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Número 904,

Cultura

Literatura

Uma ode à palavra

por Rosane Pavam publicado 10/06/2016 16h37
Pesquisador português organiza e edita os manuscritos do teórico Pierre Hourcade sobre a obra de Fernando Pessoa
Fernando Pessoa

Pessoa, o poeta inapreensível da inquietação e da dor

A pátria de Fernando Pessoa não era apenas a língua portuguesa. Aos 42 anos, o poeta via expandir em traduções a obra que assinara com o próprio nome ou com 105 outros, seus heterônimos. Duas décadas mais jovem, o professor Pierre Hourcade, responsável por verter pela primeira vez seus versos em português e inglês a uma língua estrangeira, o francês, desejava conhecer o poeta pessoalmente. Em fevereiro de 1930, encontraram-se no Café Martinho da Arcada, em Lisboa.

Pessoa animou-se. Os dois tinham muito em comum. Houcarde via Portugal como uma terra propícia ao suicídio dos poetas, que ali poriam fim à vida não por suas ideias, mas pela ausência delas. E Pessoa escrevera em Tabacaria, sob a alcunha Álvaro de Campos: “Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada”. Os dois trocaram livros, ideias e informações. Concordaram sobre a pequenez do mundo onde viviam. Nascia uma grande amizade.

Hourcade entendeu-o resignado enquanto homem, ousado enquanto poeta. A bem dizer, um gênio poético. “Deixa muito para trás os nossos pálidos e secos teóricos de vanguarda”, escreveu na revista parisiense Contacts ao relatar esse encontro, quatro meses depois. O poeta se disse lisonjeado com os artigos do autor francês em torno de sua obra. “Gostava de ter em Lisboa um Pierre Hourcade com quem conversar”, escreveu a João Gaspar Simões, um amigo que seria seu primeiro biógrafo.

Em uma ocasião, Pessoa confessou que lhe agradaria ver o jovem professor contratado pela Faculdade de Letras de Lisboa. O desejo concretizou-se entre outubro de 1933 e dezembro de 1934, período em que o francês atuou na instituição. Os encontros entre os dois tornaram-se frequentes. Mas, no ano seguinte, o Brasil se interpôs entre eles. Junto a Roger Bastide e Claude Lévi-Strauss, Hourcade integraria a equipe pioneira de docentes da Universidade de São Paulo. Embora se dissesse contente pela “formidável notícia”, Pessoa lamentou o vazio que a ausência do amigo deixaria nele e em todos os que o conheceram. 

Carmino Marques
O professor Carmino Marques tirou da poeira os manuscritos do primeiro tradutor do poeta (Foto: Univ. Metodista de São Paulo)

Hourcade estava na capital paulista, de onde partiria para o conhecimento de autores brasileiros como José Lins do Rego e Jorge Amado, este cujas obras também verte de maneira pioneira ao francês, quando Pessoa morreu precocemente, aos 47 anos, em novembro de 1935. Mas a notícia chegou até ele apenas em janeiro de 1936. Dominado pela emoção, o francês relembrou os encontros com o poeta e disse que jamais o esqueceria. Uma promessa que se cumpriu como sina. Por cinco décadas, até a sua morte aos 74 anos, em 1983, o francês persistiria na redação dos manuscritos inconclusos agora transformados no livro A Mais Incerta das Certezas – Itinerário Poético de Fernando Pessoa, lançado em Portugal pela editora Tinta da China, sem previsão de edição no Brasil.

O estudo terminaria em uma mala guardada na casa de seus herdeiros se o professor Fernando Carmino Marques, de 53 anos, atuante nas universidades de Lisboa e da Guarda, não tivesse se dado conta da primeira menção de apreço a Hourcade. “Pessoa era muito reservado em relação a emoções, então achei que havia na carta a Gaspar Simões qualquer coisa para além”, conta a CartaCapital em Santo André, onde se hospedou para a série de palestras O Ser, a Consciência e o Agir em Fernando Pessoa, na Universidade Metodista até 7 de junho.

A Mais Incerta das Certezas – Itinerário Poético de Fernando Pessoa. Pierre Hourcade. Edição e tradução de Fernando Carmino Marques. Tinta da China, 488 págs., 15,21 euros. A venda em www.tintadachina.pt

“Procurei mais cartas trocadas entre eles, pertencentes ao espólio de Pessoa, e estabeleci uma ligação entre os dois. Este livro é, portanto, o fruto do acaso desta leitura e da sorte de ter encontrado a família de Hourcade, que pôs ao meu dispor os manuscritos de que ninguém tinha notícia. Por sete anos, foi preciso tirar a poeira dos papéis acumulados desde 1930 para revelar, traduzir e organizar seu conteúdo.”

Neste estudo que Carmino Marques considera revolucionário, Hourcade parece desejar extrair o excesso interpretativo sobre a obra de Fernando Pessoa. Os grandes teóricos, como Adolfo Casais Monteiro ou João Gaspar Simões, ativeram-se mais à vida do poeta do que a seu poema. E a crítica procurou ver uma unidade inexistente entre os heterônimos.

Com Hourcade, entretanto, tudo pareceu diferente: “Procuro apenas ver, mostrar, ou tentar destacar o que é aparente e, por ser aparente, muitas vezes negligenciado ou desvalorizado”, escreveu ele em A Mais Incerta das Certezas. “Em resumo, fico-me pela superfície. Poderia justificar esta opção evocando Alberto Caeiro: ‘O essencial é saber ver. As coisas são o único sentido oculto das coisas.’ Ou Ricardo Reis, seu discípulo por vezes infiel: ‘A natureza é só uma superfície. Na sua superfície ela é profunda. E tudo contém muito se os olhos bem olharem’.”

O livro percorre a obra poética de Fernando Pessoa antes de 1914, expõe fac-símiles de cartas e publicações originais, relaciona fotos de Hourcade com portugueses e brasileiros. E aprofunda os estudos sobre os principais heterônimos do poeta surgidos até os anos 1930, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Analisa os poemas em que o autor assinou seu próprio nome, além de deter-se no livro Mensagem, o único publicado em português até a morte de seu autor.  

Hourcade, Jorge Amado e José Lins do Rego
O escritor Jorge Amado (esq.) ao lado do francês Pierre Hourcade, seu primeiro tradutor. À direita da foto realizada no rio, em 1936, o amigo em comum José Lins do Rego

Para Carmino Marques, Fernando Pessoa não é um autor fácil, porque nunca se deixa apreender. “Sua inquietação permanente não nos conforta em nosso ser. Daí talvez sua grandeza, sua modernidade sem limites, precisamente porque a inquietação é tão própria de nossa sociedade.” Em Portugal, a fama atrapalha sua compreensão, porque, além de obrigatório nas escolas quando ainda não há maturidade para aceitá-lo, o poeta tem a face impressa em tudo, de azulejos a camisetas. “O marketing quer recuperar qualquer ideia para transformá-la em negócio de ocasião. E Fernando Pessoa, pelo contrário, está mais para um companheiro da vida inteira.” 

Toda leitura dessa grande poesia, crê Carmino Marques, deve prescindir de comentários. “O que importa é o Fernando Pessoa poeta, antes de mais. E não o Pessoa das prosas à volta, que têm qualidade, mas não valem a mistificação. Não se trata de um filósofo, romancista, contista. Mas de um gênio na poesia, e já chega.” O que salta deste livro, no fundo, é a dor do poeta, que, no entanto, ele jamais revela. Seus poemas trazem um ir e vir de sensações, uma luta entre a expressão racional e o sentimento. “Teremos de ler nas entrelinhas o fio condutor dessa dor, nascida da desagregação de seu ser.” 

Alcançar Pessoa é acreditar no seu fingimento. “No fundo, ele traduz em poesia o que os filósofos gregos pressentiam ao reproduzir a natureza. O artista finge porque apenas imita a natureza.” Em suas palestras sobre Pessoa, Carmino Marques fixa conceitos em torno da palavra, que parece perder-se no universo da internet. “Mas é uma questão de tempo para que ela volte. Podemos esquecer um ato, mas raramente uma palavra que nos ficou, de carinho, louvor ou humilhação. A palavra é essencial na constituição do ser humano.” A poesia, como ele vê, tem esse privilégio de unir as pessoas em torno da língua, mesmo que sejam essencialmente diferentes, como aquelas de Portugal e Brasil.

Para ele, um país permanece relevante enquanto preserva sua cultura, que não pode ser tratada de ânimo leve, sem preocupação. “Faz muito mais por nós, brasileiros e portugueses, um bom escritor bem divulgado do que qualquer palmito ou vinho do Porto à venda. O peso econômico da cultura é essencial, como o sabem os anglo-saxônicos, que sempre a acarinharam e apoiaram. Por que não fazemos o mesmo?” Sobre o obscurantismo que ameaça a cultura no Brasil, ele afasta qualquer dúvida: “A ignorância pretende impor-se. É como ela funciona. Mas não podemos ceder ao medo. Se nos calarmos, quem vai falar em nosso lugar? Por vezes parece desesperante, mas temos de ir à luta. Não há outra saída possível”.