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Número 905,

Saúde

Doença de Parkinson

A doença que nocauteou Ali

por Rogério Tuma publicado 14/06/2016 04h27
Ele tinha 42 anos e disse ao neurologista: “Algo de errado está acontecendo”
Everett Collection/Fotoarena
Ali

“Não conte os dias, faça os dias contarem”

O maior boxeador de todos os tempos foi nocauteado dia 4, com 74 anos, após lutar incansavelmente contra a doença de Parkinson por 34 anos. 

Para a diretora do centro médico que leva o nome de Ali, Holly Shill, não se pode provar que foi o boxe que levou o pugilista a desenvolver o mal, pois, apesar de sabermos que trauma craniano grave e repetitivo está associado a um maior risco de se desenvolver a doença, não se pode comprovar uma relação direta de causa e efeito.

A doutora Shill alega que Ali poderia ter sofrido do mesmo mal, mesmo se tivesse escolhido ser advogado em vez de pugilista. Contudo, Ali disse logo na primeira consulta ao neurologista Stanley Fahn, que diagnosticou a sua doença em 1990: “Eu luto boxe por 30 anos, recebi muitas e boas pancadas, portanto, acredito que algo de errado pode estar acontecendo”. Naquela época, Ali tinha 42 anos, e Parkinson rarissimamente ocorre antes dos 60 anos.

O que se sabe é que pugilismo profissional realmente lesa o cérebro. As áreas encontradas nos exames de imagem de boxeadores são de cicatrizes, como se fossem de múltiplas isquemias ou sangramentos, e devem ser consideradas lesões ocupacionais.

Desde 1928, quando o patologista Harrison Martland descreveu a síndrome do “bêbado por soco”, no Journal of the Americam Medical Assotiation: pugilistas, após receberem um soco certeiro, ficavam confusos e abobalhados por algum tempo. Martland estimou que metade dos boxeadores profissionais apresentava esse quadro.

Atualmente, a síndrome do “bêbado por soco” é chamada de encefalopatia crônica traumática e está relacionada ao aparecimento precoce de doenças neurodegenerativas, como Parkinson e demência. Outros campeões tiveram o mesmo destino. Joe Louis morreu de demência e Sugar Ray Robinson morreu de Alzheimer.

Os casos estão mais associados com demência do que com Parkinson, e pugilistas que apresentam um gene conhecido como ApoE4 têm risco ainda maior de desenvolverem demência por encefalopatia traumática. Existe também uma correlação da intensidade da doença com o número de anos do esporte praticado: quanto mais tempo lutando, pior, pois a doença continua progredindo, mesmo interrompendo o pugilismo.

O que se sabe atualmente é que o chacoalhar da cabeça, após um soco, faz com que o cérebro que está lá dentro parado por inércia se choque no crânio, amassando-o e provocando ruptura de pequenos vasos, com consequentes hemorragias intracerebrais. Além disso, o cérebro é composto de camadas de diferentes densidades que deslizam umas sobre as outras na hora do impacto, causando a interrupcão de suas conexões.

O mesmo ocorre em outros esportes de impacto, como o futebol americano, porém o boxe é o único esporte onde o objetivo é o de acertar a cabeça do oponente com o intuito de provocar trauma cerebral – a ponto de tirar a consciência do adversário e, portanto, nocauteá-lo.

Muhammad morreu, mas não sem antes fazer muitos pontos contra seu adversário. Em 1997, ele juntou-se ao seu neurologista e a um filantropo de Phoenix, Arizona, para criar o Muhammad Ali Parkinson Center. Não há cura para a doença de Parkinson, e sim bom controle com manutenção da qualidade de vida do paciente por muitas décadas. Ali visitava frequentemente o centro com seu nome para animar os pacientes que sofriam como ele, e inspirava jovens médicos a escolherem o Parkinson como sua área de estudos.

O Centro Muhammad Ali recebe mais de 10 mil visitas de pacientes ao ano e é uma das maiores referências mundiais para o estudo das doenças do movimento, juntamente com a Fundação Michel J. Fox – criada pelo ator também vítima do mal. É também um dos maiores patrocinadores de pesquisa na busca da cura de um mal que atinge milhões no mundo e perto de 700 mil brasileiros. Ali cai, mas mantém o eterno cinturão de campeão. 

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