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Número 903,

Internacional

Geopolitica

Em busca do Führer

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 02/06/2016 03h50, última modificação 04/06/2016 21h03
O crescimento mundial das direitas está relacionado a uma perspectiva de crise e escassez permanentes
DAVID LAGERLÖF/EXPO/TT NEWS AGENCY
Tess Asplund

Não passarão? O desafio da afro-sueca Tess Asplund ao neonazismo é uma questão mundial

Foi por um triz. Em 24 de abril, na eleição presidencial da Áustria, os candidatos do bipartidarismo tradicional, partido social-democrata (centro-esquerda) e partido popular (democrata-cristão) ficaram em quarto e quinto lugares com pouco mais de 10% dos votos cada um. Norbert Hofer, do Partido da Liberdade (FPÖ), ganhou o primeiro turno com 35%. 

A sugestão de liberalismo nesse nome é tão enganosa quanto a de socialismo no Partido Nacional-Socialista do passado, do qual descende. Desde sua fundação, em 1956, o símbolo do partido é a flor de centáurea usada pelos nazistas austríacos durante a clandestinidade imposta pelo regime “austrofascista” de Engelbert Dollfuss de 1934 a 1938.

Assim como na Frente Nacional francesa, seus políticos e militantes negam ser neonazistas e são advertidos e ocasionalmente afastados quando fazem declarações mais explícitas em público, mas nenhum austríaco ignora a relação.

Mesmo assim, nas últimas pesquisas para o segundo turno, seu candidato apareceu como favorito, e nos resultados preliminares do domingo 22 surgiu como vencedor, com 51,9% dos votos. Foi só na segunda-feira, ao serem contados os votos enviados pelo correio por austríacos no exterior, principalmente da Alemanha, que a contagem favoreceu o rival moderado e “verde”, o economista Alexander van der Bellen, com 50,3%.

Que o alívio não faça esquecer a seriedade da advertência. O FPÖ segue favorito para as eleições parlamentares que devem acontecer até 2018, com algo em torno de 33% (em 2013 ficou em terceiro, com 20,5%) e a extrema-direita faz avanços em toda a Europa.

Na vizinha Alemanha, onde a ultradireita era marginal desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o partido xenófobo Alternativa para a Alemanha (AfD) irrompeu no cenário político com um quarto dos votos em eleições regionais. Há dias, quis organizar um evento na mesma cervejaria de Munique na qual Adolf Hitler fez seu primeiro discurso, forçou-a a ceder na Justiça e só recuou ante a ameaça de protestos agressivos.

 Na Hungria e Polônia, governam partidos de ultradireita com uma mensagem autoritária. Na Suécia, Suíça, Grécia, França e Norte da Itália, partidos xenófobos e às vezes abertamente neofascistas têm votações substanciais, embora sua rejeição pelos partidos tradicionais ainda os afaste de coalizões e vitórias nacionais em segundo turno. Na Ucrânia, os neonazistas são uma força política e militar com influência no governo e batalhões próprios.

Painel
A ultradireita de Hofer (esq.) perdeu por uma diferença de 0,6%,graças aos votos de eleitores no exterior (Foto: Heinz-Peter Bader/Reuters)

Não é um fenômeno apenas europeu. Em Israel, o general Yair Golan, vice-chefe do Estado-Maior, advertiu no dia israelense de lembrança do Holocausto (5 de maio) que vê em seu país evidências das mesmas “tendências revoltantes” da Alemanha dos anos 1930: “Nada há mais fácil do que odiar os diferentes; nada mais fácil do que semear medo e terror; nada mais fácil do que se portar como animal e se conformar presunçosamente à maioria”. Foi criticado por Benjamin Netanyahu, atacado pela mídia conservadora e obrigado a se desdizer.

Dias depois, a comemoração dos 68 anos de independência foi marcada pelo lema “Um Povo, Um Estado”, que, além de excluir as minorias árabe e drusa, ficou a um passo de incluir “Um Führer” e repetir literalmente o III Reich. E ainda, antes do fim do mês, Netanyahu fechou com Avigdor Lieberman e os colonos extremistas a coalizão mais direitista a governar o país em sua história.

Nos Estados Unidos, Donald Trump acaba de se tornar o candidato republicano com um discurso xenófobo e nacionalista. Na Turquia, o partido islâmico de Recep Tayyip Erdogan tende a abandonar a moderação e impor um nacionalismo semiautoritário similar ao de Vladimir Putin.

Nas Filipinas, Rodrigo Duterte foi eleito presidente com a promessa de executar criminosos e prepara-se uma grandiosa homenagem ao falecido ditador Ferdinand Marcos. A “mão dura” dos Fujimori venceu o primeiro turno no Peru e similares como Jair Bolsonaro despontam em meio ao golpe parlamentar no Brasil, por ora apenas neoliberal. 

É difícil ver em tudo isso meras coincidências. Há exceções, mas uma onda de radicalismo direitista se afirma em grande parte do mundo. Não se trata apenas de um retorno “pendular” do neoliberalismo ou conservadorismo, com ou sem a ajuda da CIA, após supostos excessos “populistas” da centro-esquerda.

Ao contrário, trata-se de outra forma de populismo, que em certos aspectos contraria as elites financeiras, os defensores da globalização e as estratégias de Washington e Bruxelas, mesmo se muitos destes talvez os considerem males menores ante as alternativas de esquerda.

É uma tendência tão definida quanto a “onda rosa” que tomou grande parte da América Latina na primeira década dos anos 2000 e mais generalizada. Como explicá-la sem teorias conspiratórias?

O historiador estadunidense Timothy Snyder, especialista no Holocausto, levantou uma tese interessante com seu livro Black Earth: The Holocaust as History and Warning (Terra Preta: o Holocausto como História e Advertência), lançado em setembro de 2015.

Coreografia
O lema “Um Povo, Um Estado” ressurge em coreografia de soldados de Israel ao comemorar 68 anos de independência. Na atual conjuntura, não são palavras vazias

A obra talvez tente demonstrar demais ao assumir uma defesa incondicional do Estado-nação e tentar caracterizar o nazismo não como totalitarismo ultranacionalista, mas como um processo anarquista (!) de destruição do Estado em nome da raça, como se não fosse típico da história de Estados-nações anexar, colonizar ou submeter rivais mais fracos e destruir suas instituições.

Isto se relaciona à sua agenda crítica à pregação Tea Party contra o Estado, que o leva a se esforçar por dar a este conceito uma conotação positiva e pacífica e ignorar sua história problemática.

Outro aspecto do seu argumento soa mais esclarecedor ante a atualidade. Aponta na raiz do Holocausto e do Mein Kampf de Adolf Hitler o “pânico ecológico”: a ideia de um futuro de escassez e luta eterna por recursos finitos, ante o qual qualquer ideia de ética em política seria pura hipocrisia para encobrir o imperativo da luta de raças em nome do Lebensraum, “espaço vital” para a sobrevivência e conforto das famílias alemãs em busca de um padrão de vida cuja referência eram os Estados Unidos de seu tempo.

Daí a obsessão pela conquista do fértil chernossolo ou “terra preta” da Ucrânia para afastar a ameaça da fome do III Reich do futuro com o qual sonhava, vasto, rico e populoso como os EUA resultantes da destruição dos indígenas e da conquista das suas terras férteis no Centro-Oeste.

Por trás desse pensamento estava também o ceticismo sobre a promessa de paz e abundância por meio do progresso científico, considerada pelo nazismo como um complô judaico para distrair os alemães da inevitabilidade da Guerra.

Em um segundo livro não publicado em vida, o futuro ditador insistia no suposto fracasso da agronomia científica e a impossibilidade de mudar as relações entre povo e terra por meio de irrigação, híbridos e fertilizantes de modo a alimentar os alemães com a produção no território definido em Versalhes.

Hitler estava factualmente errado, diz o historiador, pois a “revolução verde” dos anos 1950 multiplicou as safras a ponto de fazer da Europa uma exportadora de alimentos e da superprodução um problema maior que a escassez.

Entretanto, a mudança climática do século XXI, os consequentes fenômenos de agravamento de secas, tempestades e inundações (e as dúvidas sobre a sustentabilidade a longo prazo da agricultura e indústria contemporâneas, podemos acrescentar) tornam a narrativa hitlerista mais plausível e criam oportunidades, diz Snyder, para políticos explorarem e alimentarem a mesma sensação de catástrofe iminente como matéria-prima para o retorno da demagogia do sangue e do solo, enquanto desdenham a política tradicional e a espera por soluções científicas.

Mesmo quem ainda não tem sensibilidade para o desastre ecológico pode perceber a estagnação do crescimento econômico mundial desde 2008. O crescimento mundial das últimas décadas deveu-se menos a novas tecnologias que à industrialização da China.

Apesar da “terceira revolução industrial”, o crescimento da produtividade nos EUA foi de meros 0,6% anual de 2004-2009 e 0,5% de 2009 em diante. Soluções generosas pedem dinamismo e otimismo como as da “era de ouro” do capitalismo do pós-Guerra ou da América Latina do boom de commodities, reflexo do boom asiático hoje em vias de esgotamento.

Em um ambiente de baixo crescimento e risco de colapso, a economia é um jogo de soma zero, vulgo “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Quem não é poderoso o bastante para jogá-lo como indivíduo pode se agrupar com semelhantes de uma maioria normativa (não necessariamente numérica) “racial” ou “cultural” contra os “outros”, negros, imigrantes, homossexuais, muçulmanos, judeus ou quem parecer vulnerável em seu contexto.

Aceita abrir mão de liberdade e individualidade para um líder autoritário se este lhe prometer segurança e conforto à custa da expulsão ou opressão dos excluídos.

Em passagens que merecem reflexão, Snyder nos incita a esquecer a ilusão de possuirmos alguma virtude inata que tenha faltado a quem outrora aceitou Hitler e Benito Mussolini. Ante temores e expectativas análogas, muitos de nós talvez façamos escolhas parecidas. Alguns já as fazem.