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Número 903,

Cultura

Reflexão

Como a filosofia grega pode iluminar as trevas mentais

por Nirlando Beirão publicado 10/06/2016 16h47
Neste momento de crise, não custa buscar uma ajudinha junto aos fecundos sucessores de Platão e Aristóteles
Lanterna-de-Diógenes

Diógenes, cínico nada cínico, procurava um homem honesto. Aqui seria penoso

Os atenienses da Antiguidade inventaram, para a convivência na pólis, um sistema chamado democracia. Restringia-se à casta dos senhores, ideal de “democracia” a ser sonhado pelos paneleiros do futuro, já que inacessível ao andar de baixo da sociedade.

Mas, de todo modo, o regime assegurava aos cidadãos o direito à livre divergência de pensamento, até que, como ocorreu com o incômodo Sócrates, um deles fosse condenado ao impeachment, perdão, ao ostracismo, ou então sutilmente persuadido a ingerir uma dose de cicuta.  

Os gregos antigos também eram dados a filosofar, mas em geral o livre pensamento trazia embutido o compromisso com a ética e com a busca da felicidade. Várias escolas sucederam-se, estendendo sua influência por outras culturas “bárbaras” ao longo dos séculos.

Assim sendo, não custa buscar, neste momento de crise (do grego krysis, ou seja, situação aguda que obriga a uma decisão) uma ajudinha junto aos fecundos sucessores de Platão e Aristóteles.

— HEDONISTAS —

De Aristipo de Cirene, contemporâneo de Sócrates, se diz ter vivido 100 anos (entre 435 e 335 antes de Cristo), o que atesta pessoalmente a eficácia terapêutica da ética que ele fundou, baseada na ideia de que o prazer é o próprio sentido da vida (hedon, em grego, significa prazer).

Aristipo, que se iniciou como erudito na corte de Dionísio de Siracusa antes de seguir para Atenas, dizia que há dois estados da alma, o prazer (“movimento suave do amor”) e a dor (“movimento áspero do amor”) e que a felicidade consiste em sobrepujar a dor do espírito com o prazer do corpo – e quanto mais tempo durar, quanto mais intenso for o prazer, maior será o acesso à felicidade.

“Só o presente é nosso, não o momento passado, nem aquele que aguardamos, porque um já está destruído e o outro não sabemos se existirá.”

Este não é o melhor momento para o hedonismo vicejar. Por seu imediatismo guloso combina mais com a pataquada empresarial que começa na Fiesp e que, em sucessivas fintas contra o Fisco, vai se refestelar nos prazerosos paraísos do Panamá, das Ilhas Cayman e dos bancos suíços.    

— CÍNICOS —

Não faz muito tempo que cinismo passou, equivocadamente, a designar insinceridade e desprezo pela verdade e pela virtude, o que afasta de cara a suspeita de que esta escola filosófica -– originalmente bastante afeita a um padrão de conduta ética – tenha qualquer coisa a ver com esse PMDB viscoso do Temer, do Cunha e do Sarney.

A doutrina foi desenhada, de início, por Antístenes (445-365 a.C.), discípulo de Sócrates, e resistiu até o período helênico.

Seu ícone maior foi, de todo modo, Diógenes de Sinope (412-323 a.C.), que pregava, bem ao contrário do que fazem os 367 vendilhões do impeachment, um desapego radical aos bens materiais. Kynós, em grego, quer dizer cão, e Diógenes costuma ser retratado numa caverna vivendo como um cão, despojado de vestes, descrendo de todas as instituições sociais, econômicas, políticas, e assim demonstrando que o homem não depende senão de si mesmo para atingir o objetivo da virtude moral. Conta a lenda que Diógenes andava pelas ruas de Atenas carregando uma lanterna. Dizia estar à procura de um homem honesto. Perderia seu tempo, em meio aos tiriricas do nosso golpe.

— SOFISTAS —

A Grécia Antiga, assim como os atuais arautos do neoliberalismo, desobrigava-se de oferecer educação pública a seus cidadãos. Muito dessa tarefa era desincumbida por professores itinerantes, chamados sofistas (de sofia, sabedoria).

Com pose de “sábios”, eles – a exemplo dos nossos enfatuados magistrados dos tribunais superiores – não estavam interessados na procura da verdade, e  sim em buscar um refinamento na arte de vencer as discussões, encantados que ficavam – confere, presidente FHC? – com a melodia dissimuladora de suas próprias palavras.

Eram, portanto, marqueteiros avant la lettre. Praticavam, desde o pioneiro Protágoras (490-421 a.C.) e até os dias do rotundo procurador Janot e do bombado juiz Moro, a premissa de que a verdade é relativa, de acordo com o lugar, o tempo e o partido político em que o indivíduo estiver inserido. 

  —  EPICURISTAS —

O epicurismo é uma doutrina fundada muito mais na física do que na metafísica – muito mais tributária da objetividade do que da abstração. Epicuro de Samos (341-270 a.C.) desenvolveu uma teoria mecânica do universo pela qual o princípio de tudo é a matéria e acreditava que até a alma é mortal.

Se deuses há, como queriam crer os cidadãos da pólis grega e querem nos impor hoje os carolas tupiniquins da Câmara dos Deputados, são totalmente indiferentes à sorte dos homens e do mundo, já que vivem numa esfera de beatitude já atingida (a ideia da criação é uma tolice, diziam os epicuristas).

Cabe aos homens buscarem a felicidade (e, por extensão, a liberdade) por conta própria, através dos sentidos. Mas a procura do prazer não deve ser – como querem os hedonistas – desbragada, incondicionalmente sensual.

Os prazeres intelectuais estão sempre uma oitava acima dos prazeres sensíveis. O desejo é inimigo do sossego, dizia Epicuro. Sem prudência e razão, advertia o romano Lucrécio (autor de De Rerum Naturam), não há vida feliz – e, em acréscimo contemporâneo, nem golpe que dê certo. 

— ESTOICOS —

Zenão de Cítio (333-263 a.C.) nasceu em Chipre e nunca foi aceito como um cidadão ateniense de direitos plenos, o que talvez explique por que o estoicismo esteja impregnado de um componente oriental de – a noção é posterior – resignação zen.

Teve apelo cosmopolita e cinco séculos depois ainda havia quem, como o imperador romano Marco Aurélio, se filiasse abertamente ao estoicismo. Sêneca, que viveu no primeiro século da Era Cristã, pregava que obedecer à natureza é o caminho para escapar às tempestades da existência e às trapaças da fortuna – dos vigaristas, dos golpistas, dos simuladores de virtude, poderia acrescentar o filósofo romano.

De todo modo, temos à mão, para qualquer eventualidade, o remédio soberano do suicídio. Sêneca se matou. Romero Jucá também. Marta Suplicy, desconfia-se que esteja a caminho. Do PSDB, que, por puro oportunismo, se filou ao suicídio público do impeachment, muitos cadáveres insepultos jazem pelo caminho.

— CÉTICOS —

Um permanente estado de dúvida – a impossibilidade de arbitrar entre o que é verdade e o que é falso. Se há alguém aí achando que Pirro de Élis (360-270 a.C.) merecia ser reconhecido como um profeta da Pindorama bananeira, pelo precavido apelo à desconfiança, pode estar se esquecendo de que o ceticismo dos helenistas, depois transferidos para a Roma de Agripa e Sexto Empírico, era uma atitude filosófica de enorme sofisticação intelectual.

Fugir ao dogmatismo não significa abdicar de uma atitude de desafio ético contra os autointitulados proprietários da verdade, aqueles agentes da desinformação sempre a serviço – não é mesmo, Bonner? – do falso dissimulado em verdadeiro.

— PERIPATÉTICOS —

A democracia grega tinha – ao contrário de posteriores republiquetas de caricatura – enorme apreço pela cultura. No Liceu, em Atenas, com suas colunatas (peripatói, em grego) em que mestres e discípulos se apoiavam para encetar longas discussões filosóficas, Aristóteles, fundou em 335 a.C., uma escola voltada para a realidade empírica, em oposição aos delírios especulativos da tradição peessedebista, quer dizer, platônica.

A escola funcionava ao ar livre e os discípulos de Aristóteles, tais como Teofrasto de Lesbos e Estratão de Lâmpsaco, adquiriram o hábito de fazer suas preleções enquanto caminhavam. A partir daí, o termo peripatético passou a significar ensino ambulante. Os peripatéticos ganharam fama de serem bons pregadores, mas não cobravam o dízimo nem estimulavam o atraso.

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