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Número 906,

Cultura

Brasiliana

Na zona leste de SP, arte contra o descaso

por Maria Lígia Pagenotto — publicado 24/06/2016 15h32
Em Ermelino Matarazzo, um ponto de descarte de lixo transforma-se em galeria de grafite e alavanca a autoestima dos moradores
Galeria

Leliana Pereira e Liliane Silva, As Libertas, grafite contra a opressão

"E aí, Guga, tá importante, dando entrevista”, provoca um velho conhecido do grafiteiro-agitador cultural-músico-compositor-líder de banda gospel-cozinheiro Jefferson Juliano Gomes, o Guga. “E isso é bom?, responde, sem empolgação. “Não acha?”, continua o amigo. “Sei lá, sou ogro, não sei nada dessas coisas.”

A suposta “ogrice” permaneceu adormecida na manhã de 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente. Guga, 34 anos, era só sorrisos e gentileza. Comandou com doçura e alegria a grafitagem na Rua Císper, em Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo. 

A proposta é grafite em lugar do lixo espalhado pelo muro, explica o líder do Coletivo Cultural Cenário Urbano, grupo com expressiva atuação nas periferias, empenhado em mesclar arte com educação ambiental e responsável pela iniciativa.

O muro rodeia os fundos da fábrica de vidros Císper. Com cerca de 1 quilômetro e uma ameaçadora cerca farpada no alto, é velho conhecido dos moradores. “Há tempos virou depósito de lixo”, constata Lindalva dos Santos Silva, dona de um bar com vista para o paredão, habituada a ver “tudo quanto é coisa encostada ali”, entulho, sofá velho, comida estragada.

Fernando Elizario, outro vizinho, conta que caminhões, Kombis, vans e caçambas trazem sujeira de todo lugar. “Fizeram daqui um lixão.” Edna Alves, dona de salão de beleza próximo do paredão, reclama da situação caótica, mas se anima com a perspectiva do novo visual com a intervenção.

Mais grave que a sujeira e o mau cheiro, o lixo provocou indiretamente a morte de dois moradores atropelados e deixou outro desnorteado e deprimido. Quem conta a história com indignação é Márcia Alves Pereira, liderança do bairro oficialmente conhecido como Jardim Piraquara.

“O lixo não ficava só na calçada apertada. Ia para o meio da rua, e os pedestres tinham de dividir o espaço com os carros. Além de estreita, a via é uma descida e o pessoal vem lá de cima correndo.” Num dos casos, uma senhora foi atingida pelo carro de um vizinho. “O motorista enlouqueceu depois disso. Nunca se recuperou por ter matado a amiga.”

Ermelino Matarazzo
Os moradores precisam sentir que este lugar é de cada um, diz Márcia Alves, líder comunitária, na foto à esquerda (Foto: Marcia Minillo)

No domingo, Márcia celebrava a iniciativa do grafite por sua beleza, mas principalmente pelo resgate de autoestima, sensação de pertencimento e de zelo pelo lugar. “Você pensa que o pessoal da fábrica se importava com o lixo aqui? Nada. E para essa grafitagem eles doaram só algumas latas de tinta.”

Quem patrocina o projeto e dá força para a iniciativa é o Consórcio Soma, empresa responsável pela limpeza urbana nas regiões leste e sul da cidade. “Esse trabalho do Guga é mágico. Veja a alegria das pessoas. Antes da grafitagem, ele veio com o grupo, explicou para os moradores o que iria acontecer, conscientizou todo mundo para tomar conta do pedaço. Os moradores precisam sentir que o lugar é de cada um.”

No coletivo, todos são voluntários. Na liderança ao lado de Guga está André da Silva França, o André Hip Hop, da banda André Paz Racial. “Com o grafite, as comunidades estão revendo o preconceito. Há quem considere todo grafiteiro vagabundo, drogado.” Ozeas Duarte, o Ozi, integrou o mutirão com entusiasmo.

“Aprendi a grafitar com o Alex Vallauri, no fim dos anos 70. Sou da periferia e sei como é importante valorizar a região.” Leliana Pereira e Liliane Silva aproveitaram o momento para mostrar por que se intitulam As Libertas. “Nossa arte é para libertar a mulher de imposições inaceitáveis. Queremos mostrar que grafiteiro não é maloqueiro e mulher também grafita.” 

Grafite
O grafiteiro Ozeas Duarte, o Ozi (Foto: Marcia Minillo)

O agito na rua e no entorno crescia na medida da evolução dos desenhos. Além dos grafiteiros, Guga e sua trupe levaram trilha sonora, pipoca e algodão-doce. Para os pequenos, cama elástica e brinquedo inflável.

Teve ainda quem cuidou dos cabelos e ofereceu dreadlocks coloridíssimos, contadores de histórias, distribuição de preservativos e informação sobre higiene bucal. Tudo patrocinado pela Soma, com apoio da subprefeitura de Ermelino Matarazzo. Moradores mais tímidos aos poucos abriram portões e tomaram as ruas para assistir à transformação.

A satisfação de Guga se via de longe. Subiu e desceu a rua diversas vezes puxando um carrinho de mão e distribuiu água gelada para os incansáveis grafiteiros, 370 nas contas do coletivo. A cada um, palavras de incentivo.

Bonito também foi ver artistas de várias gerações e estilos revestirem o cinza da Rua Císper. Uma festa que, segundo a subprefeitura, vai ter continuidade com o projeto de Rua Aberta aos domingos, quando a circulação de carros será proibida. Espera-se que os dias de muro cinza, mau cheiro e pedestres acuados pelo lixo fiquem para trás. “Não tem dinheiro que pague saber que o nosso coletivo ajudou nessa conquista”, diz o ogro gente boa da zona leste. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 906 de CartaCapital, com o título "Arte contra o descaso"

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