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Número 903,

Cultura

Papinho Gourmet

Fim do mundo

por Marcio Alemão publicado 03/06/2016 15h29, última modificação 04/06/2016 21h09
– E num belo dia fizeram um supermercado e acabaram com o cinema e o bazar onde vendiam panelas, brinquedos e eletrodomésticos
Ilustração: Estella Maris / Fotos: iStockPhoto e ShutterStock
Papinho-Gourmet

Falam do final dos tempos, mas, se a gente parar e pensar, acho que já aconteceu e nós o aceitamos sorrindo

–Antes de a gente entrar no papinho, um comentário recorrente sobre o valor das contas no supermercado.

– Sobem todo dia.

– Não diria que sobem todos os dias, mas chegaram em um valor que fica difícil entender, aceitar. Não tem mais queijo com preço razoável. Azeite virou uma piração forte. Bons vinagres é melhor esquecer.

– E as carnes? E o tal frango Korin?

– Pergunta que não quer calar: por que só a Korin vende frango orgânico? Pergunta que não quer calar 2: por que a carne da sobrecoxa dos monopolistas frangos Korin está idêntica à do peito?

– Também não sei responder e vou ser franco, já que o assunto é galinha.

– Espera. Foi uma infeliz tentativa de fazer um trocadilho?

– Ficou com pena de mim?

– Basta. Segue com o bonde.

– Um belíssimo bife de filé de costela do Wessel. Comprei no supermercado por 22 reais. Lindão, bem marmorizado, nacos de gordura no lugar certo e excelente espessura.

– Acho que sei do que você vai falar. Em churrascaria, um bife desses não sai por menos de 70 reais.

– Sabemos de tudo: aluguel, impostos, funcionários... ou seja: nem dá pra dizer que seja um preço extorsivo, mas é um valor alto.

– Solução: comer em casa ou proteger seu cólon e deixar a carne de lado.

– Se o preço dos pescados ajudasse, por que não?

– Tem um lado positivo nisso tudo. Estamos fazendo como fazem as pessoas no mundo civilizado: comem fora uma vez por semana, se forem perdulárias. Uma vez por mês seria o mais razoável.

– Também existe o restaurante do bairro, que é sempre mais em conta que o dos pontos turísticos das cidades.

– Aqui ainda não temos essa cultura. Ou o restaurante é ruinzinho ou ganha fama e passa a ser frequentado por “turistas” e o preço vira preço de lugar chique.

– Ainda temos padarias em bairro, as feiras livres, uma ou outra quitanda.

– Açougue precisa dar sorte. É mais difícil encontrar matéria-prima muito boa em açougues de bairro.

– Idem com as peixarias. Aliás, vale a pena investigar, mas a sensação que eu tenho é de que as peixarias estão sumindo.

– Tudo que se pesca vira sushi e sashimi.

– Verdade. Pode não estar sobrando para outro tipo de consumo.

– Eu me lembro de sair com minha mãe, a pé, e ir passando na quitanda, no açougue, na peixaria – mas quando ela comprava carne não comprava peixe –, no armazém.

– E num belo dia fizeram um supermercado e acabaram com o cinema e o bazar onde vendiam panelas, brinquedos e eletrodomésticos.

– Pois então! Falam do final dos tempos, mas, se a gente parar e pensar, acho que já aconteceu e nós o aceitamos sorrindo.