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Número 905,

Sociedade

Resistência

Reunião com o passado

por Francisco Colaço Pedro — publicado 28/06/2016 01h34
O reino quilombola do Oceano Índico quer defender sua herança do esquecimento cultural
Francisco Pedro
Quilombolas

Uma tradição de dança a evocar a umbigada

*Da Ilha da Reunião

Maio de 1500. A tempestade abate-se sobre a frota de Pedro Álvares Cabral, que ruma ao Oriente após o “descobrimento” do Brasil. Uma das naus perde-se e erra pelo Oceano Índico, até descobrir uma ilha magnífica. Séculos mais tarde, escravos africanos e colonos franceses, trabalhadores indianos e chineses, piratas e deportados farão dela um ponto de encontro único de culturas e religiões. Para além da diversidade cultural, é o deslumbrante cenário natural de suas terras altas que hoje atrai milhares de turistas à Ilha da Reunião. Muitos desconhecem, porém, que esses trilhos pedestres, aldeias remotas e nomes intrigantes são herança de um misterioso reino quilombola. 

Durante dois séculos, escravos trazidos pelos colonos franceses da África continental e, sobretudo, de Madagáscar fogem à crueldade das plantações. A sede de liberdade leva os marrons (do espanhol cimarrón, a designar os animais que regressavam ao estado selvagem e, mais tarde, os escravos fugitivos) às profundezas das mais luxuriantes florestas e aos cumes das montanhas. “Cria-se um reino interior. Os marrons nomeiam chefes, escolhem um rei. Mimetizam a organização social de Madagáscar”, explica o historiador Loran Hoareau, que procura hoje investigar e contar a história dessa resistência.

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O moringue, próximo da capoeira (Foto: Francisco Pedro)

 

Em segredo, eles erguem refúgios semissedentários, reconectam-se com seus antepassados, colhem alimentos e plantas medicinais e atacam as casas dos mestres para roubar comida e utensílios. Há mães com seus filhos que se suicidam nas ravinas, pois preferem a morte a voltar à escravidão. E se no Brasil os escravos não guardavam esperança de rever a África distante, aqui muitos tentam esculpir pirogas sobre troncos de árvore ou roubar botes e aventurar-se num regresso à casa. 

No século XVIII, o marronage toma tal proporção que se torna inimigo número 1 da colônia. “Caçadores de negros” partem no encalço dos foragidos, que serão assassinados ou cruelmente punidos. Com a abolição da escravatura, em 1848, o que acontece àqueles que ainda estão em marronage? “Não sabemos”, confessa Loran, para quem há sempre uma dimensão de mistério no interior da ilha. “À falta de fatos perduram a mitologia e o imaginário”, conta Karl Kugel, fotógrafo que há 20 anos investiga as relações entre a África e a cultura reunionesa. “Escrever esta história é um dever... E ao mesmo tempo uma história impossível de escrever.” Mas o “milagre da memória imaterial” permite o conhecimento das práticas culturais do povo escravizado.

O maloya é a alma musical da Reunião. “A primeira vez que escutei fiquei completamente transcendida. É uma música transmitida oralmente, que permitia ao escravos exorcizar sua dor.” Marie Lanfroy é a vocalista do grupo Saodaj’ – da palavra portuguesa saudade, transcrita em crioulo – que mistura o maloya com sons do mundo. “É uma música influenciada por várias culturas. A música de todos os possíveis.” Entre a percussão tradicional do maloya está o bob, irmão do berimbau, presente em várias ilhas do Índico.

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O grupo Saodaj’ (Foto: Francisco Pedro)

“Há um laço de parentesco entre os fenômenos culturais de resistência”, explica Loran Hoarau. “O que no Brasil se tornou a capoeira, para nós tornou-se o moringue.” Essa dança de combate popular entre os escravos e desdenhada pela sociedade colonial era praticada também em Madagáscar e em Mayotte. Nos anos 1990, Karl Kugel partiu à descoberta das suas raízes e descobriu-as nas danças tradicionais do norte de Moçambique.

“A ligação entre o moringue e a capoeira, que se dizia vir de Angola, era um mistério. Subestimamos a importância do tráfico de escravos vindos de Moçambique. A minha hipótese é a de que eles deram origem ao moringue no oceano indiano e partilharam também suas danças no Brasil, contribuindo para aquilo que é hoje a capoeira.” 

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O Circo de Mafate, atração para os caminhantes (Foto: Francisco Pedro)

A partir dos anos 1960, com a passagem da Reunião a departamento francês, vários aspectos da cultura reunionesa correram o risco de desaparecer, varridos pela modernidade. “Um genocídio cultural”, denuncia Christophe Barret. “Resistimos contra o rolo compressor da assimilação. Ele quer abolir a creoulização da Reunião, confundir a nossa história com a da França, que enriqueceu graças à escravatura.” Esse poeta e ativista tem protagonizado várias ações, como a substituição dos nomes de colonos pelos de heróis escravos em placas de ruas por toda a ilha.

“Devemos tirar esses símbolos do nosso universo, contar nossas histórias, escolher nossos heróis. Somos forçados a reconstruir uma cultura. Essa é também a nossa força. Fazer viver o maloya, o moringue, é lembrar nossas raízes, nossos antepassados marrons, e voltar àquilo que nos é próprio.” 

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