou presidente nessa bagunça brasileira, retomaremos a construção a pleno vapor. 

CC: O carioca está empolgado com as Olimpíadas?

EP: Não vejo ninguém no Brasil muito empolgado com qualquer coisa neste momento. Não é exatamente o melhor momento de humor dos brasileiros. Sabe aquela expressão em inglês, “No news is good news” (nenhuma notícia é uma boa notícia)? A verdade é que as Olimpíadas passaram por esses anos de preparação e agora está tudo pronto. Isso não se via na Copa, havia escândalos um atrás do outro. Não há protestos contra os Jogos. Recentemente, Lula esteve aqui no Rio para o lançamento da candidatura de Jandira Feghali, que faz oposição a mim, e defendeu os Jogos. A própria Dilma elogiou o projeto em uma entrevista. Agora, eu preferia que o clima fosse o mesmo de 2009. Era muito mais agradável, não só para realizar Olimpíadas, mas também para governar e para viver.