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Número 906,

Internacional

The Observer

A mineração de titânio e o futuro da África do Sul

por Jason Burke, em Xolobeni — publicado 24/06/2016 15h51
A disputa entre uma mineradora australiana e uma comunidade isolada no litoral leste do país africano
Protesto Xolobeni

Os moradores de Xolobeni vivem na pobreza e têm poucos recursos. Mesmo assim resiste ao projeto

As dunas parecem intermináveis. Por trás delas há morros arredondados cobertos de capim, bananeiras, campos de batata-doce e cabanas com teto de palha. Há cavalos, cabras e cachorros, mas não se veem estradas ou cidades, e o único som constante é o estrépito das ondas do Oceano Índico.

Isto é Xolobeni, aldeia remota no litoral leste da África do Sul e o foco de uma dura disputa em torno de um enorme projeto de mineração de titânio. O resultado terá consequências de grande alcance para o país, ao redefinir o lugar do setor mais famoso em uma nação em rápida mudança, abalada pelo fraco crescimento econômico e por profundos problemas sociais, e também para o continente. 

Para os ativistas, a história é simples: uma empresa internacional que explora a mineração pretende desalojar uma comunidade e destruir o meio ambiente para alcançar um minério precioso. Para os apoiadores do projeto, a verdade é o oposto: investidores muito necessários vieram ajudar a África do Sul a explorar um recurso-chave e desenvolver uma região pobre. 

A disputa dividiu os cerca de 10 mil integrantes da comunidade amadiba que vivem na área de Xolobeni. “Talvez a parte mais triste da história seja a divisão de uma comunidade que era forte”, disse Judi Davis, veterana repórter local que cobriu a disputa desde o início, há quase uma década. 

Nos últimos meses, o conflito ganhou ímpeto. Em março, um importante crítico do projeto de mineração, o dono de uma firma de táxis local conhecido como Sikhosiphi “Bazooka” Rhadebe, foi morto a tiros na frente de seu filho adolescente. O negócio de táxis na região é notoriamente violento, e alguns sugerem que uma disputa comercial pode ter causado a morte de Rhadebe.

Outros ligam o crime ao ativismo do taxista. Poucas horas antes do assassinato, o homem de 52 anos havia avisado outra ativista, Nonhle Mbuthuma, da existência de uma lista de vítimas. Ele era o alvo prioritário, segundo disse, mas ela seria a próxima.

África do SulMbuthuma continua em campanha, mas agora é acompanhada de um guarda-costas particular pago por uma ONG e se muda pelas casas de simpatizantes todas as noites. “Não tenho medo de morrer. Apenas me preocupo com o que aconteceria com meu filho de 2 anos se eu partisse. Sei que quando você luta pela terra as chances de ser morta são maiores. Mas eu assumo esse risco.” 

Segundo Mbuthuma, que cresceu nessa área, grande parte do litoral e do interior seria destruída pelo projeto de mineração, com as fontes de água esgotadas, os estoques de peixes solapados, fazendas arrasadas e cerca de 2 mil habitantes deslocados para assentamentos rudimentares, os townships. 

“Isso será um deserto. Eles vão envenenar tudo. Vivemos com as plantas e a natureza e sabemos que sem as plantas não podemos viver. A mina vai envenenar nossa terra. E não somos nada sem a terra. É nossa identidade. Nosso modo de vida morrerá completamente”, afirma.

A mineradora que elaborou o projeto, a MRC, sediada na Austrália, diz que os temores são exagerados. Em um comunicado de seis páginas enviado ao Observer, a companhia explicou que, embora tenha pedido autorização para trabalhar em quase 3 mil hectares de terra, somente um terço dessa área seria afetado e cerca de um décimo realmente minerado. Zonas-tampões protegeriam as áreas mais sensíveis. 

“É importante compreender que a área arrendada para mineração em Xolobeni não ameaça as dunas costeiras virgens, e a reabilitação deixará a terra reformada para o uso agrícola. Casas, escolas e clínicas não serão destruídas para o procedimento da operação de mineração proposta”, dizia a declaração.

Tanto os que são a favor como contra o plano da mina afirmam defender a região. “A comunidade está dividida, certamente. Mas o número dos que são realmente contra a mina é muito pequeno. É uma minoria”, disse Zeka Mnyamana, morador que esteve envolvido com a companhia montada pela MRC para se adequar à lei sul-africana.

Isso não é verdade, dizem os ativistas. “Nossa vida é boa. Plantamos o que precisamos. Sim, é verdade que não temos muitas coisas modernas, limpas, mas não quero ir para outro lugar. Nem meus vizinhos”, disse Mambonte Undule, de 75 anos. 

Os dois lados acusam o outro de se vender. Integrantes importantes da comunidade que apoiam o projeto da mineradora, dizem os ativistas, aceitaram presentes e favores da MRC, enquanto seus adversários afirmam que os ativistas contra a mina são “pagos pela oposição” por ONGs. “É assim que eles financiam seu estilo de vida”, disse um deles. 

A atmosfera em uma recente reunião em Xolobeni em preparação para a visita do ministro nacional da Polícia foi tensa. Para os ativistas, o assassinato de Rhadebe foi o clímax de uma série de incidentes cada vez mais violentos.

Quatro homens aguardam julgamento por ataque violento a uma mulher, crítica da mina. Dois jornalistas foram agredidos recentemente e um espancado quando tentavam cobrir uma manifestação contra o projeto. 

A MRC nega com veemência qualquer envolvimento. Diz que “não se envolve em atividades que incitam a violência”, e que chegou a “suspender operações legítimas para dissolver e mitigar qualquer risco de violência à sua força de trabalho ou a moradores locais”. 

A disputa é vista como um teste para a África do Sul, que luta com profundos problemas políticos e sociais duas décadas após o fim do apartheid. O crescimento econômico é vacilante e o país escapou por pouco de um rebaixamento de sua nota pelas agências internacionais de classificação, para “lixo”, no início deste mês, enquanto o desemprego atingiu o nível mais alto em mais de uma década. 

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

*Reportagem publicada originalmente na edição 906 de CartaCapital, com o título "Almas de titânio"